Copa do Mundo

Sessenta e quatro anos depois da primeira Copa no Brasil, Belo Horizonte cresceu, apareceu e se transformou em metrópole

Além de representar o início do Mundial em BH, a partida entre Colômbia e Grécia, no sábado (14), marcará o retorno do torneio à cidade, que foi uma das sedes em 1950

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Carolina Daher, Isabella Grossi, João Renato Faria, Paola Carvalho e Raíssa Pena

AP Photo
(Foto: Redação VejaBH)

A Copa estava chegando e a impressão era de que as obras não ficariam prontas. O atraso era tanto que a prefeitura precisou assumir a construção do Estádio Independência e assim garantir que as seleções estrangeiras tivessem onde jogar. Parece 2014, mas o corre-corre rolou também em 1950, quando o Brasil sediou a quarta edição da Copa do Mundo. Suspenso em 1942 e em 1946 por causa da II Guerra, o Mundial foi confirmado e Belo Horizonte escolhida como uma das cidades-sede. Diferentemente da série de intervenções que vemos hoje, em 1950 Beagá, uma jovem metrópole de 53 anos, só necessitava de uma coisa: a arena que receberia as partidas. Como América, Atlético e Cruzeiro já tinham seu campo, o Sete de Setembro, então a quarta força do estado, se ofereceu para construir um estádio próprio. Não conseguiu. Chegou-se até a cogitar a exclusão da capital mineira do torneio, o que felizmente não aconteceu. Mesmo assim, a cidade vivia uma expectativa positiva em relação ao Mundial. "As pessoas estavam animadas, existia um clima alegre", afirma Luana Maia, historiadora do Museu Histórico Abílio Barreto. "A vontade era de mostrar ao mundo que Belo Horizonte estava ficando mais moderna, urbana e cosmopolita." A rivalidade com Rio de Janeiro e São Paulo aflorava. "Comentava-se na época que a cidade, finalmente, havia chegado ao nível das duas." Confira a seguir o que mudou na capital mineira nestes 64 anos.

Os Estádios

Desde que foi reformado, o Mineirão sediou quase cinquenta jogos - entre eles uma final de Libertadores - e seis shows. Está mais do que aprovado para a Copa. Em 1950, o Independência não teve a mesma bateria de provas. O único evento que a arena recebeu antes de sua inauguração foi um teste de gramado com os jogadores do finado Sete de Setembro. Mas não houve problema, já que o público não se empolgou. Mesmo com capacidade para cerca de 30 000 torcedores, o estádio contou com uma média de 7 500 pessoas nos três jogos do Mundial - em 2014 são esperados quase 60 000 visitantes para cada um dos seis jogos no Mineirão. Os belo-horizontinos viram, em 25 de junho daquele ano, a Iugoslávia vencer a Suíça por 3 a 0. O Uruguai atropelou a Bolívia (8 a 0) em 2 de julho. Porém, o embate que marcou a disputa foi o encontro da Inglaterra com os Estados Unidos, em 28 de junho. Os inventores do futebol participavam da primeira Copa de sua história e desagradaram aos belo-horizontinos com sua empáfia. Eles se isolaram em Nova Lima e só conheceram o Aeroporto da Pampulha e o Independência, enquanto a seleção dos Estados Unidos, semiamadora e formada em boa parte por imigrantes, se esbaldava nos bares da capital. "Assim que os times entraram em campo, estava todo mundo torcendo pelos EUA", lembra o cantor Pacífico Mascarenhas, um dos 13 000 presentes ao Independência. Quando Joe Gatjens, um imigrante haitiano, recebeu um passe no meio de campo aos 39 minutos do primeiro tempo e chutou para marcar o único gol da partida, o estádio veio abaixo (na foto acima, o atleta é carregado por torcedores após o apito final). A derrota inglesa é até hoje considerada uma das maiores zebras da história do futebol e rendeu o filme Duelo de Campeões, de 2005.

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Moda

Para comprar qualquer coisa - de lingerie a roupa de cama - ia-se à cidade. Era assim que os belo-horizontinos se referiam ao Centro, onde ficava todo o comércio. No início da década de 50, chique era fazer compras na loja Sibéria, dos poloneses Efraim e Ida Blas. Localizada no edifício Acaiaca, o estabelecimento contava com mais de 100 metros quadrados divididos em departamentos de lingerie, roupa, calçado, moda esportiva e bijuteria. "O imóvel era decorado com móveis de luxo e as vendedoras, muito sofisticadas", diz Marta Guerra, coordenadora do Centro de Referência da Moda. Naqueles tempos, uma das referências de modernidade eram as Garotas do Alceu, do cartunista mineiro Alceu Penna. "Todas queriam ser lindas, jovens, cheias de atitude e ter corpo escultural", afirma Carla Mendonça, professora de história da moda da Fumec.

Artes plásticas

No mundo das artes visuais, o mestre Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) formava sua primeira leva de discípulos no Instituto de Belas Artes de Belo Horizonte. A "primeira geração Guignard", que contava com Yara Tupynambá, Maria Helena Andrés e Chanina (1927-2012), se tornaria nacionalmente conhecida no fim da década. Em 1950, no entanto, ainda tomava lições com o professor nos gramados do Parque Municipal (foto). Hoje, BH é reconhecida como um dos principais polos artísticos do país. No ano passado, mais de 340 000 pessoas (51 000 estrangeiros) visitaram o Instituto Inhotim, referência mundial em arte contemporânea. Além disso, temos exportado talentos como os jovens Pedro David, premiado por suas fotografias do cerrado mineiro, e Paulo Nazareth, que saiu da comunidade do Palmital, em Santa Luzia, para estampar jornais de todo o mundo com suas performances.

Acervo MHAB
(Foto: Redação VejaBH)

Urbanismo

Prefeito de Belo Horizonte entre 1940 e 1945, Juscelino Kubitschek (1902-1976) deixou um legado moderno, como a construção do conjunto arquitetônico da Lagoa da Pampulha, para a pacata capital dos belos prédios da Praça da Liberdade. A Avenida Afonso Pena, tomada por árvores, e a Praça Raul Soares, com sua simetria, representavam o que o país queria mostrar aos turistas. "Naquela época, as construções verticais começavam a se impor sobre os sobrados, mas nada foi feito em função apenas da Copa", diz o arquiteto e urbanista Radamés Teixeira da Silva. Em 1949, um relatório da prefeitura registrou a construção de 1 025 prédios - só para se ter uma ideia, no ano passado a administração municipal concedeu 1 150 alvarás. O edifício que mais chamava a atenção de quem chegava de fora era o Acaiaca, na Afonso Pena, entre as ruas Espírito Santo e Tamoios, com seus 29 andares e duas cabeças de índio gigantes na fachada de linhas retas.

Divulgação
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Cinemas

Hoje é de calça jeans e camiseta que se vai ao cinema. Nos anos 50, no entanto, o programa era mais garboso. As mulheres investiam em tailleurs, saias godês, meias finas e salto alto. Os rapazes caprichavam na brilhantina do cabelo, nos ternos de linho e em sapatos bem lustrados. Com capacidade para até 2 500 pessoas, os auditórios tinham palco montado em frente à telona e recebiam shows musicais, apresentações teatrais e circenses antes das projeções. As salas mais badaladas do centro eram o Cine Metrópole (demolido em 1983), o Cine Tupi (atual Shopping Cidade) e, a maior delas, o Cine Brasil (foto), reaberto no ano passado. Havia intervalos durante as sessões que permitiam aos espectadores ir à bonbonnière, ao banheiro, fumar um cigarrinho ou apenas "tomar uma fresca" na calçada. "As pessoas tinham uma relação de amor com as salas que não chega nem perto da experiência sem charme hoje nos shoppings", acredita o pesquisador de cinema Ataídes Braga.

Bares e restaurantes

Quando a Copa do Mundo começou, Belo Horizonte vivia o auge da boemia. A Praça Vaz de Melo, no bairro Lagoinha, principal reduto da malandragem da época, ainda não havia sido demolida para dar passagem aos viadutos que ligam o Centro à Avenida Antônio Carlos. Perto de lá, na Rua Guaicurus, fazia sucesso o Montanhez Dancing. Quem subisse a Avenida Afonso Pena encontraria o Café Palhares, do famoso prato kaol, o Rei do Sanduíche, o bar Polo Norte, o Café Pérola, o Café Nice (foto) e o Tip Top. Outra via que concentrava as referências gastronômicas da cidade era a Rua da Bahia. Estavam por lá restaurantes como a Churrascaria Camponesa, a segunda a ser inaugurada em BH, e bares como Trianon, Café Bahia, Confeitaria Elite e a Gruta Metrópole. Nos últimos tempos, Beagá ganhou o título de capital nacional dos botecos. As casas mais badaladas

ficam nos bairros vizinhos Lourdes e Savassi.

Hotéis

Fonte de preocupação e investimentos em 2014 - 23 novos empreendimentos abriram as portas recentemente, o que significou um aumento de quase 50% no número de quartos -, os hotéis não davam dor de cabeça em 1950. Como as viagens de avião eram raras, praticamente não houve turistas por aqui. Os integrantes das seleções não ficavam em centros de treinamento, mas em locais como o Financial Hotel, o Grande Hotel e o Brasil Palace. A chegada dos atletas mexeu com a cidade. Quando Iugoslávia e Suíça entraram em campo para o primeiro jogo, o público começou a rir, pois estranhou os uniformes com calções largos e a altura dos jogadores. Outro caso marcante foi o das moças que se dirigiram até a porta do Grande Hotel para paquerar os jogadores uruguaios. "A sociedade ficou escandalizada", conta Luana, do Museu Abílio Barreto.

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(Foto: Redação VejaBH)

Transporte

Quando a Copa passar, um dos legados que ficará para a cidade será a implantação do BRT Move. O sistema rápido de ônibus ainda não está totalmente em operação, mas o que funciona até agora já é um reforço no sistema de transporte público de BH, que leva uma média de 1,5 milhão de passageiros por dia. Em 1950, quando sediou a Copa do Mundo, a capital não preparou nenhum esquema especial no transporte público. E nem precisava. Além de praticamente não ter recebido turistas, a cidade contava com 73 quilômetros de linhas de bondes, que eram o principal meio de transporte de massa. A única novidade foi a inauguração dos bondes fechados, já que os modelos abertos dos lados eram perigosos para as pessoas. A maior parte dos 262 000 passageiros que foram transportados por dia em 1950 andou nos vagões sobre trilhos que circulavam pelas ruas.

Teatros

Após o fechamento do Teatro Municipal, transformado no Cine Metrópole em 1941, a cidade ganhou, em 30 de setembro de 1950, o Francisco Nunes, em homenagem ao maestro mineiro. "Mas pouquíssimas peças foram encenadas naquele ano", lembra o ator, diretor e dramaturgo Jota Dangelo, de 82 anos. "As produções eram muito esporádicas, quase raras." Os grupos mais constantes eram o Teatro Mineiro de Arte, dirigido pela atriz e dramaturga Zuleika Melo, e o Teatro do Sesi, comandado por João Cesquiatti. A partir da década de 80, o público belo-horizontino testemunhou a origem de prestigiadas companhias, como o Grupo Galpão, o Grupo Corpo, o Grupo Espanca!, o Luna Lunera e outra infinidade de trupes que seguem se apresentando pelos mais de trinta teatros da capital.

População e economia

Era o tempo em que o prefeito recebia cidadãos em seu gabinete. Otacílio Negrão de Lima (1897-1960) divulgou em 1950 o relatório de sua gestão no ano anterior. Disse ter atendido cerca de 20 000 belo-horizontinos. "Das pessoas recebidas, 90% solicitavam empregos, favores, esmolas, auxílios, gêneros alimentícios e socorros diversos", informa o documento. De acordo com o geógrafo e pesquisador de desenvolvimento urbano Alessandro Borsagli, após a II Guerra houve investimentos vultosos na área industrial, e a capital, que até então tinha uma função administrativa, passou a lidar com uma diversificação mais intensa de suas atividades econômicas. "A cidade não crescia a partir do centro, mas, sim, em diferentes pontos, como no Barreiro e na Pampulha", afirma. "Começamos a perder o verde e os rios para dar espaço aos protagonistas da época, os carros."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE