Crônica

Morro abaixo

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Os muito acomodados e seguros que me desculpem, mas risco faz bem à saúde. Sobretudo se injetar uma boa dose de adrenalina nas veias. Não quero dizer que devamos escalar paredões com centenas de metros de altura, apenas com as mãos e os pés, sem ao menos uma cordinha para impedir a queda. Nada disso. Falo de risco calculado. Sem abrir mão do friozinho gostoso que percorre a espinha e a barriga.

Pegue, por exemplo, a bicicleta e pedale por trilhas íngremes. Atividade aeróbica, saudável, não poluente, boa para a mente e o corpo. Minas Gerais tem mais montanha que candidato a deputado. Se tem montanha, tem descida. Chegue até o alto de um morro, deixe a magrela acelerar encosta abaixo, aproveite a pele e os cabelos arrepiados,

da nuca até a ponta da coluna, sinta a liberdade. Para quem vai ao Serro, a estrada oferece muitos quilômetros de vento no rosto, tantos os declives. Para quem está no Sul de Minas, a rodovia de São Lourenço à Via Dutra traz uma longa curtição. Pena que o tráfego intenso e o desrespeito ao ciclista comprometam o prazer.

Digamos que você queira sofisticar a descida, isto é, aumentar o risco, sem medo de ser feliz. Nesse caso, conheço duas opções com arrepios garantidos. A primeira, na ilha de Maui, no Havaí, nasce a quase 3 000 metros e morre na praia. Por 45 quilômetros, voa-se ao redor da encosta do Haleakala, um vulcão extinto. Bem, quase extinto. Dizem que ele, o maior do mundo, pode entrar em erupção a qualquer momento. Emoção extra para a pedalada. Quem quiser pode acelerar à vontade, como se fugisse de um fluxo piroclástico, a onda de calor, cinza e pedra que detona o que encontra pela frente. Sugiro, porém, esquecer essa possibilidade remota e prolongar a curtição da ilha de Maui, mistura de paisagem lunar, áreas verdes e mar cobalto, sem perder, evidentemente, a velocidade necessária ao prazer do risco. Gente do mundo inteiro faz a descida, portanto a aventura não é exótica, idiossincrasia de quem perdeu o juízo. Ou nunca teve.

A segunda descida, ainda mais radical, tem nome macabro: Estrada da Morte. Nome merecido. Foi considerada a mais perigosa do mundo. Leva à cidadezinha de Coroico, perto de La Paz, na Bolívia. Começa a 4 650 metros, no meio da neve, e acaba a 1 200, sob o sol escaldante. Entre os dois pontos acontece a bela transição da vegetação alpina (ou melhor, andina) para a densa floresta tropical, o que implica remover, no caminho, a roupa de inverno e ficar apenas de bermuda. Enquanto os despenhadeiros se sucedem, delicie-se com as inúmeras curvas à beira do abismo, aproveite a paisagem que mistura o verde da mata, o cinza da rocha e o branco no topo das montanhas, refresque-se nas cachoeiras ao longo da estrada, sinta o ar puro e, é claro, a alegria de enfrentar um desafio sem paralelo. A bicicleta salta mais que boi de rodeio durante 64 quilômetros. Os solavancos deixaram meus braços doloridos.

A cabeça, no entanto, ficou leve, com todos os problemas do mundo reduzidos à insignificância. Nunca me concentrei tanto numa tarefa, jamais pensei tanto em mim. Éramos eu e eu mesmo, juntos. Encontro memorável. Devemos incentivá-lo ao longo da vida. Ainda que precisemos namorar a morte. Uma simples bicicleta pode realizar essa união tão rara. Enquanto se despenca morro abaixo, o risco faz bem à saúde, e o bem-estar sobe às alturas. Bendita adrenalina.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE