Urbanismo

Um símbolo restaurado

Ponto de encontro belo-horizontino, a Praça da Savassi deve ficar pronta no sábado (12)

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

Danilo Savassi vestiu o uniforme de oficial da reserva, cobriu-se com a bandeira do Brasil e subiu na marquise de sua padaria. Queria impedir que manifestantes revoltados com a notícia dos navios brasileiros afundados por alemães na II Guerra Mundial, em 1942, quebrassem o estabelecimento de sua família italiana. Naquela esquina, o rapaz - hoje um juiz aposentado, de 89 anos - participou de protestos e comícios e dali assistiu ao desfile de colegiais e de belas mulheres com sacolas de lojas caras. Neste mês, ele acompanhará de perto a reinauguração da Praça Diogo de Vasconcelos, que, para seu orgulho, continua sendo chamada pelos belo-horizontinos de Praça da Savassi. Catorze meses após o início das obras, a prefeitura promete concluir os trabalhos de revitalização no próximo sábado (12). "A Savassi mudou demais nos últimos anos", diz Danilo, que é filho de um dos cinco fundadores da lendária padaria que deu nome à praça e seu entorno.

Com o passar do tempo, a região - reconhecida como bairro desde 2006 - foi mudando sua identidade. Até os anos 50, as residências de funcionários públicos ocupavam as redondezas. A família do ex-presidente Tancredo Neves (1910-1985) foi uma das que viveram junto à praça. Já na década de 60, as casas foram tomadas por butiques chiques, uma referência da área por quase vinte anos. Com a inauguração do BH Shopping, em 1979, o comércio sofisticado sofreu um revés. Muitas grifes foram para o então novo centro de compras - um movimento que se repetiu nos anos 2000, após a chegada do Pátio Savassi. Saíram as butiques e vieram os escritórios. O interesse do mundo corporativo pelo bairro valorizou os imóveis. Em um edifício novo, o metro quadrado chega a custar 15 000 reais. Casas e pequenos prédios são demolidos em vários pontos da vizinhança para dar lugar a altas torres de uso empresarial. "Há carência de espaços modernos", afirma o presidente da construtora PHV, Paulo Henrique Vasconcelos. Nos anos 80, como centenas de adolescentes da cidade, ele marcava presença nas tardes de sexta-feira diante do edifício 5ª Avenida, na Rua Alagoas. Hoje, prefere as lojas e os restaurantes de Lourdes. Como empresário, no entanto, aposta suas fichas na Savassi, onde está construindo quatro edifícios comerciais. Presidente da Associação de Moradores e Amigos da Savassi, e também diretor da Câmara de Diretores Lojistas, Alessandro Runcini acredita que a nova vocação do bairro é se consolidar como polo de escritórios de grandes empresas e centro hoteleiro. "Até 2013 serão 26 hotéis na Savassi", diz. "Hoje são dezessete."

Para quem circula por ali, o entorno da praça ficará bem mais interessante. As obras, que custaram 12 milhões de reais, 12% mais do que o previsto, garantiram espaço para pedestres. Mesas de bares, bancos e gente fazendo footing, como em outros tempos, devem ocupar os quarteirões fechados nas ruas Antônio de Albuquerque e Pernambuco. A revitalização resgata ainda características do projeto original. Entre a fonte e a calçada portuguesa foram usados paralelepípedos da época da construção de Belo Horizonte. A elevação do piso no cruzamento marca a rotatória que já acolheu um abrigo de bonde e o Pirulito, atualmente instalado na Praça Sete. As obras finais ainda não foram entregues, mas os quarteirões fechados lotam a partir das 18 horas. É um antigo hábito dos moradores da capital que volta à cena: encontrar amigos para beber uma cervejinha nas calçadas. Em uma dessas mesas de bar, em meio a uma roda de amigos, a analista de sistemas Janaína Carmargos conta que se sente aliviada por ter um lugar para relaxar após um dia estressante. "É ótimo tomar uma bebida ao ar livre com os colegas, desabafar e falar bobagens", afirma. "Chego em casa mais tranquila."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE