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O “rei dos shoppings populares” se prepara para abrir um centro de compras em favela do Rio de Janeiro

Dono do Oiapoque e do Uai, em frente à rodoviária, empresário Elias Tergilene investe em negócio sob medida para o povão

Por: Sabrina Abreu - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Tergilene: "Quero ajudar as pessoas a fugir da falta de dinheiro, que é a pior coisa do mundo"

Se todos os males da humanidade fossem colocados de um lado da balança e apenas a falta de dinheiro do outro, o que pesaria mais seria a falta de dinheiro. Foi essa frase que Elias Tergilene ouviu durante toda a sua infância. Ela era repetida como um mantra pelo avô paterno, o libanês Nassif. "É minha lembrança mais antiga", conta ele, hoje com 41 anos, em seu espaçoso escritório no centro de Belo Horizonte, de onde comanda a rede de shoppings populares Uai, que faturou 24 milhões de reais no ano passado. Nascido em Carlos Chagas, no carente Vale do Jequitinhonha, ele prometeu a si mesmo que escaparia da pobreza. Foi criador de porcos, carreteiro e camelô até que, aos 18 anos, abriu o primeiro empreendimento com endereço fixo, a Serralheria Augusta. O negócio se transformou em uma requisitada marcenaria que, dez anos mais tarde, chamou a atenção do grupo italiano Doimo, especializado em móveis de luxo. "Os estrangeiros compraram 51% das ações. Foi quando senti, finalmente, que estava bem de vida", lembra ele. O comércio sofisticado, porém, nunca o entusiasmou.

Em 2008, inspirado pelo sucesso do Oiapoque, o shopping de camelôs no centro de BH, ele resolveu investir no mercado popular. Pagou 8 milhões de reais pelo prédio em frente à rodoviária, no qual pretendia abrir seu centro de compras, e só depois se deu conta de que a proximidade com o pioneiro Oiapoque seria um obstáculo. "Nenhum camelô queria ir para o Uai", recorda-se. Foi preciso adaptar os planos. Para atrair comerciantes, prometeu impedir a venda de produtos contrabandeados e ganhou a confiança de marcas como a Água de Cheiro, de perfumes, e a TIM, de telefonia, que abriram lojas por lá. Sua rede Uai tem hoje cinco endereços - três na capital mineira e dois em Manaus. "O Oiapoque foi o primeiro ca­­melódromo, mas eu fiz o primeiro shopping popular", vangloria-se ele, que atualmente é dono de ambos. Em fevereiro, Tergilene comprou uma participação no antigo concorrente, em uma transação cujos números mantém em sigilo.

"O que gosto mesmo é de fazer negócios com os pobres, porque falo a língua deles", diz o empresário, enquanto balança a perna direita sem parar, um tique que denuncia traços de sua personalidade. "Sou hiperativo e ansioso", confessa. Há quatro meses, Tergilene recebeu um telefonema do fundador da Central Única de Favelas, Celso Athaíde, que procurava um parceiro comercial para abrir shoppings em comunidades cariocas pacificadas. Os dois nem se conheciam, mas Athaíde já sabia da fama do rei dos shoppings populares. No mesmo dia, o mineiro pegou um voo para o Rio, passou a madrugada rodando por diferentes favelas e disse sim para o negócio antes de voltar para BH. Em 20 de fevereiro, Tergilene e Athaíde anunciaram a construção do Favela Shopping, no Complexo do Alemão, um investimento de 20 milhões de reais com previsão de inauguração até o fim do ano. A ideia é contratar 100% da mão de obra para as 500 lojas entre os moradores do lugar. "Quero ajudar as pessoas a fugir da falta de dinheiro, que é a pior coisa do mundo", explica Tergilene, que não se esquece da frase do avô Nassif.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE