Crônica

A personalidade do pão de queijo

Por: Luís Giffoni - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

"Dize-me o que comes, e direi quem és", afirma o velho ditado. Em outras palavras, a comida moldaria a personalidade. Se for verdade, tem muita gente encrencada. Seriam os vietnamitas e chineses venenosos, pois gostam de aguardente curtida em cobras e escorpiões jogados vivos dentro da garrafa? Os mexicanos e tailandeses, com suas pimentas piores que fogo, passariam por infernais? Como o chucrute, cujo efeito intestinal não é lá dos mais agradáveis, marcaria os alemães? Os ingleses, com aquela horrível torta de rim, que consequências sofreriam? Teriam um humor "horrímvel"? O que dizer dos árabes, apreciadores do olho de carneiro ingerido cru, que estoura na boca igual jabuticaba? Formariam eles um bom time de olheiros? A fama que os franceses gozam de correr em disparada diante do exército inimigo resultaria de seu cardápio com carne de cavalo? Nós, brasileiros, aman­­tes de uma feijoada, com que cara ficaríamos?

Ah, sim, ia me esquecendo. Temos, em Minas Gerais, o pão de queijo. Estamos ligados qual mel e abelha. Quando querem falar mal da gente, acusam-nos de República do Pão de Queijo. Quando nos adulam, elevam nosso acepipe à categoria de revelação divina. Políticos em campanha presidencial alçam a quitanda ao nível da buchada de bode, que juram degustar com enorme prazer. E depois nos apunhalam. Há alguns anos, na embaixada brasileira em Londres, após palestra sobre Guimarães Rosa, um diplomata engraçadinho reservou seu melhor sarcasmo para mim:

"E aí, mineiro, está sentindo falta de pão de queijo na Inglaterra?".

Pois não é que, dali a pouco, serviram o danado, saindo do forno, saboroso? O tal diplomata engoliu vários, como se fossem sapos. Diplomacia é, também, a arte de engolir pães de queijo.

"Dize-me o que comes, e direi quem és." Seria mesmo verdade? Então, que personalidade o pão de queijo nos reserva? Ele nos faz cordatos, conciliadores, re­­servados, como gostamos de nos descrever? Posto de outra forma, ser mineiro é gostar de pão de queijo? Nada disso! As Minas são muitas, e os mineiros têm a diversidade da espécie humana. Sim, há gente apaziguadora, mas há in­­flamados. Há os que dão um boi para evitar briga e os que não dão nem o berro do boi para fugir dela. O número de tradicionalistas talvez equivalha ao de rebeldes. Como em todo lugar, possuímos políticos honestos e corruptos. Sim, Minas é o mundo, sempre foi.

Prova disso são os presidentes do Brasil aqui nascidos nas últimas décadas, todos com certeza devoradores de tão elogiada e difamada iguaria, porém com personalidades diferentes. Ou teriam Juscelino, Tancredo, Itamar e Dilma tratos semelhantes, a ponto de culparmos o pão de queijo pela coincidência?

Além do mais, sabe o caro leitor onde encontrei pão de queijo legítimo, delicioso, que o padeiro jurou ser nativo da terra, velho de séculos? Na Argentina. Isso mesmo, na Argentina. Provei-o entre nossos hermanos tidos como metidos, fervorosos, de sangue caliente, segundo a lenda urbana. O padeiro era tão gentil que merecia ser tratado por hermanito. Entre a gentileza exacerbada e o sangue caliente oscila o quepán, como o denominam por lá. Resumindo a novela: a comida nada influi no comportamento.

O ditado é falso, portanto. Na verdade, dize-me o que comes, e não saberei quem és. Ainda bem. Privacidade é tudo. Podemos continuar apreciando, sem culpa nem consequência, o pão de queijo saindo do forno com um expresso bem forte ou um cafezinho coado na hora. Hummm... O mundo ainda se curvará ao nosso gosto. Cá entre nós, pois os mineiros nos entendemos bem, mas que ninguém nos ouça: eta trem bão, né?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE