Especial

Quem são os belo-horizontinos que brilharam em 2014

O designer, os irmãos cervejeiros, o arquiteto, o secretário, o médico, a empresária, o estilista, a colecionadora de artes e o promotor que deram o que falar neste ano

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[1] Carlos Hauck/Odin; [2] Nidin Sanches/Odin; [3] Victor Schwaner/Odin; [4] Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Escolhidos por VEJA BH pelo trabalho bem-sucedido que realizaram nos últimos doze meses, os personagens desta reportagem se destacaram em diferentes áreas. Alguns não nasceram na cidade, mas fizeram da metrópole o cenário de sua atuação.

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(Foto: Redação VejaBH)

O premiado artista assina a marca do Complexo Arquitetônico da Pampulha na campanha pelo título de patrimônio cultural da humanidade

Isabella Grossi

Todas as manhãs, da janela do seu quarto, Gustavo Greco contempla a formosa paisagem do Parque Julien Rien, no bairro Anchieta. "É o meu quintal de casa", diz o designer gráfico de 40 anos, que escolheu o lugar como cenário para as fotos desta edição. "Eu sempre o observo do alto. Achei interessante ter a vista do contrário." Prestes a completar dez anos à frente da sua empresa, a Greco Design, ele vive uma fase de ampliar perspectivas e horizontes. Sem precisar sair de Beagá, Greco conseguiu ver seu talento reconhecido internacionalmente - foi, em 2013, o primeiro designer mineiro a ser convidado para o time de jurados do prestigiado Festival de Cannes, na França. "Somos um Brasil plural, e não restrito ao eixo Rio-São Paulo", afirma. "Fico orgulhoso de carregar a bandeira da nacionalização do design." No último dia 1º, seu escritório ganhou o Grand Prix no Brasil Design Award, considerado o prêmio dos prêmios dessa área no país. A láurea, criada em 2009 pela Associação Brasileira de Empresas de Design (Abedesign) - da qual é diretor regional -, pontua cada peça condecorada em mostras nacionais e internacionais. Com um sem-­número de premiações, incluindo um ouro no iF Design Award, da Alemanha, a empresa fundada por Greco obteve a mais alta soma de pontos entre as agências brasileiras em 2014.

Se além das divisas de Minas o confete para ele é farto, por aqui não poderia ser diferente. Foi à Greco Design que a prefeitura entregou a missão de desenvolver a marca do Complexo Arquitetônico da Pampulha e o livro que será encaminhado à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na campanha para que o conjunto seja reconhecido como patrimônio cultural da humanidade. "Trata-se de um trabalho muito especial porque é um projeto de valorização e recuperação de um dos símbolos da nossa cidade", afirma o designer. A apresentação das peças estava prevista para a última sexta (12), data do aniversário da capital (veja a reportagem na pág. 26). Neto da ex-vereadora Helena Greco (1916-2011) - uma militante dos direitos humanos que iniciou sua carreira política aos 61 anos -, Greco cursou duas faculdades, de publicidade e de direito, antes de se encontrar no mundo das artes visuais. A despeito de tudo o que já conquistou até aqui, ele diz que ainda tem muitos sonhos a realizar. Como escreveu Mario Quintana, seu poeta favorito: "Se as coisas são inatingíveis... ora! / Não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos, se não fora / A presença distante das estrelas!".

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(Foto: Redação VejaBH)

Os irmãos que comandam a cervejaria Wäls conquistaram prêmios inéditos para o Brasil e se tornaram referência internacional

João Renato Faria

Assim que o apresentador da World Beer Cup, a premiação cervejeira mais importante do mundo, anunciou o segundo lugar da categoria dubbel, o mestre-cervejeiro José Felipe Carneiro, de 29 anos, entregou os pontos. "É muito difícil mesmo", desabafou ele, conforme ficou registrado no vídeo da premiação, realizada em abril na cidade de Denver, nos Estados Unidos. O que José Felipe e seu irmão Tiago Carneiro, de 31 anos, não esperavam era que o nome do vencedor, proclamado na sequência, fosse o da Wäls, a marca comandada pelos dois. "Joguei o celular para cima e só o achei muito depois, de tão emocionado", lembra o caçula. Foi a primeira vez que o Brasil faturou uma medalha de ouro na competição - e levou ainda uma prata, também inédita, com a bebida do estilo quadruppel produzida por eles. As conquistas provocaram uma revolução na rotina da dupla e coroaram 2014 como o melhor ano da história da cervejaria artesanal mineira. Ao longo dos últimos doze meses, a Wäls inaugurou um pub de degustação na fábrica do bairro São Francisco; criou um programa de visitação guiada aos tonéis, de onde saem 35 000 litros da bebida por mês; e completou a revitalização do Stadt Jever, um dos bares mais tradicionais da capital. Além disso, não parou de colecionar prêmios. O mais recente deles veio no fim de novembro: uma medalha de ouro na edição brasileira do Mondial de la Bière, no Rio de Janeiro.

Aberta na década de 90 para produzir chopes para restaurantes de BH, a Wäls foi totalmente reformulada pelos irmãos em 2007, quando eles descobriram o mundo das cervejas artesanais. "Vimos que existia um universo incrível de sabores", afirma José Felipe. Quando não estão produzindo algum dos dezessete rótulos da gelada, os irmãos aliviam as tensões do dia a dia treinando jiu-jítsu e muay thai ou tocando instrumentos musicais. José Felipe é saxofonista e Tiago, pianista. "Mas só ocasionalmente fazemos um som, pois a Wäls nos ocupa cada vez mais", conta Tiago. O tempo deve ficar ainda mais curto, já que para 2015 está prevista a inauguração de uma fábrica em San Diego, na Califórnia, que teve um investimento de 8 milhões de reais. O objetivo é chegar com tudo ao mercado americano de cervejas artesanais, o maior do mundo. Se a conquista da América está quase lá, Tiago e José Felipe (na foto, no Mercado Central, onde costumam comprar especiarias e outros ingredientes para as fórmulas que inventam) também fecham o ano celebrando o carinho de um público exigente: os conterrâneos. "Sofremos para convencer as pessoas daqui a experimentar nossos rótulos, mas, agora, não só conhecem como defendem e divulgam a Wäls", comemora Tiago.

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(Foto: Redação VejaBH)

Além de ganhar um dos principais prêmios mundiais da área, ele teve seu projeto escolhido para a construção do Centro Administrativo de Belo Horizonte

Paola Carvalho

Quando se fala sobre arquitetura em Belo Horizonte, o primeiro nome que vem à cabeça é o do arquiteto carioca Oscar Niemeyer (1907-2012). Não há dúvidas que, em se tratando de modernismo, ele é o nosso maior ícone. Na lembrança de outros tantos, porém, Gustavo Penna, de 63 anos, se destaca. Formado em arquitetura pela UFMG em 1973 e autor de mais de 1 000 projetos, ele vem desenhando uma história de polêmicas e sucessos, coroada em 2014. Neste ano, o seu escritório, o GPA&A, comemorou três grandes conquistas. Uma delas foi o projeto do Monumento à Liberdade de Imprensa, a ser construído em Brasília, que ganhou um dos principais prêmios da arquitetura mundial, o World Architecture Festival Award. Não para por aí. Entre oitenta concorrentes, Penna também venceu um concurso nacional que escolheu o seu projeto para o Centro Administrativo da capital, que deverá ser erguido na área da atual rodoviária. E tem mais. Muitos prédios incorporaram conceitos de sustentabilidade. Entretanto, a sua mais recente obra inaugurada, o Edifício Forluz, no Santo Agostinho, é a primeira de BH com o Green Building Leed Gold, uma espécie de selo internacional que certifica a redução de impactos ambientais. Em comum, os três feitos têm a filosofia que Penna carrega para a vida, desde os tempos de menino, quando morava em uma casa na Rua Antônio de Albuquerque e jogava bola com a molecada da vizinhança. "É preciso considerar o outro, a cidade e a natureza", diz. "Beagá já está cheia que prédios mudos, que não nos dizem nada, e eu não gosto disso."

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(Foto: Redação VejaBH)

À frente dos arranjos locais para a Copa do Mundo, o administrador viu Belo Horizonte ser reconhecida como a capital mais bem preparada para o torneio

Ivana Moreira

Belo Horizonte colherá os frutos da Copa do Mundo por muito tempo. Quem garante é o secretário estadual de Esportes e Turismo, Tiago Lacerda. "Foi nossa inserção no mundo. As pessoas agora sabem que a cidade existe", acredita ele. Depois de receber 392 000 visitantes (255 000 deles estrangeiros, de 46 nacionalidades diferentes), a capital mineira acabou reconhecida, em uma pesquisa realizada pelo Ministério do Turismo, como a mais bem preparada para o Mundial. O mesmo levantamento também apontou o Mineirão - palco de seis partidas - como o estádio mais bem avaliado pelos torcedores de outros países. "É uma recompensa muito grande", afirma. Filho do prefeito Marcio Lacerda, o administrador esteve envolvido com os preparativos para o torneio desde 2009, quando se tornou presidente voluntário do comitê executivo municipal para a Copa. Convidado pelo ex-governador Antonio Anastasia, em 2012, assumiu o cargo de secretário estadual extraordinário da Copa. À frente dos arranjos locais para o evento, Tiago passou praticamente cinco anos respirando o mundo da bola, com direito a muitas emoções e também a muito stress. Como o do dia em que, às vésperas da semifinal entre Brasil e Alemanha, caiu o Viaduto Batalha dos Guararapes, provocando a morte de duas pessoas e a interdição da Avenida Pedro I. "Sofri como secretário e como filho do prefeito", lembra. "Mas me orgulho das soluções que conseguimos encontrar, no meio daquela tragédia, para não prejudicar o acesso à Pampulha."

Hoje, seu sentimento é de dever cumprido. Que ele executou bem sua missão, ninguém parece duvidar. Não faltam elogios à sua capacidade de gestão e à sua habilidade para fazer articulações nas esferas federal, estadual e municipal. No último dia 4, ele foi o único dos secretários de Estado envolvidos diretamente na organização da Copa convidado a falar em um seminário realizado pelo Ministério do Turismo, no Maracanã, para avaliar o legado do Mundial. Antes mesmo de entregar seu cargo atual, Tiago - que tem recém-completados 34 anos e é pai de Pedro, de 4 anos, e Helena, de 2 - já recebeu pelo menos duas propostas de trabalho em empresas multinacionais. Há quem diga que houve sondagens da própria Fifa. Discreto, ele desconversa. Só pretende pensar nesse assunto no ano que vem, depois de cumprir a promessa que fez à mulher, a arquiteta Manuela. "Quero tirar longas férias", conta. Primeiro, vai levar as crianças para conhecer a Disney. Depois, ele pega a estrada com seu jipe novo, veículo que comprou no início do ano, antes da Copa. Mas faltou tempo para se dedicar ao hobby preferido, que é fazer trilha com os amigos. Agora, Tiago irá compensar.

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(Foto: Redação VejaBH)

O médico fundador do Hospital Mater Dei inaugurou uma nova unidade da rede, com capacidade para 2 000 atendimentos por dia somente no pronto-socorro

Paola Carvalho

Na década de 70, o médico ginecologista e obstetra José Salvador trabalhava na Maternidade Odete Valadares, na Avenida do Contorno, no Barro Preto. Neste ano, voltou para a região. Ele inaugurou ali do lado, onde até 2001 funcionou o Mercado Distrital da Barroca, o seu segundo hospital. Em 1º de junho, data em que comemorou 34 anos da fundação do Mater Dei Santo Agostinho, ele abriu as portas da unidade Contorno e, com ela, criou a Rede Mater Dei de Saúde. "Quando alguém desperta para um grande sonho e concentra toda a sua energia física e emocional nele, o universo conspira a seu favor", diz o "Doutor Salvador", como é conhecido, em uma adaptação da frase do filósofo alemão Johann Goethe.

A sua trajetória comprova a teoria. Nascido em Santana de Pirapama, a 137 quilômetros de Belo Horizonte, veio para a capital estudar e, em 1956, formou-se em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Ao mesmo tempo em que trabalhava em clínicas e prontos-socorros, arriscou-se também no setor de construção civil. As duas atividades o levaram a criar essa rede, com uma área de mais de 100 000 metros quadrados, 3 000 médicos, 641 leitos e capacidade de fazer uma média de 3 000 atendimentos diários de emergência. Salvador, aos 83 anos, é responsável por mais de 20 000 partos na capital e continua à frente dos negócios como presidente do conselho de administração, mas passou a gestão do dia a dia para os filhos e netos. "Com todas as dificuldades, inaugurar o Mater Dei Contorno em 2014 foi para mim uma luta heroica, que garantirá atendimento médico para muitos belo-­horizontinos", afirma. E ele não para de sonhar. Fazem parte de seus planos mais dois hospitais: um em Betim e outro em Nova Lima.

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(Foto: Redação VejaBH)

A empresária viu nascer, neste ano, dois sonhos: a neta Maria, filha de sua única herdeira, e seu Museu de Sant'Ana, em Tiradentes

Raíssa Pena

Ela poderia passar o dia inteiro com os pés para cima, tomando champanhe. Neste ano, Angela Gutierrez apareceu na quadragésima posição entre os 150 bilionários brasileiros, de acordo com ranking divulgado pela revista Forbes Brasil. A mulher mais rica de Minas Gerais, no entanto, não para de trabalhar. Comanda reuniões, telefona, dá ordens e rege, desde setembro, três museus em três cidades diferentes (sem amassar suas belas camisas de seda). Para ela, 2014 foi o ano em que suas vitórias profissionais tiveram gosto de conquista pessoal.

A empresária já é figura conhecida entre os belo-­horizontinos por ser herdeira da construtora Andrade Gutierrez e por ter aberto o Museu de Artes e Ofícios, em 2005, fundamental para o renascimento cultural da região da Praça da Estação. Além de dirigir o centro cultural na capital e o Museu do Oratório, em Ouro Preto, Angela inaugurou em setembro o Museu de Sant'Ana, em Tiradentes, em homenagem àquela que, segundo a tradição católica, é a avó de Jesus. Um rico acervo de 291 imagens da santa da qual é devota, que inspirou o nome de sua única filha, agora ocupa a antiga Cadeia Pública da cidade e pertence ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Antes de abrir as portas do casarão, Angela enfrentou trâmites burocráticos maiores do que previu e sofreu resistência - e até certa hostilidade - por parte de alguns técnicos do Iphan no local, que a consideravam "forasteira". Após uma manifestação em frente à cadeia, que mobilizou cerca de 100 moradores em favor da implantação do museu, ela diz ter encontrado ânimo para retomar o processo e finalmente concretizar o sonho.

Um mês depois da inauguração, outro presente: o nascimento da pequena Maria, filha de sua herdeira, Ana Gutierrez. "Virei avó, mas minha rotina de trabalho continua no mesmo ritmo", conta. Aos 64 anos, Angela nem pensa em descansar. "Eu me divido entre os centros culturais de Ouro Preto, Tiradentes e Belo Horizonte, além de minha fazenda em Sete Lagoas." Dos quatro endereços, o Museu de Artes e Ofícios é o que fica com a maior parte de seu tempo. "Amo aquela região da Praça da Estação", afirma a empresária. "Para mim, ali é o verdadeiro centro pulsante da capital mineira."

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(Foto: Redação VejaBH)

O jovem estilista, que usa estampas para valorizar as formas femininas, chamou a atenção do país e foi incorporado à poderosa holding de Patrícia Bonaldi

Raíssa Pena

A família do estilista Lucas Magalhães guarda com orgulho a coleção de reportagens publicadas neste ano sobre o sucesso do rapaz. Ele ainda era um adolesente quando deixou a casa dos pais, em Itabira, e veio para a capital estudar design gráfico. Na faculdade, venceu um complexo processo seletivo para estagiar em uma empresa cujo nome só lhe foi revelado no final: Patachou. Sob a batuta de Tereza Santos, a dona da respeitada grife mineira que ele considera sua mentora, desenhou estampas para as roupas e acabou se apaixonando pelo mundo fashion. Depois de trabalhar para outras marcas e se especializar em criação de moda na Espanha, Magalhães voltou ao Brasil e decidiu se aventurar com a própria assinatura. Em 2010, desfilou sua coleção no Prêmio Rio Moda Hype, concurso de jovens talentos do Fashion Rio e, em 2012, debutou no Minas Trend Preview. Suas obras cheias de estampas que valorizam as formas femininas chamaram a atenção da imprensa especializada, de clientes endinheiradas e de Patrícia Bonaldi, a queridinha das celebridades. Fera dos negócios, a estilista mineira comprou em outubro a marca de Lucas Magalhães para incluí-la em sua recém-criada holding Nohda. Apesar de a sede do grupo ser em São Paulo, o designer de 32 anos pretende continuar morando aqui, onde deverá ganhar um ateliê em 2015. "Viver em Belo Horizonte me inspira e me ajuda a não me perder de mim mesmo", filosofa, com seu doce sotaque itabirano.

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(Foto: Redação VejaBH)

A colecionadora doou à Uemg todo o seu acervo, com obras de Guignard, Tarsila do Amaral e José Pancetti, além de cerâmicas do JequitinhonhaGlória Tupinambás

Ao pôr Belo Horizonte na rota das megaexposições de arte, Priscila Freire já tinha entrado para a história da capital mineira. Entre 1998 e 1999, ela trouxe as esculturas de Camille Claudel, as obras de Salvador Dalí e as gravuras de Pablo Picasso para o Museu de Arte da Pampulha (MAP), espaço que dirigiu durante quinze anos. Mas essa biblioteconomista e colecionadora decidiu não parar por aí. Em fevereiro deste ano, Priscila tornou público todo o acervo artístico reunido por ela e o marido, o médico hematologista Alberto Freire, em uma vida dedicada à cultura. A rica coleção é composta de quadros de Alberto da Veiga Guignard, Tarsila do Amaral e José Pancetti, além de cerâmicas do Vale do Jequitinhonha, esculturas e tapeçarias de renomados artistas.

Todo o patrimônio foi transferido para a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), que, além de se tornar guardiã desse tesouro, vai transformar em memorial a chácara de 50 000 metros quadrados - considerada uma reserva ecológica - no bairro São Bernardo, onde Priscila, viúva há dois anos, vive e mantém as peças. "O ano de 2014 teve um significado especial para mim, porque consegui dar um destino a tudo que construí ao longo da vida", diz. Com ânimo e jovialidade de causar inveja, Priscila ainda está envolvida, aos 81 anos, na produção de uma autobiografia. Na obra, ela pretende contar, em detalhes, sua carreira no teatro, marcada por peças com sucesso de público na década de 60 e pela criação de uma escola de formação de jovens atores na Cruz Vermelha. O livro também vai narrar a participação de Priscila no cinema, como atriz de dezenas de filmes, e na televisão, em que ela manteve, na década de 70, um programa diário na extinta TV Itacolomi. Mas o grande destaque do texto será mesmo sua atuação à frente de espaços culturais no país. Além do trabalho no MAP, Priscila cuidou da Superintendência de Museus de Minas Gerais e da Coordenadoria do Sistema Nacional de Museus, nos anos 80 e 90. Com tanta história para contar, a biografia de Priscila certamente renderá um precioso calhamaço de páginas.

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(Foto: Redação VejaBH)

Responsável pela recuperação de mais de 600 peças sacras saqueadas de igrejas de Minas, o promotor também descobriu documentos inéditos sobre AleijadinhoGlória Tupinambás

Livros de história, documentos oficiais e sites de busca nunca haviam chegado a um consenso sobre a data de nascimento de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Todos davam como certo o dia 29 de agosto. A dúvida, no entanto, girava em torno do ano: 1730 ou 1738? Depois de duas décadas de investigação em arquivos de Minas, Rio de Janeiro e Lisboa, uma importante descoberta veio à luz neste ano. Na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias, em Ouro Preto, foi encontrada a anotação de parto do artista, em 26 de junho de 1737. O autor desse achado, que muda para sempre a história do maior mestre barroco do país, é o promotor de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico do Ministério Público de Minas Gerais, Marcos Paulo de Souza Miranda. Em junho, ele lançou o livro O Aleijadinho Revelado, com curiosidades sobre o gênio, morto há 200 anos. "Tenho orgulho de ter ajudado a afastar mitos e lendas para trazer informações concretas sobre esse notável homem de carne e osso", diz.

Seu interesse pela arte não se resume à obra de Aleijadinho. À frente da promotoria especializada em patrimônio há dez anos, Miranda vem travando uma cruzada contra quadrilhas especializadas em roubo de peças sacras. É o responsável por recuperar e devolver aos altares mais de 600 objetos saqueados de igrejas do estado. Em parceria com as polícias Federal e Militar, Miranda coordenou dezenas de operações, a exemplo da Barroco Mineiro, deflagrada no mês passado e que identificou um galpão na Região Nordeste de BH usado para armazenar peças de templos religiosos e de casarões históricos. Embora as conquistas do promotor sejam muitas, ele faz questão de ressaltar: a luta pela preservação da cultura está longe de ser vitoriosa.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE