Maternidade

Maternidade pública Sofia Feldman atrai clientes de planos de saúde

Instituição que atende exclusivamente pelo SUS é referência em parto normal

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A advogada Gabriela Sallit com o filho, João: nascimento a 15 quilômetros de casa

É com os olhos marejados que Gabriela Sallit fala sobre o primeiro contato que teve com o filho, João, há um ano e dois meses. "Ele veio direto para os meus braços", lembra, com orgulho. Moradora de uma cobertura na Savassi, na região Centro-Sul, a advogada adora contar sobre o momento em que realizou o sonho de ser mãe. O detalhe: o parto foi feito em um hospital público, a 15 quilômetros de sua residência. Não porque lhe faltassem opções. Duas das mais conhecidas maternidades de Belo Horizonte ficavam bem mais próximas e eram cobertas por seu plano de saúde: a do Hospital Mater Dei, a 3 quilômetros de casa, e a Octaviano Neves, a 2,5 quilômetros. João veio ao mundo em uma banheira no Hospital Sofia Feldman, no Bairro Tupi, na Região Norte de BH. Depois de meses de pesquisa, Gabriela optou por essa maternidade porque queria um parto com o mínimo de interferências médicas e não encontrou um serviço que atendesse às suas expectativas na rede particular. Criado em 1982, o Sofia, como é chamado, é referência na realização de partos normais e na assistência humanizada à gestante. Atende exclusivamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e lá as mulheres são encorajadas a participar ativamente do nascimento do bebê. Na prática, isso quer dizer que elas podem decidir se querem ou não tomar anestesia, em qual posição gostariam de parir e até a música que desejam ouvir na hora de dar à luz. Em grávidas de baixo risco, o parto é assessorado por enfermeiras obstetras, e o médico só é acionado se ocorrer algum problema. Em 2011, foi inaugurada a ala mais recente, o Centro de Parto Normal Helena Greco. Os cinco quartos contam com bola de pilates para as grávidas se exercitarem, além de banheira, banquinho, chuveiro e outros locais onde elas podem encontrar a posição mais confortável para o nascimento. A tal assistência humanizada também passa pelos cuidados que antecedem ao "dia D". A maternidade conta com um Núcleo de Terapias Integrativas, onde 1 600 atendimentos são feitos por mês. Em uma casa simpática a menos de um quarteirão da sede, as futuras mamães recebem tratamentos que ajudam nos desconfortos da gravidez, como massagens e acupuntura. "Isto aqui é bom demais", afirmava, no último dia 4, a cabeleireira Ruty Severino Alves, enquanto descansava as pernas em um escalda-pés. Ela está nas semanas finais de gestação.

Por causa dessa postura, são comuns casos de mulheres que, como a advogada Gabriela, optaram pelo SUS mesmo tendo acesso a planos de saúde e ao conforto dos hospitais privados. No atendimento pela rede particular, elas temem sofrer intervenções indesejadas, sendo que a mais extrema delas é uma cesariana desnecessária. Segundo a Agência Nacio­­nal de Saúde Suplementar (ANS), a cesárea prevalece em cerca de 80% dos nascimentos feitos pela rede credenciada. O número se choca com a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que considera razoável o índice de 10% a 15% de partos cirúrgicos. "Ter um parto normal em um hospital particular depende de sorte: é como entrar numa colmeia e torcer para não ser picada por uma abelha", acredita a bióloga Inessa França, que teve Laura, de 3 anos, e Lucas, de 1 ano e 9 meses, no Sofia. Filha de médicos, ela engravidou aos 34 anos e recebeu dos pais indicações de alguns dos obstetras mais disputados da cidade. "O primeiro já chegou falando que eu era muito velha para o parto normal, e o segundo disse que isso era uma questão para ele resolver", lembra. Insegura com a abordagem dos médicos, Inessa procurou o Sofia e ali encontrou as condições que desejava. A bióloga gostou tanto da experiência que, em 2011, se tornou doula, nome dado a profissionais que apoiam a mulher física e emocionalmente no parto. Ao contrário dos demais hospitais, que costumam permitir que somente uma pessoa presencie o nascimento, lá as gestantes de baixo risco podem levar doulas e escolher outros acompanhantes.

Apesar de terem tido o parto dos sonhos, as mães admitem que a decisão de encarar a rede pública é complexa. Elas sabem do estigma que o SUS carrega - esperas intermináveis, escassez de pessoal e funcionários despreparados. "Quando fiz a primeira consulta em um posto de saúde, tive uma péssima impressão, mas no Sofia foi diferente", afirma a empresária Juliana Saturnino, que há cinco anos teve a filha, Júlia, nessa maternidade. "Conto que ele é pioneiro no Brasil no atendimento humanizado, e muita gente se surpreende", diz ela, que menos de um mês atrás deu à luz o segundo filho, João. Mesmo com um plano de saúde, Juliana escolheu a rede pública pelo bom atendimento que recebeu na primeira gestação. "Quem mais criticou foi minha faxineira, que não entendeu por que eu quis ir a uma maternidade de pobre", ri a arquiteta Tatiana Fernandes. Ela teve sua filha, Manuela, no domingo (10) e conta que fez sua escolha depois de ouvir o relato de outras mães que frequentam a roda Bem Nascer, um grupo de apoio a gestantes que incentiva o parto humanizado.

A advogada Gabriela compartilhou sua opção apenas com o marido. "Foi doloroso abdicar de ter um quarto com o nome do meu filho na porta, mas para mim luxo não é hotelaria, é eficiência técnica e tratamento humano", explica. O Sofia atende às recomendações da OMS na assistência às gestantes, mas ainda é visto com desconfiança por algumas pacientes. Muitas acham que serão forçadas a ficar sem anestesia ou a ter parto normal. Não é bem assim. Em 2012, 24% dos 9 909 partos feitos no hospital foram cesarianas. O procedimento é necessário quando a mãe ou a criança correm algum risco. Há também críticas vindas da classe médica, já que não existe consenso sobre o significado da tão propalada humanização. Para o professor da Fa­­culdade de Medicina da UFMG Cézar Rezende, que não concorda com algumas das práticas encorajadas pelos defensores da desmedicalização do parto, "huma­­­nizar é dar apoio clínico e psicológico ao paciente e a seus familiares". Segundo ele, a mulher ter um parto doloroso no século XXI é um retrocesso. De acordo com o diretor técnico do Sofia, Ivo de Oliveira Lopes, o essencial da assistência humanizada é que a mulher seja a protagonista do nascimento de seu filho, e não o médico. "Temos de devolver à mulher o direito de mandar em seu corpo." O discurso de ambos converge, no entanto, na máxima de que o importante é que a mãe e o bebê estejam saudáveis ao fim da empreitada. Disso não dá para discordar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE