Trânsito

Pesquisa feita por seguradora mostra que falar e teclar ao celular é a causa de 30% dos acidentes

Poucos instantes de distração ao volante podem ser fatais, alertam especialistas

Por: Paola Carvalho e Carolina Daher - Atualizado em

Leonardo Alvarenga Santos
(Foto: Redação VejaBH)

Na madrugada de 13 de junho, o Prisma do empresário Régis Porto capotou na BR-356, no Belvedere: há indícios de que o motorista usava o aplicativo WhatsApp

Asala de cinema em Hong Kong está lotada para o início da sessão. Na tela, surge o vídeo de um motorista que dá a partida no carro e segue pela rodovia. Nesse momento, todos na plateia recebem uma mensagem no celular. A maior parte deles desvia o olhar da cena para ler o texto e... crash! Um estrondo faz os espectadores voltar a atenção para o filme e deparar com a imagem do para-brisa em pedaços, depois de o automóvel ter batido contra uma árvore. "O uso do celular agora é a principal causa de morte ao volante", diz o texto que aparece na telona. "Um lembrete para manter seus olhos na estrada." A campanha educativa, patrocinada pela montadora Volkswagen, que foi postada no YouTube e vem repercutindo na internet, reflete uma preocupação que cresce mundo afora. A utilização indevida de telefone já é o principal motivo de distração ao volante. É responsável por três em cada dez acidentes de trânsito, conforme mostra uma pesquisa realizada pela seguradora Allianz nos setenta países onde atua. "O dado é global, mas retrata fielmente o que ocorre no Brasil", diz o diretor de sinistro da empresa, Laur Diuri. Faltam estatísticas locais sobre a questão. Sobram, entretanto, indícios de que o cenário não é diferente por aqui. Foi assim que os sonhos do empresário Régis Bittencourt Porto, de 33 anos, ficaram na estrada. Na madrugada de 13 de junho, ele conduzia seu Prisma pela BR-356, no bairro Belvedere, quando perdeu o controle da direção. O veículo capotou, cruzou o canteiro central e só parou 50 metros adiante na pista contrária. Quando o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) chegou, Porto, pai de três filhos, já estava morto. "Tudo indica que ele estava utilizando o WhatsApp no telefone", afirmou, na ocasião, o sargento Islande Gonçalves. Seu aparelho registrava a troca de mensagens pelo aplicativo instantes antes do ocorrido.

A popularização dos smartphones e dos apps fez surgir uma espécie de sentimento coletivo de urgência, como se cada ligação ou mensagem não pudesse esperar para ser respondida. No levantamento realizado pela Allianz, 40% dos motoristas entrevistados confessaram fazer ligações telefônicas sem usar o viva-voz. Os que admitiram ler mensagens de texto enquanto dirigem foram 30%. E 20% assumiram escrever mensagens estando ao volante - no grupo dos condutores com idade até 24 anos, o índice foi ainda mais elevado: 25%. "É comum ver jovens publicando imagens de suas aventuras, ou melhor, dos delitos que cometem no trânsito", afirma Diuri. De acordo com o Código de Trânsito Brasileiro, usar o telefone ao mesmo tempo em que dirige é uma infração média, que resulta em multa de 85,13 reais e 4 pontos na carteira de habilitação. Entre janeiro e junho, quase 40 000 belo-horizontinos foram multados por esse motivo - uma média de 215 autuações por dia. Trata-se da segunda infração mais frequente na capital, atrás apenas de excesso de velocidade. "O que os policiais conseguem registrar é muito pouco diante do que a gente sabe que acontece", diz a delegada Carla Cristina Vidal, da Delegacia Especializada em Acidentes de Veículos. Boa parte dos que desrespeitam a lei escapa impune porque a multa depende da ação de agentes, diferentemente da alta velocidade, que é flagrada por radares.

Gustavo Andrade/Odin - Nereu Jr/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O Honda Fit de Thiago Lage, na BR-356, em setembro de 2012: segundo o pai, o estudante trocava mensagens com a ex-namorada

Os motoristas tendem a subestimar o risco dos instantes gastos para atender um telefonema ou ler uma mensagem, mas os especialistas lembram que um pequeno intervalo de tempo pode significar a diferença entre atropelar ou conseguir frear antes de atingir um pedestre. "Distrair-se de quatro a cinco segundos na direção, a 100 quilômetros por hora, é como fazer de olhos fechados um percurso de 120 metros, o equivalente a uma fila de trinta carros pequenos", explica Dirceu Alves Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet). "O que faço é uma seleção das chamadas que considero importantes", conta o empresário Felipe Viegas, que, só neste ano, já levou três multas por causa da imprudência. "De dez, atendo três." Mas basta uma para pôr vidas em risco, alerta a delegada Carla. Segundo ela, usar celular ao volante é tão perigoso quanto dirigir alcoolizado, e a punição deveria ser bem mais rigorosa.

+ Confira alguns vídeos de campanhas contra o uso do celular ao volante

Especialista em educação e segurança no trânsito, Eduardo Biavati concorda com a delegada. "No Brasil, não temos a noção do exato tamanho do problema, estamos atrasados em relação a outros países", afirma. De acordo com Biavati, cada vez que o motorista pega seu smart­phone, compromete as habilidades cognitiva, visual e mecânica, desconectando-se do ambiente ao redor com o carro em movimento. "Trata-se de uma distração múltipla que não deveria ser considerada infração média nem ter uma multa de valor tão baixo", reclama. Ele defende a ideia da necessidade de fazer uma alteração no Código de Trânsito Brasileiro, embora não veja disposição por parte de deputados e senadores para discutir o tema no Congresso. Será preciso, antes, que campanhas como a exibida no cinema de Hong Kong se popularizem por aqui e contribuam para a conscientização dos motoristas. A arquiteta Janaína Massote é exemplo de quem já tenta mudar os hábitos. "Eu poderia ter batido o carro ou machucado alguém", admite. "Mereci ser repreendida." Depois de ter sido multada na Avenida do Contorno, ela decidiu manter seu aparelho dentro da bolsa sempre que estiver dirigindo.

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Um dos obstáculos para dimensionar a influência do celular nos acidentes ocorridos nas cidades brasileiras é a resistência dos próprios condutores em reconhecer o erro. "O motorista sempre nega que estava usava o celular no momento da ocorrência para não produzir provas contra si mesmo", explica Carla. Em casos de morte, os familiares da vítima também costumam preferir o silêncio e evitam qualquer comentário sobre o ato imprudente do condutor, talvez para não macular a memória do ente querido. O chef Rafael Lage foi uma exceção. Seu filho, o estudante de direito Thiago, descia a BR-356 quando não conseguiu fazer a curva do Ponteio, no Belvedere. Com apenas 19 anos, ele morreu em setembro de 2012, preso às ferragens do Honda Fit que dirigia, após se chocar contra uma árvore. O pai, na época, revelou que o rapaz havia terminado um relacionamento ho­­ras antes e trocava mensagens com a ex-namorada, o que pode ter sido a causa do acidente fatal. Na ânsia de usar o celular, Thiago se esqueceu de manter os olhos na estrada.

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE