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Após ritual com Marina Abramovic, o mineiro Marco Paulo Rolla apresenta performance inédita em São Paulo

Para integrar a exposição da mestra da arte performática, Rolla participou do famoso método Abramovic

Por: Raíssa Pena - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Rolla: "A arte não é mesmo a ciência do inexplicável?"

Ele adorava ser o noivo das festas juninas da escola. Garante ter comovido professores e colegas com sua interpretação do clássico Édipo Rei no ensino mé­­dio. Mas, com o passar do tempo, Marco Paulo Rolla descobriu que sua vocação não era exatamente o teatro. "Eu gostava mesmo era das coisas estranhas", brinca. Mineiro de São Domingos do Prata, Rolla encontrou na performance sua melhor forma de expressão artística e hoje é um dos mais respeitados nomes do Brasil na área. Seus trabalhos, que testam os limites do próprio corpo e geralmente misturam música, dança e técnicas teatrais, chamaram a atenção da papisa da arte performática, a sérvia Marina Abramovic. Ele foi convidado a integrar o seleto grupo de brasileiros que participam da mostra Terra Comunal, de Marina, atualmente em cartaz em São Paulo. "Sempre admirei o trabalho de brasileiros como Lygia Clark e Tunga, mas ainda tenho muito a aprender sobre artistas mais jovens", diz a mestra.

O mineiro de 47 anos é pianista, instituiu a disciplina de performance na Escola Guignard, pinta, esculpe e produz gravuras que integram acervos importantes, como os de Inhotim e do Museu de Arte Moderna de São Paulo. O respeitável currículo acaba de ganhar mais uma conquista de peso: a participação no chamado "método Abramovic". O curso, que já recrutou discípulos famosos, a exemplo da cantora Lady Gaga, foi ministrado por Marina em uma pousada perto da capital paulista no começo do mês e serviu como preparação para a maratona de performances da exposição.

Durante cinco dias, Rolla e os outros convidados ficaram sem falar, sem tomar banho e sem comer. Bebiam apenas água e chás. Vez ou outra recebiam uma colherada de mel dada pela própria artista. Os alunos precisavam acordar nas primeiras horas da manhã, faziam exercícios na água e caminhadas em marcha lenta (muito lenta) ao redor de um lago. Algumas ações testavam a paciência e a disciplina dos participantes, como descascar e contar repetidas vezes um punhado de 21 castanhas. Havia ainda rituais de contornos místicos, como o que reuniu todos os alunos nus e urrando em direção a uma fogueira. Segundo Marina, isso transformou a turma em uma família. "O método me esgotou física e psicologicamente, mas abriu uma porta em minha mente que eu nem sabia que existia", garante Rolla.

Nas semanas de convívio com a célebre professora, Rolla desenvolveu a performance Preenchendo o Espaço, que vai apresentar em São Paulo entre os dias 7 e 14 de abril. O trabalho consiste em ocupar um dos ambientes do Sesc Pompeia, munido de um acordeão, e interagir com mesas, cadeiras e chão em poses predefinidas que duram até duas horas. Pode parecer estranho ou sem propósito para muita gente, mas, como indaga o próprio Marco Paulo Rolla, "a arte não é mesmo a ciência do inexplicável?".

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE