Inverno

Os perigos que estão no ar

Com o clima seco e as baixas temperaturas, aumentam na cidade a concentração de poluentes e as doenças respiratórias

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Inversão térmica: mais frio e pesado, o ar não sobe para a atmosfera e os poluentes não se dispersam, criando assim uma espécie de tampa sobre BH

A relações-públicas Natália Queiroz queixa-se de que está sempre com o nariz congestionado e os olhos lacrimejantes. "É muito ruim não conseguir respirar direito", diz ela, que sofre de rinite alérgica. A reclamação tem sido frequente nos consultórios médicos. Com o tempo seco e frio - na última quarta (27), os termômetros registraram a menor temperatura do ano, 10,6 graus, às 6 horas, na Avenida Raja Gabaglia -, os efeitos da poluição ficaram mais agudos. Uma nuvem de poeira paira no céu de Belo Horizonte. Para quem trabalha na região central, com trânsito intenso e muitas obras em andamento, o ato de respirar pode ser tão tóxico quanto o de inalar nicotina. "É como se uma pessoa fumasse cinco ou seis cigarros por dia", estima o pneumologista Eliazor Campos Caixeta, diretor do Hospital Maria Amélia Lins.

A explicação para a piora da qualidade do ar durante o inverno é o que os meteorologistas chamam de inversão térmica. Traduzindo, o ar próximo do chão está mais frio e pesado. Assim, não sobe para a atmosfera. As montanhas que cercam Belo Horizonte bloqueiam a dispersão dos poluentes. É como se houvesse uma tampa sobre a cidade, um cobertor invisível que retém a poluição próximo ao solo. E é esse ar tóxico que respiramos. O quadro é ainda mais grave porque as vias aéreas, em consequência do tempo seco, estão ressecadas e não conseguem impedir com a mesma eficiência a entrada de substâncias nocivas no organismo. "A perda da função da mucosa reduz a proteção ao pulmão", explica Caixeta.

Como este é um dos maiores órgãos do corpo humano - se todos os seus alvéolos pudessem ser esticados, eles ocupariam a extensão de uma quadra de tênis -, a exposição às toxinas torna-se uma ameaça à saúde. Um problema puxa outro. Quem está com o nariz obstruído passa a respirar pela boca, que não tem o poder de umidificar e aquecer. Por isso, o ar chega ao pulmão com pior qualidade. A sensação de secura e irritação na garganta, a tosse e a presença de secreção são reações do organismo humano, que tenta lutar contra as impurezas.

"A irritação da mucosa do nariz favorece a sinusite, que é a inflamação do seio da face. Isso pode provocar uma infecção, responsável por outras doenças, como otite, faringite e amigdalite", alerta a alergologista e pneumologista Marisa Lages Ribeiro, do Hospital Infantil São Camilo. Nos hospitais, a fila de espera para atendimento mais do que dobra nesta época do ano. As principais vítimas costumam ser as crianças e os idosos, além dos asmáticos.

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(Foto: Redação VejaBH)

Para driblar as reações típicas e evitar o agravamento do quadro clínico, a relações-públicas Natália lava o nariz com soro fisiológico e faz uso de medicamento nasal várias vezes por dia. "Os vidros ficam junto com a escova de dentes", conta (veja outras dicas para conviver melhor com a poluição no quadro). Ela imaginava que se sentiria ainda pior quando fosse a São Paulo, mas descobriu, surpresa, que respirar por aqui anda tão difícil quanto lá.

O que a belo-horizontina constatou na prática, o Instituto Brasileiro de Geo­grafia e Estatística (IBGE) comprovou em uma pesquisa divulgada durante a Conferência Rio+20. Das sete maiores regiões metropolitanas do país, a Grande BH foi a que registrou a pior concentração de monóxido de carbono. Por aqui, o índice é de 13 863 microgramas por metro cúbico, bem acima do observado em São Paulo (8 196 microgramas) e no Rio de Janeiro (9 304 microgramas). A região foi a única com concentração superior ao máximo aceitável pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que é de 10 000 microgramas por metro cúbico. "É mais difícil que as partículas se dispersem em regiões montanhosas como a de Belo Horizonte", afirma o técnico do IBGE José Antônio do Nascimento, responsável pela pesquisa do Indicador de Desenvolvimento Sustentável 2012. Segundo ele, outro dado preocupante na cidade é a concentração média anual das partículas inaláveis associadas às doenças respiratórias, conhecida como PM10. Enquanto São Paulo e Rio de Janeiro registraram quedas significativas, a capital mineira não conseguiu melhorar o quadro. A concentração entre 1998 e 2010, período do levantamento, manteve-se estável em 25 microgramas por metro cúbico.

A expansão da frota da capital, que hoje tem 1,46 milhão de veículos, contribuiu para a piora da qualidade do ar nos últimos anos. Embora o número de carros não pare de crescer, faltam programas de controle de emissão de po­luentes por aqui. A prefeitura mantém, desde 1988, a Operação Oxigênio, que só fiscaliza a emissão de fumaça preta dos veículos movidos a diesel. Além disso, há o telefone 156 para denúncias. E só. "A cidade cresceu, o que é bom, mas a poluição chegou e terá um efeito a longo prazo em nossa saúde", lamenta o analista de negócios internacionais Luiz Moura Castro. Há um mês, ele passou a usar um spray para aliviar o nariz, que está sempre irritado. Como Castro, muitos belo-horizontinos sentiram-se obrigados a tomar providências semelhantes nos últimos tempos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE