Arquitetura

Residência projetada por Allen Roscoe na Serra do Curral torna-se referência para projetos engenhosos

Casa chama atenção por ser um bloco em chapa de aço pintada, sem cerca, grades ou muros

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

No sentido horário, a partir do alto: Roscoe e sua vista para a cidade, alguns dos jipes de sua coleção, a fachada que lembra um contêiner e a cozinha sem janelas

Aúltima moradia de uma das mais íngremes ruas do bairro Mangabeiras, incrustada na Serra do Curral, torna-se pouco a pouco um ícone da arquitetura brasileira. Capa da última edição da revista Monolito, dedicada a residências de arquitetos brasileiros, a chamada "casa galpão", projetada em 1991 por seu proprietário, o belo-horizontino Allen Roscoe, chama atenção por ser um bloco em chapa de aço pintada, sem cerca, grades ou muros. Do lado de fora, apenas uma escultura amarela do austríaco Franz Weissmann (1911-2005), para quem ele trabalhou. O caminho de pedras reservado a carros e pedestres desperta curiosidade para o que se encontra no interior da construção de 350 metros quadrados. E há muitas engenhosidades por ali.

Ao primeiro passo porta adentro, logo se vê um resumo do estilo do arquiteto e serralheiro: muito aço, concreto e reaproveitamento de materiais usados, como matrizes de alumínio para impressão de gravuras. Sem divisória alguma, avista-se um pátio que recebe a sala e parte de uma coleção de 32 jipes. O piso é de pedras retiradas do próprio terreno. A Região Sul de Belo Horizonte, com suas mansões e seus prédios, aparenta começar debaixo da janela gigante de vidro.

A escada que dá acesso ao piso superior gira em torno de seu patamar, podendo mudar de lugar. O dormitório também não é nada convencional. A cama, sob a qual se esconde uma banheira, se desloca sobre rodas. Uma armário-sofá, a bicicleta e uma prancheta funcionam como parapeito. No andar de baixo, a cozinha abriga um fogão encontrado em uma de suas "garimpagens de relíquias". Não há janela. A ventilação se dá por um vão entre a alvenaria e a laje. "Este é um espaço só meu", diz Roscoe. Ele tem outras três casas para guardar seus jipes e mora com a mulher, a artista plástica Thaïs Helt, em um condomínio de Nova Lima.

Aos 62 anos, Roscoe se autointitula "serralheiro de artista". Ele executa esculturas normalmente projetadas em papel, maquete ou chapa fina. Perdeu, faz tempo, as contas de quantas obras já viabilizou, principalmente as de Amilcar de Castro (1920-2002), considerado o maior escultor em aço do Brasil. As peças de Castro em exposição em Inhotim e na Praça da Assembleia, por exemplo, passaram pelas mãos dele. "O mérito é todo do artista. Eu estou por detrás da arte", afirma. Hoje, realiza trabalhos para o paulistano Nuno Ramos, o carioca José Bechara e o ouro-pretano Jorge dos Anjos, entre outros.

Faz questão de não desgrudar o pé das montanhas de Minas - só viaja a trabalho. "Sempre fui assim", diz. São quarenta anos de experiência até aqui. Formado em engenharia pela PUC Minas, em 1972, e em arquitetura pela UFMG, em 1974, iniciou sua carreira como arquiteto industrial em uma siderúrgica. Depois, foi funcionário de uma metalúrgica que aceitava encomendas de artistas. "A empresa fechou, eu mudei de emprego, mas os escultores continuaram me procurando", conta. E, assim, ele não parou mais.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE