Literatura

Autor da trilogia “1808”, “1822” e “1889”, Laurentino Gomes dá palestra em BH

Em entrevista a VEJA BH, ele fala sobre as leituras que fez para descobrir detalhes pitorescos da nossa história

Por: Cedê Silva - Atualizado em

Alexandre Battibugli
(Foto: Redação VejaBH)

O jornalista e escritor Laurentino Gomes frequenta desde 2007 as listas dos títulos mais vendidos no país com seus volumes sobre a história do Brasil. Dos dois primeiros, "1808" e "1822", foram mais de 1,5 milhão de exemplares comercializados. Em agosto, Gomes concluiu sua trilogia lançando "1889", livro sobre o começo da República. Na próxima terça (1º), às 19h30, o autor estará na Sala Juvenal Dias, no Palácio das Artes, para o programa Sempre um Papo. Nesta entrevista, Gomes conta algumas das histórias por trás dos livros.

Em "1889", você calcula que as guerras ocorridas pouco após a Proclamação da República mataram cerca de 35 000 pessoas, enquanto a Guerra da Independência matou de 2 000 a 3 000 brasileiros e portugueses. Por que o começo da República foi tão violento?

Porque havia uma discussão entre os brasileiros de como organizar a república, enquanto na independência a luta era basicamente contra os portugueses. Naquela época (1822), Portugal estava em crise, em uma guerra civil, e não tinha condições de enfrentar outro conflito além-mar em um país de dimensões continentais. Mas a Revolução Federalista, a Guerra de Canudos e a Revolta da Armada (ocorridas pouco depois da proclamação da República, em 1889) envolveram divergências profundas entre os brasileiros de como seria o governo. Por exemplo, se uma administração mais centralizada ou mais federalista, com autonomia para as regiões; e qual seria o grau de participação popular nessa nova república. Existia um grupo importante, contaminado pelas ideias de Auguste Comte, que defendida uma ditadura republicana, e quem mais expressava isso era o marechal Floriano Peixoto. Ele queria um regime forte, com Congresso fechado; imaginava que com a liberdade de imprensa permitida, seria impossível consolidar a república.

Esse grupo acabou vitorioso...

Num primeiro momento, sim. Aí os (presidentes) civis, Prudente de Morais e Campos Sales, prometem uma mudança, mas restauram a forma de governar. Permanecia no poder a mesma aristocracia rural; a fraude eleitoral continuou impávida até a revolução de 1930; não houve alfabetização, reforma agrária; os ex-escravos continuaram abandonados, o país não se industrializou. Era como se fosse uma república monárquica.

Seus livros citam frases ditas no calor do momento, como na noite do 15 de novembro, quando o marechal Deodoro disse uma frase particularmente obscena. Onde você acha esses detalhes?

Lendo muito. Li para o "1889" cerca de 150 outros livros , que ainda não tinha lido para escrever "1808" e "1822". Fico muito atento às análises mais profundas sobre a escravidão, às mudanças politicas e tecnológicas do século XIX, etc. Mas também a coisas pitorescas, que não foram devidamente contadas nos livros didáticos. Em livros muto antigos, fora de catálogo, está tudo lá, essas coisas não foram para os livros didáticos. Até porque, às vezes, são constrangedoras para quem quer escrever uma história épica. Imagine registrar que o marechal Deodoro mandou o cara enfiar a espada no c... A história vai sendo asseptizada.

Outro detalhe do novo livro é sobre como Dom Pedro II ajudou a popularizar o telefone, ao encontrar o inventor Graham Bell em uma feira nos Estados Unidos.

Se não fosse por Dom Pedro II, Graham Bell passaria incógnito na história. Ele aparentemente não estava muito convencido das vantagens do "aparato movido a voz humana", como chamava o seu invento. Era professor de uma escola de surdos e mudos, assunto que interessava muito ao imperador do Brasil. Foi a irmã de Graham Bell que o inscreveu na feira e quase o obrigou a ir. Do encontro entre Dom Pedro II e ele resultou a atenção para o invento. Depois da patente, o imperador foi dos primeiros a comprar telefones.

A maior dificuldade é em encontrar bibliografia? Minha maior dificuldade foi resolver algumas contradições. Como a história é instrumento de construção de identidade, vai sendo polida, burilada, para atender a necessidades e convicções ideológicas. Às vezes, as versões se contradizem. Tem a história com viés monarquista e com viés republicano. Por exemplo, a cena famosa em que Deodoro entra no pátio do Ministério da Guerra (no Rio de Janeiro) para depôr o Visconde de Ouro Preto. Segundo monarquistas, ele deu um viva ao imperador. Republicanos dizem que não. Há quem diga que Deodoro prometeu entregar uma lista de ministros, o que significa que ele só pretendia depôr aquele gabinete, mas não derrubar a monarquia. Na falta de fontes mais confiáveis, registro as duas versões e deixo a questão para o leitor.

Você buscou bibliografia, fontes ou estudos que não foram feitos aqui? Sim, nos Estados Unidos há muita pesquisa feita por brasilianistas. A melhor história do nosso Partido Republicano foi feita pelo americano George Boehrer (1921-1967). Lá fora há versões mais isentas da nossa história, são mais equilibradas por causa da distância. Também achei na Biblioteca Oliveira Lima, em Washington, exemplares de um jornal estudantil cearense de 1869. Eu fiquei uma semana lá mexendo em caixas, algumas até empoeiradas.

Outra característica da sua pesquisa é visitar os lugares históricos. Petrópolis, a cidade imperial, tem hoje calçadas muito estreitas e pessoas que dirigem muito rápido. O que podemos aprender indo lá? Para mim, ir a Petrópolis foi uma surpresa até assustadora. Primeiro pensei que era um lugar tipo Versalhes, com espaços amplos, relativamente silencioso. Mas aquilo é o caos. De um lado você tem o ar imperial, o museu, o Palácio de Cristal. Do outro, tudo sitiado por comércio ambulante, o som que vem das lojas. O trânsito é selvagem, você corre o risco de ser atropelado. E quando você se afasta da cidade, em direção a Itaipava, por exemplo, você vê uma paisagem dominada por favelas, casas de laje, sem reboco. O que me impressionou é que Petrópolis é um retrato da miragem que era o Brasil imperial. Um Brasil que se espelhava na Europa, que imitava os rituais das corte europeias, mas cercado por um oceano de escravidão, de pobreza. O que se impôs na paisagem desde então foi esse Brasil real, que fez naufragar o Brasil de sonho.

Afonso Pena foi ministro de Dom Pedro II e depois presidente do Brasil. Qual o papel dos mineiros na deposição da monarquia? A participação de Minas em 1889 foi tímida. Foi mais uma conspiração de paulistas, cariocas e gaúchos. Mas o ideário republicano era muito forte em Minas. Veja o Teófilo Otoni, um grande intelectual, que logo no começo do Segundo Reinado (1840-1889) escreveu um jornal que defendia ideias republicanas. Minas teve papel maior na Independência. O Padre Belchior, nascido em Pitangui, esteve no grito do Ipiranga, que foi antecedido por uma viagem de Dom Pedro I que passou por Vila Rica(hoje Ouro Preto).

Você escreve em "1822" que o texto da Independência foi escrito por Leopoldina e José Bonifácio e que coube a Pedro I apenas o "papel teatral" de proclamá-la. Da mesma forma, Deodoro também não escreveu o texto da proclamação da República. A história do Brasil está cheia de não-acontecimentos? A história do Brasil tem uma série de não-protagonistas. Tanto Pedro I quanto Deodoro cumpriram papéis simbólicos. Deodoro era a única liderança militar com autoridade suficiente para dar um golpe contra o Império, mas quem o preparou foram os cafeicultores de Itu (SP), os gaúchos liderados pelo político Júlio de Castilhos e os militares e jornalistas do Rio. O marechal assumiu a presidência mais por divergências pessoais do que por convicção, até porque era monarquista. Mas considerava-se desprestigiado pelo governo imperial. O Exército sofria com soldos congelados, efetivos reduzidos e perda do prestígio politico de que gozava durante a Guerra do Paraguai (1864-1870).

O que você pretende contar de novo no Sempre um Papo para quem já leu os livros?

Tem sempre detalhes novos. Farei uma discussão importante sobre a proclamação da República e o Brasil de hoje, quais são as heranças e características atuais que podem ser explicadas pela história. É uma discussão que os leitores estão cobrando.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE