Cidade

Moradores do bairro Mangabeiras e o grupo Oncomed travam batalha sobre o futuro da Fundação Hilton Rocha

Reforma e apliação do hospital aos pés da Serra do Curral vira queda de braço em Belo Horizonte

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

:: Compare o prédio original com a perpectiva do novo Hospital Oncomed clicando na lateral das fotos

Tudo começou no início dos anos 70, quando o então poderosíssimo general Golbery do Couto e Silva, uma das eminências do regime militar, teria agido para que o respeitado oftalmologista mineiro Hilton Rocha, que o havia operado devido a um descolamento de retina, ganhasse autorização para comprar um terreno no pé da Serra do Curral, considerada área de preservação ambiental. Ali, o médico construiu uma clínica que se tornou referência em sua especialidade no Brasil. Depois da morte do oftalmologista, em 1993, a instituição, batizada de Fundação Hilton Rocha, entrou em crise financeira e a Justiça determinou um leilão para quitar suas dívidas. Em 2009, o grupo Oncomed arrematou o empreendimento por 16 milhões de reais. Dois anos depois, anunciou um projeto, orçado em 80 milhões de reais, para transformar a antiga clínica em um moderno centro de tratamento de câncer.

Caso a Câmara Municipal aprove o projeto de lei nº 239/2013, que altera as regras para construções em área de proteção, a Oncomed será autorizada a erguer no local um hospital de mais de 12 000 metros quadrados, com 220 leitos e 300 vagas de estacionamento subterrâneo. De acordo com Amândio Fernandes, sócio da empresa, as obras serão iniciadas mesmo que a lei não seja aprovada. Nesse caso, porém, será feita apenas a reforma do prédio atual. "A previsão é que a licença da prefeitura saia até julho", afirma. As desvantagens, segundo ele, seriam o menor número de leitos e o inconveniente de grande parte dos carros parar nas ruas do entorno.

Mas não é certo que isso vai acontecer. A Associação dos Moradores do Bairro Mangabeiras (Amobam), onde fica a área da discórdia, está em luta contra o projeto. Avançar a qualquer custo é uma forma de pressionar a vizinhança a aceitar o projeto, que já teve parecer favorável do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e do Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município. O Ministério Público Estadual (MPE) arquivou, no ano passado, uma denúncia da Amobam sobre as supostas irregularidades, mas uma representação está em tramitação. "A Serra do Curral será afetada, pois do contrário não existiria uma legislação protetora e impeditiva de edificações", entende o presidente da associação, Marcelo Marinho.

Na semana passada, a Fundação Biodiversitas, por encomenda do grupo Oncomed, divulgou análise segundo a qual a reestruturação vai melhorar a paisagem e promover a "requalificação benéfica" do espaço. "Há quarenta anos seria razoável impedir as obras, mas hoje a área está degradada e o grupo tem condições de erguer um hospital que privilegie o meio ambiente", afirma o presidente da ONG, Ângelo Machado. O projeto é assinado pelo arquiteto Flávio Carsalade, ex-presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (Iepha). "Também é importante pensar na crise de leitos", diz Carsalade. A atual taxa de ocupação dos hospitais da cidade está entre 93% e 96%, ultrapassando o limite recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 75% a 85%. Enquanto os moradores e a empresa usam dados e números para defender suas posições, o complexo que leva o nome de um belo-horizontino que marcou a história da medicina está caindo aos pedaços. O que não é bom para ninguém.

Queda de braço

O que dizem os vizinhos e a empresa que quer a reforma

Moradores

* São favoráveis à construção de hospitais, mas "não em área de preservação"

* A legislação considera hospitais como empreendimento de impacto

* Qualquer construção prejudicaria o corredor ecológico que liga a Mata da Baleia ao Parque do Rola Moça

* Pela escritura, o imóvel só pode ter atividade oftalmológica e é proibida a expansão da área construída

Oncomed

* O terreno foi adquirido em leilão público. Portanto, não se aplicam as regras de sucessão do proprietário

* O projeto tem aprovação de órgãos fiscalizadores

* A expansão não ultrapassa os limites do atual imóvel

* O hospital não tem serviço de emergência. Assim, não há aglomerações nem barulho de sirenes

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE