Cidade

Sem projetos de grande porte, Lagoinha terá medidas paliativas para preservar vias públicas

Requalificações do tradicional bairro da capital não saem do papel

Por: Paola Carvalho

Lagoinha
Conjunto de casas na Rua Sebastião de Melo guardam características de uma Beagá de outros tempos: patrimônio preservado (Foto: Victor Schwaner/Odin)

Nas praças do bairro Lagoinha se misturavam a malandragem trajada de terno e os policiais de uniforme e revólver na cintura; prostitutas faziam hora, enquanto moças de família atravessavam ligeiro; imigrantes operários iam e voltavam a pé do trabalho, no Centro da recém-inaugurada capital. As cenas de uma Belo Horizonte de outros tempos tornaram-se nostalgia. Mas o patrimônio histórico, capaz de conservar a memória e aguçar a nossa imaginação, tenta resistir ao abandono. São imóveis como as casas em estilos art déco, eclético e modernista, a centenária Igreja Nossa Senhora da Conceição, o primeiro cemitério de Beagá, o do Bonfim, e as peixarias, entre outros estabelecimentos. Projetos de requalificação e preservação já foram apresentados pela prefeitura, mas ainda nada de definitivo saiu do papel. No mês passado, a administração municipal colocou em prática o plano de ação “Lagoinha Mais Viva, Lagoinha Mais Linda!” para melhorar, pelo menos, o aspecto das vias públicas da região. “Integramos diferentes serviços em um esforço conjunto para elevar a qualidade de vida no bairro”, diz o secretário da Administração Regional Noroeste, Mário Júnior. 

Faz parte da lista de intervenções  fiscalizar o comércio, refazer os pisos das praças, instalar as lixeiras, pintar os viadutos, podar as árvores e orientar os moradores a não depositar lixo nas ruas em dias em que não há coleta. “O aspecto limpo induzirá outros a não sujar”, acredita Júnior. Segundo ele, será um trabalho constante, sem data para ser encerrado. As medidas são, entretanto, paliativas. Nas ruas, além de imóveis destruídos, é comum encontrar restos de materiais recicláveis e usuários de crack. “O poder público deve amadurecer um processo de requalificação, esclarecendo os moradores sobre a importância desse patrimônio”, diz o arquiteto José Abílio Pereira, assessor técnico do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Minas Gerais (Crea-Minas).

Em 2013, a prefeitura publicou um decreto em que desapropriava imóveis da região para a instalação do Centro Administrativo Municipal. O anúncio pegou os moradores de surpresa, que resistiram ao projeto até a prefeitura abandoná-lo. Também foi lançada a operação urbana Nova BH, prevendo intervenções no bairro. Depois de muita polêmica, mais uma vez a prefeitura recuou. A Nova BH se transformou nas Operações Urbanas Consorciadas (OUC) Antônio Carlos/Pedro I e Leste/Oeste. O projeto será apresentado à comunidade da Lagoinha no próximo dia 16, às 18h, no Teatro Marília. Destaca--se a recuperação de imóveis tombados e a criação de uma esplanada interligando a rodoviária e a Praça do Peixe. A regulamentação da OUC deve ocorrer até o início de 2016. 

Outra expectativa, por parte do belo--horizontino, é que a Lagoinha possa ser tombada pelo Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município, como ocorreu recentemente com o bairro Santa Tereza. Prestes a ruir, um ícone, a Casa da Loba, retrata bem a degradação da Rua Itapecerica e pede socorro como outros casarões dali e de outras vias. Construída por uma família italiana, abrigava na fachada uma loba amamentando Rômulo e Remo, retratando uma história de origem mitológica sobre a fundação de Roma. “O bairro chegou a uma situação degradante e sem segurança alguma. Esperávamos alguma mudança desde o início da gestão de Marcio Lacerda, mas achamos que nada acontecerá”, afirma o presidente da Associação dos Moradores do Bairro Lagoinha, Oscar Fernandes Vieira. É preciso encontrar — e rápido — uma saída honrosa para esse beco.

 

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE