Eleições

Pimenta da Veiga tenta manter os tucanos no comando do governo de Minas

Sem ocupar cargo político há mais de uma década, o advogado luta para garantir a hegemonia do PSDB no estado

Por: Alessandro Duarte, Ivana Moreira e Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

As 7h50, dez minutos antes do horário combinado, o advogado Pimenta da Veiga, do PSDB, chegou para a entrevista marcada com VEJA BH, na quarta-feira (24). "É preciso ser pontual e fazer propaganda da pontualidade para que as pessoas não se atrasem com você", diz. "Às vezes, chego antes do Anastasia", exibe-se, referindo-se ao ex-governador Antonio Anastasia, famoso pelo respeito ao relógio. Aos 67 anos, o belo-horizontino tem o desafio de manter a administração estadual nas mãos dos tucanos pelo quarto mandato consecutivo - uma tarefa que se tornou mais difícil do que previam seus correligionários. Segundo ele, a coincidência de nomes entre os dois principais candidatos ao governo de Minas virou uma grande dor de cabeça para sua campanha. Nas viagens pelo interior, garante encontrar quem pense que é Fernando Pimentel, do PT, e não ele, o sucessor de Aécio Neves e Anastasia. "Meu adversário, que é um lobo em pele de cordeito, percebeu que isso poderia favorecê-lo." Na reta final da campanha, a ordem é martelar seu número (o 45) na cabeça dos eleitores.

Não é a primeira vez que Pimenta da Veiga tenta se eleger governador dos mineiros. Em 1990, ele renunciou ao cargo de prefeito de Belo Horizonte para disputar o Palácio da Liberdade. Acabou em terceiro lugar, atrás de Hélio Garcia (PRS) e Hélio Costa (PRN). Filho do advogado criminal e ex-­deputado federal João Pimenta da Veiga (1959-1960) e da professora Edith Paraíso, ele entrou na política para enfrentar os militares. Aos 31 anos, elegeu-se deputado federal pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Ao todo, foram quatro mandatos na Câmara Federal, o último deles pelo PSDB, legenda que ajudou a construir ao lado de nomes como Fernando Henrique Cardoso, Mario Covas, José Richa e Franco Montoro. Entre 1999 e 2002, no segundo mandato de FHC, Pimenta da Veiga foi ministro das Comunicações e esteve à frente das privatizações no setor. Quando deixou o cargo, resolveu se afastar da vida pública e se dedicar às consultorias jurídicas. "Achei que era hora de cuidar da minha vida privada", lembra. Um de seus cinco filhos, Vinícius, morreu dois anos depois, vítima de câncer. Ele também é pai de Juliano e Isadora, do primeiro casamento, com a dermatologista Elizabeth Pederneiras, e de João Neto e Pedro, da união com a jornalista Ana Paola Frade, de 48 anos. "Só ela rivaliza comigo em atividades", diz, sobre a dedicação da mulher à pesada maratona da campanha.

Em abril deste ano, o candidato tucano - cujo patrimônio declarado é de 10,5 milhões de reais - foi indiciado pela Polícia Federal por suspeita de lavagem de dinheiro. Em 2003, ele recebeu 300 000 reais da agência de publicidade SMP&B, de Marcos Valério, o articulador do mensalão do PT. "Como advogado, fui contratado, executei o trabalho e recebi os honorários", afirma. Segundo ele, essa investigação, uma década depois, tem motivações meramente eleitorais. "Isso não vai dar em nada", diz. "Mas será só depois das eleições." Em maio, o Ministério Público devolveu o caso à PF, pedindo novas diligências. Confira as respostas do candidato para as questões formuladas por quinze personalidades da capital.

Gustavo Greco, designer Sem recorrer ao slogan da campanha, em um exercício de síntese, diga em uma frase: por que devo votar no senhor?

Pela experiência administrativa que tenho, pelo lado em que estou na política e pelas propostas que apresento.

Paulo Leite, apresentador de TV As pesquisas mostram que o eleitor não o identifica como alguém que participou da política contemporânea do estado. O senhor acredita que ainda dá tempo de convencer o eleitorado de que é um político ligado a Minas? Como fará isso?

Essa foi uma arma usada pelo adversário na falta de qualquer outro defeito para apontar. Nós, no início, não levamos isso muito em consideração, mas acabou nos prejudicando. Ninguém é mais ligado a Minas do que eu. Fui deputado quatro vezes, prefeito de Belo Horizonte, ministro. É uma coisa em que só os incautos acreditam, mas teve certo peso na campanha. Nestes dias restantes, vou procurar demonstrar a permanente ligação que tenho com Minas.

Eduardo Costa, radialista Não fica constrangido por discutir na TV qual dos dois, o senhor ou Pimentel, ficou mais tempo fora de Minas?

Fiquei fora da mídia, não fora de Minas. Basta pesquisar nos tribunais mineiros para ver quantas sustentações orais fiz em BH e em outras cidades do estado como advogado. De maneira que não tenho nenhum constrangimento. Da minha parte, estive presente todo o tempo. O importante não é a presença física. Meu adversário, sim, virou as costas para Minas. Ele deixou que a fábrica da Fiat fosse embora, que o polo acrílico fosse embora, não trouxe verbas para cá como ministro poderoso.

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)

Ronaldo Fraga, estilista Como o senhor pretende fugir da distribuição de cargos aos partidos coligados para garantir que especialistas imprimam um caráter técnico ao governo?

Eu tenho alguns critérios dos quais não me afastarei em nenhuma hipótese. Primeiro, o indicado a qualquer posição tem de ter absoluta consciência ética. Segundo, precisa ter conhecimento específico para a área onde vai servir. Terceiro, deve ser alguém de absoluta lealdade. Esses são os meus critérios. Não tenho nenhum compromisso com nenhum partido para atender esse ou aquele em qualquer espaço administrativo.

Carlos Nunes, ator A não regionalização da TV impede que se criem ídolos locais nas artes cênicas. Quais são seus projetos concretos para fundar uma emissora mais forte em Minas e valorizar seus profissionais?

Como ministro das Telecomunicações, dei muita ênfase às geradoras educativas, porque acho que elas têm várias finalidades. Uma delas é valorizar as vocações artísticas da região. É preciso valorizar a TV Minas como um celeiro de talentos.

Pachecão, professor e consultor Já que da consciência pouco podemos esperar, o que fazer para acabar de vez com a roubalheira na política?

Escolher bem na hora de votar. Esse é o melhor remédio. Ver o perfil ético de cada candidato.

Tatiana Mattar, presidente do Instituto de Formação de Líderes Minas se encontra em situação financeira delicada e tem um trabalho enorme de infraestrutura a ser feito. O senhor defende a parceria com as empresas privadas como uma solução?

Eu não tenho nenhuma dúvida de que toda a infraestrutura que puder ser feita pelo capital privado deve ser realizada, mediante justa e adequada remuneração. Se nós pudéssemos fazer de uma vez toda a infraestrutura atraindo capitais de qualquer origem, deveríamos fazer.

Rodrigo Ferraz, coordenador do Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes e dono de bares Nos últimos anos, houve um trabalho de estímulo à gastronomia, com redução de impostos e participação do estado em eventos de destaque nacional e mundial. O que o senhor pretende fazer para dar continuidade a isso?

Minas está cada vez mais conhecida como um dos estados com melhor gastronomia. Existem dois caminhos para que isso tenha uma valorização ainda maior. Um deles é um grande e permanente trabalho de marketing. O outro é o desenvolvimento do turismo, que será uma das ênfases do nosso trabalho.

Marcelo Franco Porto, especialista em transportes Qual a sua proposta para a implantação do metrô e de sistemas de transporte sobre trilhos na capital e em cidades médias do estado?

Vou falar sobre a capital metropolitana, que é o ponto no qual a mobilidade precisa ser atacada com mais rapidez. A primeira providência deve ser desenhar definitivamente o metrô, o sistema de transportes sobre trilhos para a região. A meu juízo, devemos projetar de Betim a Confins e de Ribeirão das Neves ao Jardim Canadá. Temos de fazer o governo federal, que investe em metrô em muitas capitais brasileiras e até no exterior, participar de forma efetiva. E executar estabelecendo tarefas anuais. Devemos trazer um tatuzão para cá, que tem uma produção de mais ou menos 15 metros por dia. Contratar uma máquina de tal proporção só se justifica quando há planejamento para um determinado número de quilômetros. Se o governo federal cumprir a sua parte e houver parceria efetiva com o estado, em dez anos poderemos executar todo o transporte sobre trilhos que precisa ser feito na região metropolitana.

Luís Giffoni, escritor e colunista de VEJA BH Em Minas, o ensino médio não alcançou os objetivos do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) para este ano e até recuou. Como o senhor pretende atacar esse problema?

Primeiro quero dizer que, no ensino fundamental, Minas tem a melhor classificação do Brasil. Já tinha em relação aos quatro anos iniciais e agora tem também nos quatro anos finais. E o ensino fundamental em Minas Gerais tem sua competência, na prática, dividida entre o estado e os municípios. É uma participação bastante significativa, a do estado. Quanto ao ensino médio, queremos fazer coisas muito importantes. Primeiro, vou desenvolver com a maior velocidade e a maior extensão a educação em tempo integral. Vou mandar um projeto de lei à Assembleia Legislativa determinando que todas as novas escolas construídas em Minas sejam preparadas para o ensino integral. Por outro lado, vamos aprimorar o ensino profissional para que o jovem tenha qualificação o mais cedo possível e, a seu critério, possa iniciar suas atividades laboriosas. Outro ponto: desenvolveremos o Poupança Jovem de modo a estimular a permanência na escola. Com essas três medidas, a evasão vai diminuir muito, o aproveitamento escolar vai crescer e o jovem estará protegido da criminalidade, o que é um dos objetivos fundamentais.

Angela Gutierrez, empresária Qual é o seu plano de ação cultural para o interior do estado?

Outro dia estive em Guaxupé e pude visitar um teatro que, há muito tempo, foi um dos principais hotéis da cidade. O espaço depois foi abandonado, desapropriado e lá se instalou um interessantíssimo complexo cultural. É isso que pretendemos fazer. Queremos desenvolver simultaneamente centros culturais e centros de convenções em todo o interior. Nossa ideia é a descentralização. Sempre busquei isso na minha vida. Desde a minha primeira função pública, tenho um norte: a descentralização e a universalização. É o que vou fazer, inclusive na cultura.

Ana Paula Valadão, cantora Quais são as suas propostas para que a religião evangélica tenha o mesmo tratamento e os mesmos benefícios que a católica?

Eu respeito muito as religiões e tenho trânsito em todas elas. Na campanha, estive em dezenas de templos. Não sei exatamente a que restrições a Ana Paula se refere, mas posso dizer que cumprirei integralmente o que está na Constituição, que diz que o Estado é laico e todas as religiões devem ser respeitadas. Elas certamente serão.

Anna Vitoria Motta, empresária Em Minas, a venda de bebidas alcoólicas nos estádios ainda está proibida. Qual é a sua posição sobre o assunto?

Nós temos de fazer com que as partidas de futebol sejam um momento de lazer, entretenimento. E não de conflito, às vezes perigoso, com feridos e até mortos. A bebida é um estímulo à violência. No momento em que avaliarmos que os estádios estão absolutamente tranquilos, poderemos pensar em revogação dessa proibição. Mas, enquanto isso não acontece, é melhor que os estádios sejam protegidos de qualquer excesso.

Frei Cláudio van Balen, padre da Igreja do Carmo O aborto é um problema social gravíssimo que aflige nossa sociedade. Só em Minas são feitos 80 000 abortos clandestinos por ano. O que o senhor pensa sobre a questão? Seu governo terá alguma iniciativa nessa área?

O aborto não deve ser meio contraceptivo. Acho que o assunto é tratado corretamente pela legislação atual.

Gustavo Penna, arquiteto Minas tem realidades muito diferentes, como são a do Jequitinhonha e a do Sul. Qual a sua proposta para que as crianças mineiras conheçam as outras realidades de seu estado? O senhor não acha que vale mais a pena mostrarmos Minas a mineiros do que à rainha da Inglaterra?

Acho que devemos mostrar Minas aos mineiros e aos estrangeiros, mas sobretudo aos brasileiros. É importante a atividade turística, e nós possuímos atrações que precisam ser corretamente exploradas. Em relação às crianças, esse é um dos planos que mais me fascinam. Minas dispõe hoje de um conjunto cultural que, a meu ver, não tem paralelo no Brasil: a Praça da Liberdade. Aquilo é um encanto. Sugiro a todos os meus amigos de fora que vêm a Minas que visitem a praça. Nenhum deles deixou de me contatar depois para dizer como ficou impressionado. Quero que crianças de todas as partes do estado, dentro de um calendário estabelecido, venham a Belo Horizonte para visitar o nosso circuito cultural, que começa na Praça da Estação, passa pelo Cine Brasil, pela Rua da Bahia, pela Praça da Liberdade e vai até a Casa Fiat. Eu já visualizo uma série de ônibus despejando crianças ali, com bons monitores, para conhecer um pouco da nossa história e da nossa cultura. Esse é um projeto que eu aplaudo e com o qual me comprometo.

+ Leia a entrevista com o candidato Fernando Pimentel

Jogo rápido Tem alguma superstição?

Tenho uma razoável racionalidade. Tirando escada, gato preto, número 13, não tenho, não... (risos)

Engordou ou emagreceu durante a campanha?

Eu me policio para não ter alteração de peso.

Qual o seu peso e a sua altura?

Tenho de revelar?! Noventa quilos e 1,77 metro de altura.

Faz ou já fez análise?

Não, eu convivo bem com os dramas da vida.

A maior loucura que fez.

Me candidatar (risos). Uma vez, na Bahia, fui de jet ski para o mar aberto. Deus me protegeu e consegui voltar.

E a maior emoção?

Foram muitas, nem sei precisar. Mas foram na vida pública.

Qual a característica mais importante em um homem?

O caráter.

E o que mais admira em uma mulher?

O caráter.

Tem medo de quê?

Como diz um amigo meu, de nada, só do ridículo.

Qual a sua ideia de felicidade?

É simples e fracionada. Não existe uma felicidade completa. Existem momentos de felicidade.

Com o que gasta sem dó?

Para fazer o bem a alguém.

Um livro de cabeceira.

Pitigrilli, um autor italiano que tem concepções interessantes.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE