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Conheça a rotina de Kênnya Kreppel, a "prefeita" da Cidade Administrativa

Responsável pelo dia a dia do complexo, a servidora comanda um orçamento de 130 milhões de reais

Por: Cedê Silva - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Kênnya, no complexo projetado por Oscar Niemeyer: desafio de manter 17 000 servidores satisfeitos

Quando Kênnya Kreppel recebeu o telefonema de um funcionário da Fundação João Pinheiro informando que aquele era o último dia para a matrícula no curso de administração pública, respondeu que não estava interessada. Frustrada após a segunda reprovação no vestibular de odontologia da UFMG, a moça de 19 anos preparava-se emocionalmente para fazer a prova pela terceira vez. A mãe protestou. Diante do apelo familiar, Kênnya voltou atrás, pediu uma carona ao namorado e seguiu apressada para garantir sua vaga na fundação. Poucos meses depois, percebeu que havia encontrado sua verdadeira vocação, e nunca mais pensou em obturações, canais e afins. Hoje, aos 36 anos, Kênnya é responsável pela supervisão de todos os serviços na Cidade Administrativa, em Venda Nova. Segurança, limpeza, jardinagem, telefonia, alimentação, estacionamento... tudo passa por ela. Seu cartão de visita informa que seu cargo é de intendente, mas, para os mais de 17 000 servidores que trabalham no complexo administrativo do governo estadual, ela é a "prefeita".

"Tudo aqui tem um impacto grande. Se falta energia em um andar, são 700 pessoas sem luz", diz Kênnya. Até assumir a missão, no início de 2011, ela trabalhava como chefe de gabinete da secretária de Planejamento, Renata Vilhena. Agora, comanda uma equipe de 96 pessoas e tem em suas mãos um orçamento anual de 130 milhões de reais. Como os habitantes de qualquer cidade, os servidores estaduais — incluindo o governador Antonio Anastasia — têm sempre novas reclamações ou sugestões a fazer. O que torna impossível a Kênnya caminhar pelos corredores sem ser interpelada por alguém. Certa vez, recebeu a ligação de um servidor desesperado porque tinha visto um peixe morto no lago. "O bombeiro foi até o lugar e constatou que uma tartaruga havia pegado o peixe para comer, algo completamente normal", lembra. Talvez por isso ela prefira não usar os refeitórios. Leva sua refeição de casa e almoça sozinha em sua sala, no 3º andar do edifício Gerais. "Como uma comida caseira e ainda tenho um pouco de paz", brinca.

Sossego é coisa rara em sua rotina, que começa às 10h e nunca termina antes das 20h. Mas, otimista, ela acha que o pior já passou. Durante o primeiro semestre na função, período em que as secretarias ainda estavam sendo transferidas para Venda Nova, os problemas eram mais frequentes. "Foi como construir um avião durante o voo." Em março de 2011, com pouca experiência no cargo, ela teve de enfrentar um apagão elétrico que parou todos os elevadores, telefones e até os banheiros com descarga a vácuo. "Foram os quarenta minutos mais longos da minha vida", diz Kênnya. Para evitar reviver dias como esse, a servidora — que recebe 10 800 reais por mês para zelar pelo bom funcionamento da Cidade Administrativa —, prepara um plano de contingência que deverá estar concluído até o fim do ano. Ela diz que não é fácil fazer as obras necessárias por lá, já que todas as mudanças precisam ser aprovadas pelo escritório de Oscar Niemeyer, autor do projeto arquitetônico. No momento, a luta da prefeita é para construir abrigos nos pontos de ônibus e cobrir os caminhos que levam até esses lugares. Trata-se de uma reivindicação dos servidores que, com a chegada do verão, certamente ficará mais ruidosa.

Metódica e organizada, ela diz que o segredo é resolver uma coisa de cada vez. Se está tratando de uma questão, não deixa a atenção ser desviada para outro tema. Durante o tempo que durou a entrevista a VEJA BH, fez questão de ignorar as chamadas do celular. Só tocou no aparelho para exibir Thiago, o filho de 2 anos e meio que tem com o dentista José Flávio Martins, aquele que, há quase duas décadas, garantiu a carona até a Fundação João Pinheiro. Hoje, a prefeita da Cidade Administrativa conclui que as reprovações no vestibular de odontologia foram bem-vindas. Sua vocação era mesmo trabalhar na administração pública. Kênnya nunca pensou em ser prefeita de verdade, apesar da experiência de cuidar de um orçamento mi­­lionário e de uma população de 17 000 pessoas. É mais do que o número de ha­­bitantes de Jaboticatubas, a cidadezinha onde mora, a 63 quilômetros de Belo Horizonte. Ela, que vivia antes na capital, foi buscar tranquilidade no pe­­queno município em que nasceu. De agitação, já chega a que Kênnya enfrenta no trabalho.

Superlativos e curiosos

Alguns números da Cidade Administrativa, inaugurada em 2010

270 000 metros quadrados de área construída

105 000 mudas de plantas

400 banheiros

78 elevadores

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE