Cidade

Após morte de morador e queima de ônibus, polícia irá intensificar ação no Aglomerado da Serra

Maior complexo de favelas de BH deve receber câmeras e unidades integradas da PM e da Polícia Civil

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Concentração de barracos no complexo com oito vilas: 36 000 habitantes

Natural de Ipanema, a 370 quilômetros da capital, Adionízia Beatriz de Miranda mudou-se para Belo Horizonte em 1974, aos 34 anos, acompanhando o marido, que precisava de tratamento médico. Instalou-se com a família em um endereço que, como ela diz, tem uma das vistas mais bonitas da cidade: o Aglomerado da Serra. Lá, criou catorze filhos e pretende ficar até o fim de seus dias. "Quem bebe a água da Serra não quer mais saber de outro lugar", brinca. Ela chegou a ir para Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana, mas voltou à comunidade há cinco anos. Proprietária de uma casa de dois andares e três quartos na Vila Cafezal, uma das oito que compõem o maior complexo de favelas da metrópole, a supervisora de creche aposentada é uma prova de que o Aglomerado, onde vivem 36 000 pessoas, é mais do que o reduto de criminalidade que frequentemente ganha as manchetes dos jornais. Como Adionízia, milhares de pessoas de bem vivem sob o fogo cruzado dos grupos ligados ao tráfico de drogas, que ora estão em disputa entre eles, ora em confronto com a polícia. É em prol dessa população que a Secretaria Estadual de Defesa Social (Seds) promete aplicar 4 milhões de reais, até 2014, em um plano de pacificação da favela. O anúncio é uma resposta à cena de guerra que se viu por lá no fim de novembro, quando dois ônibus foram queimados em repúdio à morte do pedreiro Helenílson Eustáquio da Silva — supostamente envolvido com o tráfico, ele foi baleado por policiais. Na versão dos moradores, houve uma execução. "Precisamos inquietar os malfeitores e proteger as pessoas de bem do Aglomerado", afirma o chefe do Estado-Maior da Polícia Militar, coronel Divino Brito.

O governo ainda não definiu detalhes do projeto, mas informa que uma das ideias é instalar câmeras do programa Olho Vivo e levar as imagens do que se passa ali para a central de monitoramento da PM. Outra é criar uma unidade de ação integrada das polícias Civil e Militar. "Será uma unidade física de referência para o cidadão e para que os policiais conheçam a comunidade e se aproximem dela", explica o secretário Rômulo Ferraz. "Não é uma UPP", completa, referindo-se ao modelo implementado em favelas do Rio de Janeiro. Antes mesmo de ser posto em prática, o plano já divide a opinião dos moradores. Há quem acredite que as medidas ajudarão a melhorar a segurança no local, mas muita gente teme que a presença ostensiva dos guardas possa até piorar as coisas. A professora Floriscena Carneiro, que passou seus 35 anos de vida na Vila Marçola, diz que a agressividade dos policiais deixou marcas dolorosas nos becos e vielas. "É fácil encontrar alguém que tenha um parente morto ou um conhecido que ficou deficiente", diz ela.

A verdade é que os moradores se acostumaram ao silencioso pacto de convivência com os controladores do tráfico. Para não serem incomodados, fingem que não os veem. É fato também que, apesar das dificuldades ainda existentes — a escassez de serviços, além da tensão criada pelo submundo das drogas —, a vida melhorou bastante na favela desde que os primeiros ocupantes, quase todos do interior, começaram a chegar, nos anos 40. A auxiliar escolar Vedina Rosa Pereira ainda se lembra bem das caminhadas que precisava fazer para buscar água em uma bica conhecida como canão. "Não tinha saneamento e o pessoal dependia dessa água para tudo", conta ela, que vive ali há 25 anos. Não havia escolas nem postos de saúde para as crianças. Tampouco existiam linhas de ônibus que subissem o morro. "Passamos tantas dificuldades juntos que criamos um laço perpétuo." Segundo Vedina, a solidariedade entre os vizinhos é a boa herança que ficou dos tempos difíceis. Hoje, há oito instituições públicas de ensino e cinco centros de atendimento médico. Onze linhas de coletivos passam pela região.

O exemplo de Floriscena, mestra em educação pela Universidade Estadual de Minas Gerais (Uemg), deixou de ser uma exceção. Ela é uma das poucas de sua faixa etária a ter título acadêmico. "Depois da criação do Prouni, em 2005, e da implantação da política de cotas, muitos jovens do Aglomerado são universitários", destaca. A estudante Bruna Araújo, de 19 anos, faz parte dessa nova geração que teve mais oportunidades. Criada pela mãe, que é empregada doméstica, concluiu o ensino médio no tradicional Instituto de Educação e agora está matriculada em um cursinho pré-vestibular para tentar uma vaga em engenharia civil. Na escola, não costumava contar aos colegas que vivia no Aglomerado. "Mas hoje não ligo mais, já tenho coragem de falar que aqui não é o que as pessoas pensam", afirma.

Trabalhando há trinta anos por lá, o empresário Otávio Martins Carneiro concorda. Dono de um depósito de materiais de construção, ele foi um dos primeiros a apostar no potencial econômico da favela. "As pessoas diziam que eu era louco de abrir um negócio naquele lugar", lembra. Nos primeiros anos, as vendas se restringiam a itens básicos, como areia e brita. "Hoje, meus clientes querem coisa boa, esquadrias de alumínio, piso de cerâmica, bancada de granito e pia de aço inox." A mudança na empresa de Carneiro é reflexo de outra boa-nova: o aumento do poder aquisitivo. Graças a isso, e também ao financiamento mais fácil, os moradores foram às compras, movimentando a economia. "Antes, eu vendia fiado. Agora, as pessoas pedem para pagar com cartão de crédito", conta Cristiane Chaves, que há cinco anos abriu uma confecção de roupas íntimas no Cafezal. Na loja, há peças de até 100 reais. O que era considerado um luxo, como o carro próprio, virou coisa comum. O trânsito é o único problema que realmente incomoda a aposentada Adionízia. "Aqui era muito silencioso, mas agora há uma fila de carros, todos buzinando", reclama. Nisso, a favela não é mesmo diferente do resto da cidade.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE