Crônica

De novo essa palavra

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

As investigações não cessam: o mundo vive empenhado em sua busca e está de olho em seus rastros. Não se sabe se ela de fato existe ou se é fruto da imaginação. E é na virada do ano que o fantasma da palavra adora marcar presença. Aparece insistente em cartões de Natal, escondida entre as "boas festas" e o "próspero ano novo". Segundo os estudiosos, o significado de felicidade passa longe de ter alguma coisa. Muitas vezes é justamente não ter. Como me livrar de uma lingerie apertada logo que chego em casa. Me faz feliz e dura pouco, eu sei. Logo quero arrancar algo mais que me aperta o peito mas cujo fecho não sei onde fica: medo do futuro, mania de organização, ansiedade por não conseguir ler todos os livros da estante, culpa por não ter ido à ginástica.

"Eu só quero ser feliz", é o que pedimos. Só? E para preencher essas duas letras há um rol tão extenso que o "só" acaba ficando de fato solitário. Ninguém dá conta de acompanhar palavrinha tão exigente. Existe até uma lista científica de ingredientes: qualidade nos relacionamentos; prática de esportes; saber ajudar e agradecer; saborear os momentos da vida; e propor-se novos desafios sempre. Xi! Vai ser difícil se sentir feliz tendo nas costas essa lista de tarefas. Felicidade não é — nem pode — ser obrigação. É consequência, sem nunca ter sido objetivo. E, para complicar, tem identidades secretas que mudam a cada instante.

Pode ser desafio vestido de problema. Prazer disfarçado de trabalho. Pode ser uma livraria, um copo d'água, um banheiro limpo, um halo de silêncio no meio da balada. Pode ser terminar este texto a tempo de entregar. Dizem que ela não tem luxos nem vaidade. Frequenta rodas de samba, curte churrascos na laje, preenche sorrisos com falha nos dentes. Enquanto nós enchemos taças e taças de espumante e só encontramos bolhas. Felicidade é um presente baratinho embrulhado em 1 000 caixas, que a gente passa a vida desembrulhando. É pedir um vestido pelo correio e, depois de muito tempo, receber uma caixa com um colar. Algo que demora a ponto de nos fazer esquecer o pedido e focar o prazer de abrir a encomenda. Se não tem surpresa, não é felicidade.

Ou talvez ela seja só a alegria com roupa de festa, maquiagem cintilante e cílios postiços. Aquela que desfila deslumbrante de salto alto, toma muitos drinques e chega em casa sonolenta demais para se lembrar que é só alegria. No dia seguinte acorda amassada e descobre uma baita dor de cabeça ao dar gargalhadas sobre a noite anterior. Humana, incompleta, factível. Essa a gente tem certeza de que existe. Melhor agarrar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE