Crônica

Questão de detalhe

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Andei à procura de um fato que traduzisse nossa correria para a Copa, que fosse, ao mesmo tempo, síntese e símbolo da improvisação em curso. Encontrei-o a caminho de Confins. Não se trata do aeroporto, caos poeirento em que o usuário fica emparedado entre a desinformação e o labirinto de tapumes. Nada disso. Minha busca terminou antes, em Vespasiano, numa simples manutenção de estrada. Vi, na Linha Verde, uma equipe embelezando a mureta entre as pistas. Que embelezamento... Os profissionais encharcavam o rolo de tinta até gotejar, pintavam o concreto sem retirar o barro, o mato e o lixo, avançavam pela canaleta e pelo asfalto, deixavam escorrer o excesso na via expressa, sem se dar conta do resultado ou se importar com ele. De quebra, o jateamento feitono alto da mureta coloria de branco o gradil preto.

A manutenção não implantou o tal padrão Fifa na divisória central da rodovia, mas trouxe prejuízo aos nossos bolsos. A tinta jogada fora quase daria para refazer o serviço. O desperdício significa que ainda sobra dinheiro para a Copa, apesar de todos os protestos contra o excesso de gastos?

Na estrada para o Rio de Janeiro, o fato se repetiu, com detalhes curiosos. A equipe de artistas pintou o mato, os montes de lixo, de folhas e de terra acumulados ao longo da BR 040, numa orgia de brancura que, às vezes, lembrava marshmallow escorrendo sobre o chocolate de sujeira presenteado por caminhões de minério, pela chuva e pelo vento. Pelo rastro, a fúria dos pintores não pouparia nem uma pessoa que passasse por ali.

Dizem que o diabo mora no detalhe. Discordo. O detalhe faz a diferença. Significa competência, cuidado, respeito pelo dinheiro público. Se quisermos aprender a lição, comparemos a qualidade e o preço de nossas obras para a Copa com o que se pôde constatar nas de outros países. As nossas nem sequer têm o aspecto de acabadas. Tome o Move, por exemplo. Mal ele começa a se mover, as grades estão arrebentadas, os pequenos jardins já morreram, o gramado secou, a sujeira impera - e ninguém se move. Em breve, haverá pichações: serão elas a decoração definitiva?

Com tanto desperdício nas estradas, não sobrou tinta em BH para fazer placas de sinalização para os visitantes. Eles ficarão perdidos. Duvida? Tente, em algum bairro, achar o caminho para o Mineirão, o aeroporto, o Rio, Brasília ou São Paulo. As autoridades parecem supor que todos conhecem a cidade. Tente, em seguida, acompanhar as placas de retorno. Elas não têm continuidade, levam-nos a lugar nenhum: roda-pião. Se o príncipe Harry não comparecer ao estádio para torcer pela Inglaterra, a gente já sabe que foi por falta de placa. Eu o aconselharia a usar helicóptero.

Os políticos dirão que foi uma luta concluir o grosso da obra, portanto as minúcias são supérfluas. Quer dizer que eles vão a seus camarotes no Mineirão com um pé de sapato branco e outro vermelho, já que o detalhe não importa?

Diante do amadorismo e da improvisação oficial no preparo da tal Copa das Copas, para legar ao mundo uma boa impressão o Brasil contará mesmo é com sua gente. Conosco. Sempre recebemos os visitantes com carinho. O ano de 2014 não será a exceção. Já fomos considerados o povo mais simpático do mundo. Está na hora de recuperarmos o posto. É um detalhe que pode fazer a diferença em nosso futuro.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE