Patrimônio

Em Ouro Preto, Matriz de Nossa Senhora do Pilar recebe o título de basílica

A cidade histórica celebra no dia 1º a nova classificação concedida pelo Papa Bento XVI à suntuosa igreja

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O dourado altar-mor da igreja: luxo que deixa os visitantesde queixo caído

Ouro Preto se prepara para uma festa e está limpando a prata da casa para receber os convidados. Na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, a restauradora Maria Angela de Paula dá os últimos retoques ao entalhamento dourado do altar-mor, uma peça do século XVIII. "É um momento de muito trabalho, temos pouco tempo para organizar tudo", diz o padre Marcelo Santiago. No fim de outubro, a matriz foi elevada à condição de basílica pelo Vaticano — um reconhecimento da importância do templo barroco como espaço de peregrinação de fiéis e também como acervo arquitetônico, cultural e artístico. "Vir a Ouro Preto é não ver a Pilar e como ir a Roma e não ver o papa", brinca o pároco. A igreja é uma das mais visitadas na cidade, que é reconhecida como patrimônio histórico e cultural da humanidade desde 1980. Só no ano passado, 86 000 pessoas estiveram diante da impressionante riqueza de seus ornamentos. Para celebrar o título, uma missa solene será realizada em 1º de dezembro, às 19 horas. A notícia pegou de surpresa os católicos ouro-pretanos. Nem mesmo a Arquidiocese de Mariana, à qual estão ligadas todas as igrejas da antiga Vila Rica, esperava receber o comunicado neste ano. Foram menos de três meses desde que, em 15 de agosto, dia dedicado à santa, o arcebispo dom Geraldo Lyrio Rocha anunciou que faria o pedido à Santa Sé. O religioso entregou pessoalmente à Secretaria para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, em 8 de outubro, um livro com mais de 400 páginas contendo todas as informações históricas e artísticas da matriz. Menos de vinte dias depois, o papa Bento XVI assinou o decreto reconhecendo a igreja como basílica. "Uma decisão como essa costuma demorar muitos meses, até mesmo anos", admira-se o padre Marcelo.

Os 300 anos da Matriz de Nossa Senhora do Pilar se confundem com a história de Ouro Preto, localizada a 98 quilômetros de Belo Horizonte. Em 1728, dezessete anos depois da fundação de Vila Rica, a capela de taipa onde era venerada a Virgem do Pilar, padroeira do povoado, foi demolida porque já não comportava o número de fiéis. A nova igreja foi inaugurada em 1733, com uma grandiosa festa registrada como a maior daqueles tempos coloniais. "Foi a apoteose do barroco", afirma o historiador Carlos José Aparecido de Oliveira, diretor do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto. As obras, porém, não pararam com a inauguração. O templo como conhecemos hoje só ficou pronto mais de um século depois, em 1848. Considerada um dos maiores símbolos do barroco mineiro, Pilar se distingue por sua nave em forma de um polígono de oito lados. São seis altares, quatro deles inteiramente cobertos de ouro. Entre as pinturas a óleo, o destaque fica para as quatro estações do ano representadas na parede inferior da capela-mor.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Altar da Igreja de Santa Efigênia parcialmente restaurado: a reforma será retomada até o fim do ano

O reconhecimento da matriz como basílica não é, porém, o único motivo de festa na cidade. Depois de vinte anos fechada, a Igreja São José, que também pertence à Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, reabrirá suas portas em dezembro. O templo, erguido em 1753, foi inteiramente restaurado nos últimos dois anos, com recursos do World Monuments Fund (WMF), organização internacional de proteção a monumentos em risco, e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Com uma única torre central, de onde sai uma varanda, a igreja é um exemplo singular entre as construções religiosas do período. "Ela é a preferida para casamentos", diz o historiador Oliveira. O padroeiro é São José dos Bem Casados. "Agora, com a igreja novinha, vai ter lista de espera", completa, rindo. No dia 2 de dezembro, às 10h30, a São José será reinaugurada com uma missa especial.

Cada templo restaurado na antiga capital de Minas merece mesmo uma grandiosa celebração. Apesar da importância histórica do acervo barroco, muitas das treze igrejas e nove capelas do município estão há anos à espera de reforma. "Quando chega a época das chuvas, o risco é ainda maior para a cidade", ressalta o prefeito Angelo Oswaldo de Araújo Santos. Em pelo menos três igrejas — a do Bom Jesus de Matozinhos e as matrizes São Bartolomeu e Nossa Senhora da Conceição —, o quadro é considerado gravíssimo. Mas faltam recursos para as obras necessárias, segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). "Não há previsão sobre quando elas poderão ser recuperadas", admite Rafael Arrelaro, chefe do escritório do Iphan em Ouro Preto. Prometida há três anos pelo governo federal, a verba do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para as cidades históricas ficou presa na burocracia.

Iniciada em junho de 2008, a restauração da Igreja de Santa Efigênia, patrocinada pelo BNDES, teve de ser suspensa dezoito meses depois, bem longe de estar concluída, por falta de dinheiro. Só com a dedetização contra os cupins que estavam comprometendo a estrutura do imóvel foram gastos 400 000 reais, quase um terço do 1,4 milhão de reais estimados para toda a reforma. Recentemente, a mineradora Vale anunciou a doação de 850 000 reais para a segunda etapa das obras, que deverão ser retomadas até o fim do ano, um alívio para Francisco de Paulo dos Santos, administrador da igreja, que, há 53 anos, dá corda no relógio alemão da fachada. "Ela é muito bonita para ficar fechada", diz Santos. Ele tem razão. Deve ser até pecado privar o mundo de um patrimônio tão esplendoroso.

Seis curiosidades sobre a basílica

O mistério das velas

Uma das justificativas para a demolição da antiga capela, em 1728, foi o fato de as velas não pararem acesas. Por isso, a nova igreja foi construída em posição invertida em relação ao projeto original.

Ouro e prata

Não há informações oficiais sobre a quantidade de metais preciosos usados na ornamentação do templo. Diz a lenda, passada de geração a geração, que foram usados 800 quilos de ouro e prata na sua construção.

Projeto reprovado

Pai do mestre Aleijadinho, Manuel Francisco da Costa Lisboa reprovou parte da obra, obrigando os operários a refazer alguns detalhes, como a claraboia, o que atrasou em quatro anos a conclusão do trabalho.

Questão de Hierarquia

Tribunas suspensas foram construídas nas laterais da matriz, especialmente para os poderosos da época. Quanto mais próximo do governador e do bispo, mais importante era a pessoa.

Peças roubadas

Em 1973, dezessete peças do acervo, incluindo uma Custódia com quase 1 metro de altura, foram roubadas. O assalto nunca foi desvendado. As peças, que somariam 48 quilos de ouro, continuam desaparecidas.

Cripta secreta

Só em 1994, durante uma reforma, foi encontrada a sala secreta embaixo do altar que servia como cripta. No lugar, atualmente, está instalado o Museu de Arte Sacra.

Santa recuperada

O Ministério Público (MP) de Minas Gerais trava uma verdadeira cruzada para recuperar peças sacras roubadas no estado. Como as dezessete furtadas da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, existem outras 677 peças desaparecidas, segundo a Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico. Na última quarta (14), o MP comemorou uma vitória. A imagem de Nossa Senhora do Rosário, levada em 1981 da Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Pedro Leopoldo, foi recuperada. A peça estava em poder do engenheiro paulista Renato Whitaker, tido como um dos maiores colecionadores de arte sacra do país. Considerando só as peças supostamente feitas por Aleijadinho, ele tem 51. Foi no catálogo de uma de suas exposições, em 2004, que os peritos identificaram a escultura de 89 centímetros de altura. Depois de oito anos de batalha judicial, Whitaker foi obrigado a devolver a obra e indenizar em 622 000 reais o Fundo Estadual de Direitos Difusos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE