História

Quem são os libaneses que deixaram suas marcas na capital

Fugindo da guerra, da fome e da falta de trabalho no fim do século XIX, eles apostaram no Brasil para recomeçar a vida

Por: Daniela Nahass - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin - acervo pessoal
(Foto: Redação VejaBH)

A decisão de deixar o país em busca de uma vida melhor não foi fácil para os libaneses, conhecidos por seu apego às origens e à família. Fugindo da guerra, da fome e da falta de trabalho, eles apostaram no Brasil, um novo país onde poderiam recomeçar. Depois de uma viagem de mais de trinta dias de navio, desembarcaram aqui, a maioria sem falar uma palavra em português. Homens, mulheres e crianças se espalharam por diversas cidades brasileiras, sobretudo São Paulo e Belo Horizonte. Sem o domínio do idioma, encontraram no comércio a melhor opção para ganhar a vida. Tornaram-se mascates, mas as marcas da imigração não estão apenas no comércio de BH (veja abaixo). Mesmo integrados à sociedade belo-horizontina, os libaneses não esquecem suas origens. O Lar Druso Brasileiro, a paróquia Nossa Senhora do Líbano e o Clube Libanês preparam eventos que, a partir do mês que vem, celebrarão os setenta anos da independência de seu país, comemorados em 22 de novembro.

Na capital mineira, os libaneses se instalaram na região central, principalmente na Rua Caetés, que ficou conhecida como a "rua dos turcos". No fim do século XIX, a região do Líbano - assim como a Síria e a Palestina - era dominada pelo Império Otomano, um Estado turco, que expedia os passaportes. Por causa disso, todos os imigrantes de lá acabavam sendo chamados de turcos. "Uma identificação imprópria e desagradável, porque os associava com o opressor", diz a historiadora Samira Adel Osmam, autora do livro Imigração Árabe no Brasil. O apelido acabou pegando, apesar do incômodo. "Não nos chamavam de turcos para ofender, mas pela falta de conhecimento de nossa origem fenícia", diz o advogado Edison Simão, filho de libaneses e presidente do Pampulha Iate Clu­­be (PIC). A pa­­­lavra ainda nem existia, mas o bullying sofrido pelos imigrantes não atrapalhou os planos de fazer a vida no Brasil. Eles prosperaram e continuaram a trazer pa­rentes pa­­ra cá. Nos anos 20, Mi­­nas Ge­rais era o se­­gundo maior Es­­ta­­do em número de libaneses e descendentes, atrás apenas de São Paulo. "Ti­­ve­­mos um papel fundamental na construção de Belo Horizonte porque viemos para cá dispostos a nos fixar, a ter uma nova vi­­da", diz Pedro Bacha, empresário li­­banês do ramo de confecções e atual presidente da Associação dos Co­mer­­ciantes do Hipercentro.

Segundo a historiadora Mariana Bracarense, autora de uma monografia sobre a imigração libanesa em Belo Horizonte, as características em comum nas culturas mineira e libanesa facilitaram a adaptação. "Ambos os povos apresentam o mesmo jeito familiar, hospitaleiro e simpático. Por isso, cativaram-se mutuamente", afirma. De mascates, eles viraram prósperos donos de lojas que podiam pagar boas escolas para os filhos, uma forma de se integrar e ascender socialmente. "Desde o início, os imigrantes tiveram a preocupação de investir na formação dos descendentes", explica a historiadora Samira. "Era uma questão de honra, de prestígio social, e também uma maneira de mostrar que a imigração tinha dado certo." Não há estatísticas precisas sobre o número de libaneses que vivem hoje na capital. A comunidade acredita que sejam 40 000. "A colônia está tão entranhada na sociedade belo-horizontina que não há como separar. Somos uma família só", afirma Edison Simão.Era uma vez Um armazém

› Os pais do empresário Euler Fuad Nejm chegaram ao Brasil na década de 40, fugindo da instabilidade causada pela II Guerra, e se conheceram em Belo Horizonte. Depois do casamento, abriram um pequeno armazém de secos e molhados no bairro Santa Tereza, onde o filho começou a trabalhar com 15 anos (ele é o jovem assinalado na foto menor). "O comércio está no sangue fenício. Foi na loja que aprendi a fazer negócios e a lidar com os clientes", conta. Formado em administração e pós-graduado em ciências contábeis, ele é o atual presidente da rede de supermercados Super Nosso, criada em 1998, hoje com catorze lojas. Nejm também é o responsável pela rede Apoio Mineiro, com dez endereços. "Orgulho-me de dizer que tenho sangue libanês e brasileiro."

O rei do quibe

› Todos os dias são vendidos 5 000 quibes e 5 000 esfihas nas oito lojas Vila Árabe espalhadas pela cidade.Ao chegar de navio ao Brasil, sozinho, Gaby Madi, então com 18 anos, não calculava que a comida de sua terra faria tamanho sucesso por aqui. Mas foi o que aconteceu, em parte por causa dele. "O mineiro gosta de comer bem. Por isso a nossa culinária tem tantos apreciadores", afirma. Aos 65 anos, Madi é uma referência para a colônia libanesa. No restaurante da Savassi, costuma receber patrícios, que continuam vindo para o Brasil em busca de oportunidades. Presidente da Fundação Libanesa de Minas Gerais (Fuliban), ele faz questão de financiar o tratamento de 800 jovens dependentes de drogas. "É a minha forma de retribuir o que o Brasil fez por mim."

Acervo Centro Atleticano de Memória
(Foto: Redação VejaBH)
Craque das arábias

› A maior parte da colônia libanesa em BH torce para o Atlético. Essa paixão teve início nos anos 20, quando o jogador Said Paulo Arges (na foto, à esq.), que atuava no time da comunidade árabe, o Sírio Horizontino, foi contratado para reforçar a equipe alvinegra. Arges fez história no Galo ao marcar 142 gols e se tornar um de seus grandes ídolos. "A presença de um patrício entre os craques do Atlético levou os árabes a se sentirem tão à vontade nas arquibancadas quanto um beduíno sobre um camelo no meio do deserto", brinca o jornalista Ricardo Galuppo, autor do livro Raça e Amor, sobre a trajetória do clube. Apelidado de Abi-Chute (abi significa pai, em árabe), o jogador encerrou a carreira no Atlético, onde depois foi treinador e diretor. Morreu em 1994, aos 89 anos.

Salva pela dança

› Brigitte Bacha chegou ao Brasil com 16 anos, em 1980. Deixou a aldeia onde nasceu para acompanhar a família, que veio para cá fugindo da guerra civil. "Vivia nas montanhas, em uma pequena vila. Foi um choque chegar a uma cidade grande sem falar português", lembra. Ao contrário dos irmãos, Brigitte não se adaptou e começou a ter problemas na escola. As coisas só melhoraram quando ela passou a fazer dança do ventre. Animada, aprendeu também a dança folclórica libanesa chamada dabke. "Reencontrei minha identidade", conta. Desde 2009, sua escola, a Studio Brigitte Bacha, tem o certificado de reconhecimento do Ministério de Turismo do Líbano, que atesta sua legitimidade como representante do folclore do povo árabe. "É um orgulho representar a cultura do meu país, mas não me vejo mais morando lá", diz ela. "Casei-me aqui e meus filhos são brasileiros."

O Líbano em BH

Alguns endereços mantidos pela comunidade

• Fundação Libanesa de Minas Gerais (Fuliban) - Atende dependentes de drogas gratuitamente (☎ 3221-9656)

• Lar Druso Brasileiro - Realiza atividades beneficentes e culturais (☎ 2531-0182, www.lardruso.org)

• Paróquia Nossa Senhora do Líbano - Realiza missas em aramaico e promove visitas de descendentes ao Líbano (☎ 3421-7731)

• Clube Libanês - Aberto para sócios-proprietários e sócios-usuários (☎ 3443-5066, www.clubelibanesbh.com.br)

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE