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Prestes a completar 100 anos, Wilson Baptista dedicou boa parte da vida ao registro de imagens de BH

Fotógrafo agora se preocupa em restaurar os 87 anos de cliques históricos que contam a história da cidade

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Baptista com sua câmera Box Kodak formato 122, tamanho cartão-postal: ele ainda guarda seus xodós antigos

Sentado em meio a livros e revistas sobre arte e fotografia, Wilson Baptista aponta para uma pequena escultura de um esqueleto de dinossauro de madeira e brinca: "Quando comecei a bater chapas, em 1926, eles ainda andavam pela rua". Apesar do exagero e da autoironia, a frase dá a dimensão do precioso acervo que o fotógrafo começou a construir despretensiosamente quando tinha apenas 13 anos. Hoje, prestes a completar um século de vida, Baptista trabalha na digitalização dessas fotos, que resgatam a Belo Horizonte dos bondes e até dos carros de boi. Como ele mesmo gosta de dizer, elas são uma espécie de máquina do tempo. "Quando corro meus negativos, encontro pessoas que já morreram e vou a lugares a que não poderei mais ir." Recentemente, as cerca de 7 000 imagens (que ele mesmo digitalizou em seu iMac) foram trazidas a público por mostras e exposições que jogaram luz sobre a obra do fotógrafo e sua importância para a história da cidade.

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Wilson Baptista
(Foto: Redação VejaBH)

Avenida Paraná, em 1930: os carros de boi ainda eram comuns

A parte mais conhecida de seu acervo é de fotos de BH e da construção de edifícios e avenidas que hoje têm importância singular, como a Antônio Carlos e a Amazonas. Outro traço marcante é o gosto por composições geométricas, que encontrou um terreno ideal na Belo Horizonte modernista que se ergueu a partir dos anos 30. "Sempre me interessei mais pela forma do que pelo conteúdo", conta. "Se a coisa era bonita, eu fotografava." Em 1951, Baptista fundou, com três amigos, o Fotoclube, um grupo para discutir e praticar a fotografia, do qual saiu na década de 60, quando sua estética geométrica já não era tão apreciada pelos membros e seus cliques não estavam sendo selecionados para exposições. "Pensei que estava superado e era hora de pendurar as chuteiras." Apesar de gostar de viajar para outros tempos por meio da fotografia, Baptista não é daqueles que vivem do passado. "Eu me assusto quando lembro que estou com 100 anos, pois sinto a mesma vontade que tinha de fazer as coisas", afirma. Uma dessas aventuras da segunda infância foi um casamento tardio com a advogada Helta Yedda Torres, 41 anos mais nova. Ele era viúvo quando começaram a namorar e a união foi oficializada em 2008. "Ele é uma pessoa muito criativa, multitalentosa", diz Helta. Baptista ainda fotografa, com uma câmera digital que lhe foi presenteada por uma das filhas. Por ter a mobilidade reduzida, costuma fazer fotos no tranquilo quintal de sua casa, no bairro Vila Paris. Do limoeiro à água turva da piscina, qualquer coisa pode virar pretexto. "Costumo dizer que são insignificâncias", conta. Na verdade, a cidade continua a ser seu objeto. Mas, agora, é sua cidade particular.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE