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Prefeitura de BH pretende investir 50 milhões de reais em ciclovias até 2020

Projeto polêmico quer estimular moradores a adotar a bicicleta como meio de transporte

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A geógrafa Manuela Andrade, na Rua Antônio Aleixo, em Lourdes: "Nós, ciclistas, fazemos parte do trânsito, assim como o condutor de qualquer outro veículo"

As ciclovias estão se espalhando pela cidade. Existem hoje 47,7 quilômetros e até o fim do ano, segundo a prefeitura, serão 100. O plano é chegar a 200 quilômetros de rotas cicloviárias até 2016 e a 380 até 2020. Ao custo médio de 150 000 reais por quilômetro, será um investimento de cerca de 50 milhões de reais, com recursos do cofre municipal e do Banco Mundial. A expectativa é que, com o programa concluído, 6% de todos os deslocamentos pela cidade ocorram sobre a magrela - ou seis vezes mais do que hoje. A proposta, porém, provoca polêmica. Há quem não veja sentido no projeto e argumente que a topografia acidentada da capital é um limitador natural para o uso das bikes como meio de transporte por aqui. Ou quem acuse a administração municipal de, ao destinar faixas exclusivas a elas, deixar menos espaço para os carros, complicando ainda mais o trânsito. Quem já aderiu às duas rodas protesta. "Andei de bi­­cicleta em Dublin, na Irlanda, e Amsterdã, na Ho­­landa, onde o trân­­sito também é caótico, e nesses lu­­gares todos respeitam o ciclista", diz a geógrafa Manuela An­­drade, de 31 anos, que desde os 16 faz boa parte de seus deslocamentos em duas ro­­das. "Somos parte do trânsito, assim como o condutor de qualquer outro veículo." Ela tem razão, está no Código Brasileiro de Trânsito. E os ciclistas parecem mais dispostos do que nunca a exercer o direito de circular pelas vias públicas.

Moradora do bairro Gutierrez, a bióloga Laila Pimenta, de 25 anos, aderiu à bicicleta como meio de transporte quando entrou para a faculdade, há seis anos - de casa até a PUC Minas, no Coração Eucarístico, pedalava 12 quilômetros todos os dias. Desde que optou por deixar o carro na garagem, vem testemunhando o crescimento do número de ciclistas pelas ruas, bem como o aumento de lojas especializadas para esse público. "Quando comecei, minha família e meus amigos achavam que eu estava louca, mas depois foram percebendo que era possível e saudável", conta. "Agora, até a minha mãe anda de bicicleta." Em 2005, o programa Pedala BH foi incluído no planejamento estratégico da BHTrans, que administra trânsito e transportes na metrópole. "Se Belo Horizonte tem montanhas, também tem fundos de vale, ou seja, áreas planas", ressalta o supervisor de projetos da empresa municipal, Mauro Luiz Oliveira. Segundo ele, o mapeamento das ciclovias segue o traçado hidrográfico, a disponibilidade de espaço nas ruas e as recomendações de segurança. "O que buscamos é o uso compatível das vias pelas bicicletas e por outros veículos, sem comprometer as oportunidades de estacionamento e o acesso às garagens."

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O funcionário público Zaqueu Collecta, na Avenida Bernardo Guimarães: graças aos 24 quilômetros por dia, para ir e voltar do trabalho, ele perdeu 16 quilos

Só em 2013, haverá 26 novas rotas, que se somarão às doze existentes. As ordens de serviço para nove delas serão expedidas neste mês. "É o momento de dizer à cidade que o transporte motorizado terá de ceder espaço", acredita Eveline Tre­­visan, uma ciclista que, recentemente, assumiu o cargo de assessora de planejamento da BHTrans. Em dezembro, ela criou um grupo de es­­­tudos que reúne ci­­clistas ligados a diferentes movimentos. Um dos objetivos é avaliar o trabalho que foi feito até aqui e evitar que se repitam erros como os da rota da Rua Rio de Janeiro, no Centro. Ali, a ciclovia foi instalada do lado esquerdo da faixa de estacionamento - ao abrir a porta do carro, um motorista distraído pode atingir quem está passando sobre duas rodas. Outra meta do grupo é discutir campanhas de educação. "Andar de bicicleta é uma questão cultural", pondera o empresário Gustavo Roman, de 44 anos. Dono dos restaurantes Los Hermanitos, 96 Restô e Pizza Sur, o argentino nascido em Neuquén, na Patagônia, vive em Belo Horizonte desde 2003. Morou antes no Chile, nos Estados Unidos e na Europa. Em todos esses lugares, a bicicleta era o seu principal meio de transporte. Aqui, sua Hyundai Tucson e seu Fiat Cinquecento só saem da garagem nos fins de semana, quando está com a família. "O governo tem de explicar como o sistema funciona para taxistas, motoristas de ônibus, pedestres, ciclistas, para todos", sugere. Se há desrespeito por parte dos motoristas em relação aos que trafegam sobre duas rodas, não faltam - é bom que se diga - ciclistas abusados, que se julgam acima do bem e do mal e cometem erros como pedalar na calçada disputando espaço com o pedestre ou sem equipamentos de segurança.

"É uma pena o belo-horizontino não enxergar as vantagens da bicicleta, um meio de transporte barato, que faz bem para a saúde e o humor, além de ser bom para o meio ambiente", diz o funcionário público Zaqueu Collecta, de 43 anos, outro que aderiu ao ciclismo no dia a dia. Após uma temporada na Alemanha, onde se acostumou a pedalar, voltou a viver em Belo Horizonte e engordou 16 quilos. Só conseguiu retomar seu peso habitual depois que passou a ir para o trabalho pedalando, um trajeto de 12 quilômetros, do bairro Santa Efigênia até o Buritis. Muitos afirmam que, como Collecta, gostariam de pedalar todos os dias em seus deslocamentos. Só não o fazem porque acham que falta infraestrutura de apoio. Apesar da expansão, as ciclovias não são interligadas, o que obriga os ciclistas, ao sair de uma delas, a disputar espaço com os motoristas nas ruas. Há outras questões. "As empresas não oferecem vestiário nem local onde deixar as bicicletas", lamenta a publicitária Sabrina Cenni, de 24 anos. "Muitos estacionamentos da cidade nem se responsabilizam por guardá-las." Por causa de restrições como essas, ela limitou o uso da bike a pequenos trajetos du­­rante a semana.

+ Para andar bem equipado

Quem se anima a comprar uma bicicleta mas se sente inseguro para circular pela cidade pode contar com o auxílio dos voluntários do Bike Anjo, um movimento presente em diversas cidades que reúne ciclistas experientes dispostos a orientar os novatos. Os integrantes do grupo ensinam manutenção básica e medidas de segurança no trânsito, ajudam a planejar trajetos e acompanham as primeiras tentativas dos inexperientes. "Somos, em algum grau, uma bike-escola. Já atendemos mais de 100 pessoas", explica Guilherme Tampieri, um dos chamados anjos do grupo. Para quem prefere pedalar com companhia, não faltam opções oferecidas por cicloativistas (veja o quadro na pág. 25), como o empresário do ramo Daniel Trindade. Todas as quintas-feiras, às 20 horas, ele sai da Rua Major Lopes, no São Pedro, onde fica sua loja de bicicletas, guiando os participantes dos Passeios Urbanos Noturnos de Quintas (Punq). "Andar pela ciclovia é a forma mais segura de deslocamento", garante o médico Rodrigo Cambraia, de 41 anos, que adotou a bicicleta como veículo preferencial para trajetos perto de casa. Nos fins de semana, ele leva junto os filhos Eduardo, de 7 anos, e Júlia, de 4. Mais do que ensiná-los a pedalar, sonha ver as crianças valorizando a magrela como meio de transporte. "Quero que eles tenham a cultura de que pedalar é bom, faz bem para a saúde e para o meio ambiente." O garotinho mostra que está aprendendo a lição. "Tenho de tomar cuidado e andar direitinho, mas também sei exigir respeito", diz, vaidoso. E sentencia: "Prefiro a bicicleta ao carro". Caso os 380 quilômetros de ciclovias previstos pela BHTrans fiquem mesmo prontos em 2020, o pequeno Eduardo será então um rapazinho de 15 anos. Até lá, espera-se que a convivência entre ciclistas, motoristas e pedestres se torne civilizada e segura. Mas esse dia, por enquanto, está distante.

O desafio da repórter

"Quando me propuseram o desafio de pedalar 10,5 quilômetros, pensei que não daria conta. Aos 31 anos, sedentária, não me imaginava cruzando de bicicleta a região sul e o Centro da capital. Comecei com frio na barriga, temendo o desrespeito dos motoristas e nossos morros íngremes. Acompanhada por Daniel Trindade, um experiente ciclista, aprendi a usar as marchas, a sinalizar e a ocupar, sem medo, o espaço destinado às bikes. Mas foi preciso coragem para atravessar cruzamentos sob buzinas e palavrões, driblar falhas da pista, desviar de pedestres e ser obrigada a invadir a rua por causa de veículos estacionados na via exclusiva. Apesar de todos os problemas, venci o desafio em uma hora e seis minutos. De carro, nunca

havia percebido que há tantos ciclistas pedalando por aí. Com eles, experimentei uma sensação de liberdade no trânsito que eu não conhecia. Constatei que, ao contrário do que eu pensava, dá, sim, para usar a bicicleta como meio de transporte em Belo Horizonte, embora os circuitos ainda sejam limitados."

Flagrantes de desrespeito

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Portas perigosas: ao estacionar ao lado de uma faixa exclusiva para bikes, como na Rua Rio de Janeiro, no Centro, o motorista deve olhar antes de abrir a porta para evitar atingir um ciclista

Victor Schwaner/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Sujeito a guincho: quem estaciona sobre ciclofaixas, como esta na Rua Alvarenga Peixoto, em Lourdes, pode ser multado e até ter o carro guinchado

Ciclista prudente

> Veste-se adequadamente, com roupas claras, luvas e capacete

> Equipa a bicicleta com os itens obrigatórios (espelho retrovisor esquerdo, buzina, sinalização noturna refletiva na dianteira, traseira, lateral e nos pedais)

> Respeita a sinalização - semáforos, faixas de pedestres e placas

> Só conduz passageiro na garupa em assento especial

> Respeita o pedestre, pois ele tem preferência em relação a qualquer veículo, inclusive a bicicleta

> Ao realizar uma manobra, indica a intenção com sinais de braço

> Verifica se veículos farão conversão e só atravessa o cruzamento em segurança

> Pedala na sua mão da ciclovia, mantendo-se sempre à direita

Motorista consciente

> Não transita nem estaciona nas ciclovias

> Quando há estacionamento junto à ciclovia, tem cuidado ao abrir a porta do veículo

> Lembra-se de que a sinalização (faixa vermelha) indica que a preferência é do ciclista

> No cruzamento, dá a vez à bicicleta

> Não pressiona o ciclista a encostar para ultrapassá-lo, pois sabe que ele tem direito a ocupar a faixa

Pedestre educado

> Fica atento à circulação de ciclistas e olha para os dois lados antes de realizar a travessia

> Aguarda o momento de fazer a travessia na calçada e não na ciclovia

> Atravessa na faixa de pedestres e não na faixa vermelha reservada ao ciclista

> Não invade o espaço do ciclista, principalmente quando a ciclovia está no mesmo nível da calçada

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE