Memória

Posse do escritor Angelo Machado na Academia Mineira de Letras confirma a vocação de sua família para a literatura

Desde o início do século XX, descedentes do Coronel Virgílio Machado se destacam com livros e peças de teatro

Por: Cedê Silva - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Em agosto do ano passado, ao conquistar uma cadeira na Academia Mineira de Letras, o escritor Angelo Machado recordou a tarde remota, na década de 40, em que o pai abriu para ele uma conta em uma livraria da cidade e o autorizou a comprar todas as obras que desejasse. Belo Horizonte tinha naquela época menos de 300 000 habitantes, não havia televisão e as crianças brincavam na rua. Aos 10 anos de idade, Machado ocupava o tempo livre lendo os títulos de Monteiro Lobato e Júlio Verne, dois de seus autores favoritos, ou observando besouros. Ele era fascinado pelos insetos e chegou a levar uma caixinha cheia deles para o padre da sua paróquia, que tinha fama de saber tudo sobre os invertebrados. Queria que o religioso lhe contasse o nome de cada espécie. "Como nem ele sabia todos, fiquei curioso e fui estudá-los", conta. Ao longo da vida, ele trocou o objeto de estudo - os besouros pelas libélulas -, mas nunca perdeu a paixão pelos livros. Hoje com 78 anos, professor emérito de zoologia da UFMG, Angelo Machado tem mais de 100 artigos científicos e trinta livros infantis publicados. São dele os textos das peças Como Sobreviver em Festas e Recepções com Buffet Escasso e O Rei Careca, ambas sucesso de público em BH. O talento do mais novo imortal da Academia Mineira, cuja posse estava prevista para sexta (8), não chega a surpreender em sua família. Desde o início do século passado, os Machado brilham na literatura e também na política (confira no quadro abaixo).

O pai de Angelo, o empresário Paulo Monteiro Machado, venceu o prestigiado concurso literário Cidade de Belo Horizonte com sua única incursão nas letras, o livro de crônicas O Menino Feliz. Três de seus tios ficaram famosos: Lúcia Machado de Almeida (1910-2005), Cristiano Machado (1893-1953) e Aníbal Machado (1894-1964). A escritora Lúcia foi autora dos best-sellers infantojuvenis O Caso da Borboleta Atíria e O Escaravelho do Diabo. "Ela fazia questão de me consultar para garantir que o comportamento dos insetos em suas obras fizesse sentido", lembra o sobrinho. O político Cristiano foi prefeito de Belo Horizonte e até concorreu à Presidência da República, em 1950. E o contista Aníbal, autor de João Ternura, mantinha agitados saraus em sua casa no Rio de Janeiro. Esse último era o pai de Maria Clara Machado (1921-2001), que escreveu mais de vinte peças infantis, entre elas Pluft, o Fantasminha, ainda em cartaz.­ No que depender do imortal Angelo Machado, a história de sua família com a literatura está longe de ter fim. O professor prepara mais uma obra, agora sobre o piolho Cristóvão, que descobre que a cabeça é redonda. "Um cientista está limitado a descrever o que viu, mas eu quero criar", diz. "Como escritor, os personagens são meus e podem ser do jeito que eu quiser."

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE