Crônica

Pela primeira vez

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Mais devagar, filho. Não estou dando conta de acompanhar.

Outro dia mesmo, ao receber aquele amigo dois anos mais velho que você, ouvi toda sorte de gíria no curto trajeto até a casa da sua avó. Por um instante achei que não era sua a voz vinda do banco de trás do carro. Enquanto você se admirava, expressões como "véio", "mermão" e outras nada amigáveis fizeram meus pensamentos ir longe - quase errei o caminho. Depois que seu amigo se foi, sentimos um certo alívio: finalmente o nosso menino estava de volta.

Quando foi mesmo que você passou a não caber mais no meu colo? Em que dia de aula lhe ensinaram tantas palavras? Filho? Você está me ouvindo?

Ver você crescer é maravilhoso - e ao mesmo tempo assustador. Se puder, fique amigo do tempo, em vez de correr atrás ou fugir dele. Aprenda a caminhar no seu ritmo. E não deixe que ele roube de você o sabor das primeiras vezes. Quem se perde cedo dessa sensação passa a buscá-la pelo resto da vida.

Troque o já pelo "ainda não". É lindo não saber das coisas. Não decore mapas nem se vanglorie de saber o caminho. Perder-se pela cidade é uma forma de descobri-la.

Sabe quando você observa uma palavra e começa a achá-la estranha? Acontece de vez em quando. Você pousa os olhos na tela ou no caderno e olha aquele conjunto esquisito de letras. Por um ou dois minutos, você esquece que sabe ler. Outro dia me vi olhando o "mundo" como um desconhecido. O termo ficou esquisito de repente, como se pertencesse a outro idioma. Gostei da sensação.

Tento não me deixar levar pela postura veterana de já ter vivido. Cultivo uma alegria boba de quem está sempre estreando. O sol nasce e se põe todos os dias e em nenhum deles é uma imagem banal. As nuvens se rearranjam para uma nova tela; cada cenário faz um outro sol.

Eu me lembro da primeira vez em que você bebeu algo que não fosse leite. Aquele suco de laranja tinha um significado grandioso. Poder escolher é o que nos diferencia. Escolhas envolvem riscos, riscos aceleram as batidas do coração. É mais vida no mesmo espaço de tempo.

Faça isso agora mesmo: abra a janela e olhe a paisagem como se fosse a primeira vez. Mesmo que sejam prédios cinzentos. Você há de descobrir nuanças de cinza às quais nunca deu atenção.

Fique atento às pessoas: cada uma delas inaugura um sentimento. Dê nome a eles. Banhe-se no medo que vem junto. Pinte uma parede, faça uma faxina, erga um muro alto, visite uma fábrica, descubra como se faz. Faça mal feito e alegremente. Erre até aprender. Cometa erros novos. Mais adiante, reencontre a serenidade - nunca a apatia.

Primeiras vezes vêm embaladas em surpresas. Têm a virtude de nos tornar amadores - quer palavra mais bonita? Ser mãe amadora me rejuvenesce.

Não perca o frio na barriga, filho. Como eu não me separo desse medo bom que você plantou em mim.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE