Crônica

A saúde da leitura

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
Veja
(Foto: Redação VejaBH)

Sem perceber, escaneamos, da cabeça aos pés, as pessoas à nossa frente. Em fração de segundo, o cérebro examina conhecidos e desconhecidos e faz juízos deles: simpático, tranquilo, confiável, triste, nervoso, esperto, falso, perigoso. Criamos até expressões populares para os encontros e desencontros dessa aptidão inata: "amor à primeira vista" ou "nossos anjinhos não combinam". Os neuropsicólogos usam um nome mais pomposo para a percepção: teoria da mente. Esse juízo automático decorre da evolução e nos ajuda a sobreviver, identificando potenciais ameaças ou alianças.

A revista Science, editada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência, publicou, no mês passado, uma pesquisa que comprova, uma vez mais, a influência das obras de ficção no desempenho da teoria da mente, isto é, quem tem o costume de ler bons romances tende a melhor interpretar o estado mental de outras pessoas, sobretudo quando envolve características afetivas. Em outras palavras, a leitura de ficção ajuda o funcionamento do cérebro. Chegaram a dizer que ela permite ler a mente alheia, o que é um exagero. Detalhe curioso: um best-seller não produz resultado tão bom quanto uma obra literária de qualidade, com personagens complexas, analisadas em profundidade.

Diversos estudos, sobre os quais comentei aqui há pouco mais de um ano, mostram que a leitura de ficção também acelera os circuitos cerebrais e prolonga a sobrevida de informações. Um deles indica que a fantasia trazida pela leitura (e o consequente aumento da densidade linguística que romances, contos e poemas oferecem) tende a prevenir problemas mentais na velhice, como a doença de Alzheimer. Outro detalhe curioso: quanto mais cedo lermos e cultivarmos a fantasia, melhores as chances de não ficarmos gagás. Triste corolário para os analfabetos e os leitores ocasionais: eles não desfrutam esse benefício.

Enquanto isso, no Brasil, insistimos em, cada vez mais, ler menos ficção. Menos e mal. Não custa repetir que, na mais recente comparação de capacidade de leitura feita pela Unesco, entre mais de sessenta países, nós ficamos entre os doze piores, atrás do Chile, do Uruguai, do México e da Colômbia. O melhor desempenho veio dos chineses de Xangai. Lá existe a certeza de que a leitura e o progresso caminham juntos.

Pouco tempo atrás, um político me confessou não entender o porquê de tanto barulho em torno da má performance brasileira no ranking mundial de leitores, se a maioria dos pais de alunos das escolas públicas está satisfeita com o nível do ensino. A desculpa é perversa, com o aluno e com o país. Transforma projeto de poder em projeto para a nação. Seria o mesmo que não se importar em adicionar um veneno à merenda escolar que só vá surtir efeito daqui a trinta anos.

Ler entretém, instrui, faz refletir, expõe nossas virtudes e limitações. Forma, a longo prazo, melhores cidadãos, conscientes de direitos e deveres. Além disso, cada vez mais, neurocientistas revelam que as obras de ficção têm a extraordinária capacidade de moldar, de preservar e de trabalhar junto com o cérebro. Leitura é musculação para os neurônios. Boa, barata, divertida, sem contraindicação. Não existe melhor remédio para a cabeça. Admite automedicação e receita de amigos. Leitura é uma questão de saúde pública. Só precisamos descobrir a pólvora.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE