Crônica

Sapos de estimação

Por: Cris Guerra - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

Dou-lhe minha palavra", dizia um cavalheiro a outro no tempo dos meus avós. E era suficiente. Com o passar dos anos, a palavra dita foi perdendo o seu valor. Misturada a tantas outras numa torre de babel de sons e informações ao léu, tornou-se um ruído de nada. A palavra escrita, referendada e assinada, essa, sim, ainda persiste - em pleno século XXI, sobrevivem os primitivos cartórios, para que vivam muito (e muito bem) os seus donos. Enquanto a palavra dita se desmancha no ar, a escrita, prepotente e erudita, constrói fortunas que passam de geração para geração.

Pesquisas dizem que um homem emite em média 5 000 palavras por dia. Já as mulheres fazem uso de um número quatro vezes maior de verbetes nas mesmas 24 horas. Em sua verborragia diária, dão conta de tudo o que as incomoda. Enquanto eles tapam os ouvidos, elas se esforçam para decifrar o pouco que lhes é dado. Avessas a enigmas, são devoradas pelo silêncio que as consome.

Desprezado, o objeto palavra não resolve problemas. Ao contrário, cuida de aumentá-los até que mais tarde só lhes restem os tribunais. Mas a culpa não é da palavra. Falta-lhe ser ouvida. Para muitos, falta ouvir-se a si mesmo.

Daí a importância dos longos monólogos, diante do psicanalista ou de generosos amigos: devidamente acolhidas, as palavras nos permitem entender a nós mesmos, desnudando-nos diante do espelho da alma. Os que vivem fugindo de tais revelações guardam dentro de si sapos inteiros, cultivando-os como se por eles tivessem certa estima. E os armazenam em cantos escondidos, com os quais nunca tenham de fazer contato. Até chegar o dia da faxina, quando basta uma simples e sonora palavra para golpear em sopro, nos olhos do outro, uma farta duna de silêncio.

Eu era bem pequena quando minha avó me deu seu conselho mais contundente: "Quando você bater o dedinho do pé no pé da mesa e sentir aquela dor lancinante, solte o palavrão mais libertador que lhe vier à cabeça". Conselho curativo para pequenos e grandes ferimentos.

Expressar-se já é meio caminho andado para a cura. Saber ouvir-se completa o tratamento.

Mas não é todo mundo que tem a sorte de ter uma avó como a minha. Os que não tiveram essa chance equilibram na ponta da língua palavras não ditas, que deixam um forte amargor na boca. Falta-lhes coragem para dizer verdades duras que seriam genuínas provas de amor. E o que fica aprisionado aumenta a sua fúria. Desavisados, sofrem os que os cercam no tráfego, o vendedor que comete um deslize, a atendente que reproduz ao freguês as regras internas da empresa.

É por isso que sou defensora do palavrão. Mais verdade, por favor. Mais e maiores palavras ao longo do dia, para nos fazer na alma breves massagens relaxantes.

Desconfio dos que estão sempre calmos, dos que sorriem o tempo todo e não se permitem um ou outro pecado da maledicência. Tenho medo dos sapinhos venenosos que possam morar ali. Os que escorregam em pequenos (e grandes) xingamentos durante o dia, direcionados a ninguém ou a coisa alguma, passam a respirar mais limpo. Levam-se menos a sério. Fazem do verbo uma gargalhada e seguem em frente, revigorados.

Para a polidez que me sorri amarelo, eu evoco o raio que a parta. Polido é o caramba. Meu nome agora é Zé Pequeno.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE