Saúde

Número de órgãos doados em Minas Gerais deverá ser recorde em 2012

Nos últimos seis anos, o crescimento foi de 258%, o mais alto entre os estados brasileiros

Por: Carolina Daher e Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Guerreirinhos

"Em outubro de 2010, Nicolly acordou com febre. Dei remédio, mas a temperatura não cedeu. Logo em seguida, ela parou de andar. Fiquei desesperada quando foi diagnosticada a leucemia. Dos meus três filhos, o Dudu foi o único compatível. Quando o vi saindo pela porta de vidro do bloco cirúrgico, em maio de 2011, depois de retirar medula, chorei muito de emoção. Percebi que eu tinha dois guerreirinhos em casa."

Josiane Silva, dona de casa, mãe do menino Eduardo Henrique, de 5 anos, que doou medula óssea à irmã Nicolly Marina, de 3, em maio de 2011.

Um garoto de 15 anos, portador de um tipo incomum de sangue, o AB, foi baleado no último dia 12 em Ribeirão das Neves, na região metropolitana. A família concordou com a doação de seu fígado, mas não havia por aqui pacientes compatíveis na lista de espera. No Recife, porém, alguém aguardava justamente uma doação com essas características. Menos de doze horas após a notificação, um avião do governo pernambucano aterrissou no Aeroporto da Pampulha para buscar o órgão. Três dias depois, uma mulher de 45 anos morreu em Itajubá, vítima de acidente vascular cerebral. Os parentes também autorizaram a retirada de seus órgãos. Na manhã do feriado de 15 de novembro, uma equipe médica do Hospital Felício Rocho embarcou para o município do sul de Minas com a missão de captar o fígado e trazê-lo para a capital, onde um adolescente de 15 anos esperava ansioso pela chance de ter a vida salva. Os que choram a perda de alguém dão a oportunidade a outros para que possam sorrir. E assim se completa um ciclo emocionante que une doadores a pacientes que aguardam um transplante. Quase 2 000 mineiros já ganharam uma vida nova, neste ano, graças à doação de órgãos. A expectativa é que até o fim de 2012 o número de transplantes realizados no estado chegue a 2 300, um recorde.

"As equipes médicas estão mais atentas à notificação de doadores em potencial e as famílias estão mais conscientes e solidárias", diz o cirurgião cardiovascular Charles Simão, coordenador do MG Transplantes, que gerencia o processo de doação e implante de órgãos no estado. Pai de cinco filhos e professor da UFMG, o médico assumiu a chefia do serviço em 2006. Desde então, os procedimentos vêm sendo aperfeiçoados e as campanhas para doação de órgãos e tecidos se intensificaram. O aumento na taxa de doadores efetivos foi de 258%, o maior registrado por um estado brasileiro no período. Passou de 3,6 doações efetivas por 1 milhão de habitantes em janeiro de 2006 para 12,9 em setembro deste ano. Em número absoluto de doações, no balanço de janeiro a setembro de 2012, Minas só perde para São Paulo. "Nos últimos seis anos, mais de 13 000 pessoas foram transplantadas no estado", conta Simão. "É gratificante." Apesar dos dados positivos, ainda há muito trabalho pela frente. Mais de 2 400 mineiros estão na fila à espera de um transplante.

Nas duas últimas semanas, VEJA BH acompanhou o complexo trabalho do MG Transplantes, que coordena seis centrais estaduais de notificação e captação de órgãos — uma na capital e outras cinco no interior (Governador Valadares, Juiz de Fora, Montes Claros, Pouso Alegre e Uberlândia). Onde a maioria só enxerga morte, os profissionais especializados nesses procedimentos veem a possibilidade de salvar vidas. "É impressionante quando um órgão volta a funcionar. É um tesouro", afirma o cirurgião Silvério Leonardo, especialista em fígado do Hospital Felício Rocho. No último dia 15, foi ele quem recebeu a ligação do MG Transplantes avisando que o menino Marcelo Sousa era o primeiro da fila para receber o órgão da mulher que havia morrido em Itajubá (veja o quadro). Eram 9 horas. Pouco depois, uma aeronave do governo estadual já estava à sua espera para a viagem. Foram três horas de trabalho por lá para a retirada do fígado. Já era noite quando o médico chegou ao Felício Rocho, onde Marcelo o aguardava. Do lado de fora, o pai do garoto, o lavrador Arivaldo Sousa, apegava-se às orações. "Tenho de agradecer muito à família da pessoa que doou o fígado", dizia. Quase uma semana após a operação, na última quinta (22), seu filho passava bem. Muito bem. "A única notícia chata desde que acordei é que meu time, o Palmeiras, está rebaixado para a segunda divisão do Brasileirão", brincou, bem-humorado.

Marcelo só tem o que comemorar porque alguém, ainda sob o impacto da dor de perder um parente, concordou com a doação. Foi exatamente o que fez a bordadeira Rose Mary Guirado, em julho de 2004, quando seu caçula, Felipe, então com 21 anos, sofreu um atropelamento na Avenida Cristiano Machado. Algumas horas depois de chegar ao Hospital João XXIII, o rapaz teve a morte encefálica confirmada. Ao ser consultada pelos médicos, Rose Mary já sabia o que responder. "Com 14 anos, quando todo adolescente passa por uma fase de só pensar em si, ele declarou que queria ser doador. Apenas cumpri o seu desejo", conta. Na época, a bordadeira foi criticada por amigos e familiares. "Teve até gente que disse que ele reencarnaria doente porque eu doei seus órgãos." Apesar de todas as campanhas de esclarecimento, ainda há muita desinformação sobre o assunto, o que impede que a evolução do número de transplantes seja ainda maior. "O coração batendo não significa que o paciente esteja vivo", explica a psicóloga do MG Transplantes, Débora Melane. A morte encefálica é constatada após uma bateria de exames feita pelo menos duas vezes por neurocirurgiões distintos. Se não houver nenhum tipo de atividade cerebral, será questão de horas para que o coração também pare. É nesse período, quando o cérebro já deixou de funcionar e o coração ainda bate, que as doações precisam ser feitas, porque os órgãos têm de ser retirados enquanto há circulação sanguínea.

"Não acreditei quando me ligaram para avisar que tinham um doador compatível", lembra emocionado o ferroviário aposentado Armindo Soares. Com o coração novo que ganhou há seis meses, ele diz que nunca sentiu tanta vontade de viver. "Recebi a chance de ver o meu neto Caio, de 8 anos, se tornar homem." Primeiro cirurgião cardiovascular a realizar um transplante de coração em Minas, há 26 anos, Carlos Camilo Smith Figueroa já fez mais de 400 operações desse tipo. "Hoje é um procedimento habitual. Mesmo assim, continua sendo a operação mais bonita que eu conheço. O paciente entra em estado crítico e sai pronto para uma vida nova." O coração é, porém, um dos órgãos menos transplantados — foram apenas 28 em todo o estado neste ano. Mesmo quando a família autoriza a doação, nem sempre dá certo, porque o procedimento é ainda mais complexo. Não é habitual, por exemplo, transplantar o órgão de alguém com mais de 45 anos.

No ranking dos transplantes realizados por aqui, são os de córnea — tecido que pode ser retirado até seis dias após a morte — que lideram, somando 60% do total das cirurgias realizadas em 2012. O número de captações mensais (150) já supera o de pessoas na lista de espera (100). Rim e fígado aparecem, respectivamente, em segundo e terceiro lugar na relação. E o transplante de medula óssea é o quarto mais frequente. Por causa da carga genética semelhante, um irmão consanguíneo é o candidato natural a doador para quem precisa de um transplante de medula. Nem sempre, entretanto, a compatibilidade é completa. No caso da menina Nikolly Marina Silva, que teve o diagnóstico de leucemia confirmado no fim de 2010, apenas um dos seus três irmãos era compatível. Eduardo — o Dudu, como a irmã o chama — tornou-se, aos 4 anos, um super-herói ao salvar sua vida, em 2011. Nikolly, hoje com 3 anos, é pura alegria. "Eles vão crescer e escrever uma história juntos", orgulha-se a mãe, a dona de casa Josiane Santana Silva. É uma bela lição de vida.

UM FÍGADO PARA MARCELO

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

1. Dia 15, às 20 horas - Chegada a Belo Horizonte

Depois de três horas de cirurgia para retirar o fígado de uma mulher que morreu em Itajubá, os médicos Silvério Leonardo e Abel Magalhães, do Hospital Felício Rocho, embarcam de volta para Belo Horizonte. Enfrentam forte turbulência por causa de uma tempestade e aterrissam no Aeroporto da Pampulha, que tem a pista iluminada só por lanternas.

2. Dia 15, às 20h10 - Transporte para o Hospital

A caixa térmica com o fígado é colocada no porta-malas do carro. Desta vez, não há batedores da Polícia Militar para abrir caminho. Mesmo com a cidade em caos por causa do temporal, a equipe chega em menos de meia hora ao hospital, no Barro Preto. O órgão é esperado com ansiedade, como se fosse um paciente em estado grave que precisa de atendimento de emergência.

3. Dia 15, às 20h40 - corrida contra o tempo

Apesar do cansaço, os médicos não podem parar. Eles seguem apressados rumo ao bloco cirúrgico. Trocam suas roupas, higienizam-se e entram concentrados, como se a empreitada estivesse começando naquele momento. O paciente Marcelo Sousa, de 15 anos, também segue para a sala de operações, levado por outros profissionais que completam a equipe.

4. Dia 15, às 21 horas - A preparação do órgão

Em uma sala dentro do bloco cirúrgico, o médico Silvério Leonardo prepara o fígado da doadora para o transplante. É preciso muita atenção na limpeza do órgão e na identificação de cada vaso sanguíneo que será conectado ao organismo de Marcelo. O transplante precisa ser concluído em no máximo doze horas após a retirada.

5. Dia 15, às 22 horas - A longa cirurgia

A equipe médica se reúne em volta do paciente. No corredor, quando a porta se abre para a entrada ou saída de um dos profissionais, o pai de Marcelo, Arivaldo Sousa, tenta enxergar o que acontece ali dentro. O anestesista Tanus Vital Saúde é quem dá as primeiras notícias: tudo está correndo bem. A cirurgia de transplante ainda demorará pelo menos mais cinco horas.

6. Dia 20, às 11 horas - A recuperação

Marcelo comemora a melhora, ao lado do médico Silvério Leonardo. O menino teve sorte. Em tratamento desde março por causa da hepatite autoimune, ele estava na fila de espera havia 26 dias quando surgiu um doador compatível. Se a evolução do quadro clínico continuar boa, Marcelo poderá ter alta nos próximos dias. Torcedor do Palmeiras, em três meses deverá fazer aquilo de que mais gosta: jogar futebol.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE