História

Pracinhas, colecionadores e curiosos vão de BH ao Rio de Janeiro em homenagem à participação do Brasil na II Guerra

Há 70 anos, tropas da Força Expedicionária Brasileira partiam rumo à Itália para combater o nazifascismo

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O grupo em viaturas militares: como se estivesse em 1944

João Batista Moreira, de 93 anos, embarcou de Belo Horizonte para São João del-Rei no último dia 20. Dormiu acompanhado das lembranças do que viveu ali há sete décadas, quando chegou para o treinamento dos enviados brasileiros à II Guerra Mundial (1939-1945). Acordou assim que o dia clareou e, com a ajuda do filho e de netos, se preparou com esmero: vestiu a boina azul usada pelos ex-combatentes e prendeu com orgulho as suas duas medalhas de condecoração no lado esquerdo do peito. A família estava ali para participar da primeira edição da Coluna da Vitória, evento realizado em homenagem à atuação da Força Expedicionária Brasileira (FEB) contra o nazifascismo. "É com muito orgulho que eu revivo esse patriotismo, que tanto falta no coração dos meus compatriotas hoje", diz Moreira, um dos últimos guardiões dessa história.

Organizada pela Associação Brasileira de Preservadores de Viaturas Militares (ABPVM) e pelo Grupo Histórico FEB (GHFEB), a Coluna da Vitória reuniu colecionadores, pracinhas e interessados na participação do Brasil no conflito. Vestidos a caráter, com uniformes que iam desde os de soldados até os de enfermeiras, os primeiros cinquenta integrantes da homenagem se encontraram no 11º Regimento Tiradentes (Batalhão de Infantaria Montanha), em São João del-Rei, ponto de partida de cerca de 4 000 combatentes enviados à Itália naquele período. Diante de um gigante painel que representava o campo de batalha da cidade de Montese, onde os brasileiros venceram os alemães de Hitler, dezenas de soldados de hoje saudaram os ex-pracinhas João Batista Moreira e Cláudio Soares de Sá. Mesmo com saúde frágil, ambos tiveram firmeza na mão para bater continência a cada protocolo ou cumprimento. Ao som da Canção do Expedicionário, uma espécie de hino, os dois partiram na caravana de quinze veículos de época. Escoltados pela Polícia Rodoviária Federal e pelo Exército, o grupo saiu de São João de­l-Rei, na sexta (21), passou por Santos Dumont, pernoitou em Juiz de Fora e seguiu para Petrópolis (RJ). Lá, encontrou outro comboio, vindo de Caçapava (SP), para no domingo (23), depois de 320 quilômetros percorridos, estacionar na antiga capital federal.

A chuva em solo carioca não impediu que cerca de 400 pessoas fossem ao Monumento aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, no Aterro do Flamengo, acompanhar a chegada de quase oitenta viaturas militares, como jipes e caminhões. "Por onde passamos, moradores fizeram festa, crianças gritaram", diz o belo-horizontino Marcos Renault, presidente da ABPVM, que dividiu a organização do evento com João Barone, presidente do GHFEB e baterista da banda Os Paralamas do Sucesso. "O nosso principal objetivo, para além da homenagem, era despertar a memória e a curiosidade. Ele foi atingido", conta Renault, que se apaixonou pela história aos 12 anos, quando fez um trabalho sobre o tema no Colégio Arnaldo, no Funcionários. "Isso mudou o rumo da minha vida", afirma. Aos 55 anos, o empresário formado em engenharia civil, integrante de várias associações - incluindo a Royal British Legion, que se incumbe da preservação histórica e da assistência às vítimas de conflitos -, transformou o que era lazer na "missão" de não deixar a participação do Brasil na II Guerra cair no esquecimento. "Poucos se lembram de que entramos no conflito, ao lado dos aliados, para vingar o ataque a navios brasileiros, na nossa costa, por submarinos alemães e italianos, que matou mais de 1 000 homens", diz.

O Brasil, então presidido por Getúlio Vargas, declarou guerra aos países do Eixo, em 1942, depois do naufrágio de mais de cinquenta navios. Só quase dois anos depois, porém, em julho de 1944, é que o primeiro escalão da FEB partiu com destino a Nápoles para lutar ao lado de americanos. Os expedicionários aprisionaram mais de 20 000 soldados inimigos, oitenta canhões, 1 500 viaturas e 4 000 cavalos. Do total de combatentes, 467 morreram e aproximadamente 2 700 voltaram feridos. O regresso da FEB, com o fim da guerra, em 1945, precipitou a queda de Vargas e o fim do Estado Novo, caracterizado pelo autoritarismo. Uma frase que se repete em faixas, panfletos, paredes e camisas chama atenção: "Conspira contra sua própria grandeza o povo que não cultua seus feitos históricos". É um chamado ao patriotismo que precisa ser multiplicado.

Da guerra à paz

O Museu da FEB, na capital, conta a história da participação brasileira no conflito em solo italiano e de suas heranças

Uma viagem à II Guerra pode ser feita a partir da visita ao Museu da Força Expedicionária Brasileira. O importante capítulo da história do Brasil e do mundo é contado por meio de recortes de jornais da época, uniformes, armamentos, munição, medalhas e acessórios, sejam eles dos brasileiros, dos aliados ou dos inimigos. Ex-combatentes, como Divaldo Medrado (na foto, à esq.) e Geraldo Campos Taitson, são encontrados com frequência no museu e têm orgulho

de narrar suas memórias.

› Museu da FEB. Avenida Francisco Sales, 199, Floresta, ☎ 3224-9891. 13h/17h (seg. a sex.); 10h/13h (sáb. e dom.). R$ 4,00 (crianças e estudantes pagam a metade). facebook.com/museudafebbh.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE