Noite

Cadê meu celular?

Furtos durante baladas obrigam boates a investir em melhorias no sistema de segurança

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A boate Mary in Hell, na Savassi, estava mais cheia do que de costume. Com tanta gente disputando um lugar na pista de dança, aquela escuridão e a música alta, era difícil notar qualquer movimento suspeito. Foi só no fim da noite, quando levou a mão ao bolso da frente da calça jeans, que o modelo Brendon Magno Dutra, de 18 anos, percebeu: estava sem o celular. "Você sente as pessoas se encostando, mas não imagina que vão ter essa ousadia", diz Dutra, que passou pela experiência há pouco mais de dois meses. Furtos de telefones são cada vez mais comuns nas baladas belo-horizontinas, já que o ambiente geralmente lotado fa­­cilita a ação dos amigos do alheio.

A estudante de comunicação Lara Dias, de 19 anos, sentiu quando abriram sua bolsa, mas, na confusão, não conseguiu identificar o autor do golpe. Seu prejuízo foi grande. Lara ficou sem seu iPhone, que havia custado 2 000 reais. "Ainda tenho seis prestações para pagar", lamenta. Mesmo com pouca esperança de recuperar o aparelho, ela ligou para seu próprio número e se surpreendeu quando uma voz feminina atendeu do outro lado da linha. "Ela disse que tinha encontrado meu telefone e marcou um encontro comigo na porta da boate para devolvê-lo", lembra. Lara esperou em vão. A moça não apareceu na porta do Velvet Club, também na Savassi, e não atendeu novas chamadas. "Agora, só saio com aparelhos bem simples", conta Lara. "Se for roubada outra vez, o prejuízo será menor."

Embora não existam estatísticas específicas sobre furtos de celulares dentro de casas noturnas, a Polícia Militar reconhece que é alta a incidência desse tipo de crime. Afinal, em tais lugares tudo leva à distração. "As pessoas ficam atentas ao ambiente, ao clima de paquera, e acabam perdendo o foco nos bens, deixando os pertences em mesas ou no bolso de trás da calça", afirma o major Gilmar Luciano Santos, responsável pela comunicação da Polícia Militar de Minas Gerais. Foi o que ocorreu com Juliana Caffagi, de 19 anos. A estudante de publicidade viu um cantinho junto à caixa de som que julgou perfeito para pôr sua bolsa e o celular. "O lugar me pareceu bem escondido e eu estava por perto, de olho o tempo todo", relata. Bastaram poucos minutos de descuido, no entanto, para que ela se tornasse mais uma vítima. Quando resolveu conferir o esconderijo, descobriu, frustrada, que alguém já havia levado o que ela pensou estar protegido. O episódio ocorreu no Lord Pub, no São Pedro. Irritada, a moça nem quis fazer boletim de ocorrência. "Não adianta, essas coisas somem rápido nas mãos dos bandidos."

O Lord Pub é uma das boates que se viram obrigadas a fazer mudanças em seu sistema de segurança. Numa reforma recente, antigas câmeras de vídeo foram substituídas por equipamentos modernos de alta definição. E o número de pontos monitorados subiu de dezoito para 26. Segundo Gustavo Jacob, um dos proprietários, as equipes de segurança e limpeza foram treinadas para prevenir a ação dos criminosos. "Eles ficam de olho em tudo e alertam as pessoas que es­­tão se descuidando dos pertences", explica. O Velvet Club é outro endereço que investiu em reformas. Uma das medidas foi a ampliação da chapelaria, com o aumento do espaço para guardar objetos. A caixa foi transferida para um local mais espaçoso. A ideia é que, sem muito tumulto na hora de pagar a conta, haja menos oportunidades para que os gatunos entrem em ação. "Com a caixa no fundo da boate, ficava tudo embolado quando as pessoas queriam sair, o que aumentava os riscos", diz Luciano Souza, um dos sócios do lugar. A direção do Velvet apostou ainda na conscientização da clientela. Espalhou pela casa cartazes em que se lê, em letras garrafais: "Cuide dos seus objetos pessoais".

A estudante de biologia Júlia Mos­­queira, de 26 anos, é uma das que passaram a seguir a recomendação. Ela foi forçada a mudar os próprios hábitos depois de ter tido dois celulares roubados. Aboliu o costume de deixar a bolsa em cima da mesa enquanto se esbaldava na pista de dança. "Hoje, uso sempre um modelo a tiracolo bem colado ao corpo e guardo o celular em um bolso com zíper." Frequentadora das baladas da capital, Júlia não vê os companheiros de noitadas tomando as mesmas precauções. "A verdade é que as pessoas bebem e acabam se distraindo dos celulares." Fica a dica: se for beber, além de não dirigir, não leve o telefone.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE