Crônica

Riscos da Copa

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Atílio - Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Chegou a hora. O grande teste para 2014 vai começar. Com o mundo de olho em Belo Horizonte, tudo o que acontecer aqui, sobretudo se for notícia ruim, aparecerá nos noticiários de todos os continentes. Tem gente torcendo para as coisas saírem errado e dizer: "Não falei?". O pior é que essa possibilidade existe. Por isso, já estou fazendo figa.

Problema surge onde menos se espera. Imagine, por exemplo, que a van com toda a torcida do Taiti não consiga chegar ao Mineirão, perdida no engarrafamento-monstro previsto para seu jogo contra a Nigéria ou pela falta de orientação em nossas ruas, que não têm placas. Duvida dessa hipótese? Tente então achar, em qualquer bairro, o caminho para o Mineirão, Rio ou São Paulo. Temos competência para erguer vistosos viadutos, porém não conseguimos disponibilizar uma plaquinha de informação. Talvez devamos doar um GPS a cada visitante. Nesse caso, os taitianos não se perderão e sairão daqui encantados com nossa bondade. Mesmo assim, há risco. O GPS pode não funcionar. Se for como o celular, que vive em apagão, o tiro sairá pela culatra.

A possibilidade de dor de cabeça não termina aí. Suponhamos que os dois ou três ônibus que transportam a torcida mexicana não achem estacionamento no Mineirão e venham a parar atrás da Igreja da Pampulha. Como os mariachis carregarão aqueles violoncelos enormes até o estádio? Onde encontrarão, depois, fôlego para tocar La Cucaracha e levantar a garra do time? Se o México perder, os jornalistas alegarão que o país foi prejudicado pelo desgaste físico imposto à torcida. De quebra, ouviremos que, em Guadalajara, em 1970, o tratamento dado a nossa seleção foi puro carinho e incentivo. "Em Belo Horizonte, uma mão não lava a outra!", gritarão as manchetes.

Pior será se os japoneses, os 98 previstos para nos visitar, depois de tomar litros de saquê nos bares do estádio, forem barrados pela polícia por porte de arma. Distribuirão golpes de caratê com fartura, poderão sacar a espada samurai e tentar um haraquiri. Imagine só o problemão para as relações nipo-brasileiras. A Fifa, que liberou a venda de bebida, lavará as mãos. Afinal, ela apenas dá as cartas. Dá, não. Cobra.

A maior caravana será a da Nigéria. Quase 300. Creio que, entre os torcedores, virão três generosos golpistas: dr. Mohammed Ali, dr. Mohammed Jamal, prof. Mohammed Jamil. Eles me mandam, todos os meses, e-mails afirmando que herdaram 10 milhões de dólares mas, para embolsar a fortuna, precisam de 500 000 dólares para as custas processuais. Se eu lhes enviar o dinheiro, terão o prazer de dividir a grana comigo. Se preferir, posso ir a Lagos conferir todos os documentos. Não são mesmo generosíssimos? Aposto que viajam por conta dos brasileiros. Soube que alguns de nossos compatriotas acreditaram na promessa, deram as caras na Nigéria e tiveram de pagar vultosos resgates para retornar ao Brasil. Evidentemente, além de ver futebol, eles vêm incrementar os negócios. Imagine se um deles, na chegada ao Mineirão, é atropelado por uma de suas vítimas. Belo Horizonte pagará o pato.

Copa é um negócio arriscado. No entanto, quem não arrisca não petisca. Estou fazendo muita figa para o sucesso do empreendimento. Mas sei não, sei não... É gente demais que vem aí. Pelas contas, quase 500 estrangeiros. BH comporta tamanha multidão?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE