Crônicas

Segurança, esse perigo

Por: Cris Guerra - Atualizado em

selo_crisguerra.gif
(Foto: Redação VejaBH)
2298_cronica01_dest.jpg
(Foto: Redação VejaBH)

Não sei se é porque perdi precocemente pessoas que eu amava muito, e muito cedo aprendi que o curso da vida tem um desenho próprio, que dificilmente conseguimos tracejar. Não sei se é porque nasci assim, com urgência de vida, uma sede raramente saciada. Estou num dos extremos, admito. Em busca do caminho do meio. Mas algo me diz que a segurança não mora no meio, nem nas margens, nem nas pontas. Ela é só uma bonita ilusão, que nos sorri atraente e depois desaparece na primeira curva do caminho. É como um pesado guarda-chuva que carregamos para lá e para cá, na certeza de que estaremos protegidos caso o tempo feche. Até que vem o temporal e o incômodo objeto encontra função: evitar que nos molhemos por completo. Encharcam-se os pés, as canelas, os braços — se houver sorte e a tempestade não for de vento. Vale a pena carregar aquela tralha por tantos quilômetros?

Palavra que gostamos de empregar, na prática a segurança segue pouco usada, mas (aparentemente) preservada, a ponto de pensarmos mais nela do que na vida. E cresce a traiçoeira sensação de que enganamos o tempo e de que ele nos abriu uma exceção, permitindo-nos ficar aqui para sempre. Guardar dinheiro, em nome dela. Quanto mais, melhor — nunca se sabe o que virá, pois não há limites para o perigo. Sabe-se lá se, de tão seguro, você viver mais de 100 anos? O preço da velhice está pela hora da morte. Com os olhos fixos na direção daquela que acabou de virar a esquina, você não tem tempo a perder. Nem dinheiro. Nem saúde. Em nome do conforto no futuro, você vive mal acomodado. Habituado à disciplina da precaução, nem percebe a vida passando pela janela. Ocupado em perseguir patrimônios, esquece o único que tem: este exato instante. E, de tanto se proteger da falta, vive na falta.Até que venha um sopro, um susto, um espasmo no coração, um silêncio. E tudo se vai com o vento — a segurança, inclusive. Talvez seja a hora de abandonar a ilusória sensação de controle das coisas. Sair da sua "zona de desconforto": abrir a janela e sentir o prazer do vento no rosto — ou da chuva, por que não? Ir para o trabalho calçando aquele sapato de festa. Tomar água em taças de cristal, com direito a solenes brindes. Quebrar sua própria louça inglesa, em vez de deixar que seus netos o façam.

Claro, a vida também é feita de planos. Planeje o jantar de hoje à noite. Garanta o conforto dos filhos, mas fale agora mesmo do seu amor por eles. E, a menos que você seja político, pare de trabalhar por um futuro melhor.

De vez em quando, esqueça o filtro solar: receba o sol no rosto como um beijo. Coma vegetais sem agrotóxicos. Jamais engula sapos. Exercite os músculos — principalmente os da face. Distancie-se das tragédias e verá que, de longe, elas podem ser engraçadas. Durma cedo, sonhe muito, viva ainda mais.

Troque o medo de errar pela vontade de acertar. Aprenda a desistir quando for preciso. Foque o que é, e não o que poderia ter sido. Coloque a vida à frente do orgulho. Seus desejos à frente do que os outros desejam para você. E, acima de tudo, respeite o hoje — ele é mais velho que o amanhã. Cuidado com a armadilha de preferir sempre as outras opções: o antigamente, que ninguém nunca mais conseguiu fazer igual; a melhor parte, que está sempre por vir. Aprenda com o passado, use o futuro como estímulo, mas viva um dia de cada vez. Disso, esteja seguro: não há opção mais sábia.

Que dia é hoje? Mais um dia que não vai se repetir. Dia de sair da vigília, tirar o trinco da porta e deixar a vida entrar.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE