Música

Sete anos após a sua criação, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais inaugura sede própria com projeto de 179 milhões de reais

Sala Minas Gerais será aberta ao público neste sábado (28), no Centro de Cultura Presidente Itamar Franco, no Barro Preto

Por: Isabella Grossi - Atualizado em

Carlos Hauck/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Os músicos, em um dos últimos testes de acústica, no dia 19: projeto assinado por profissionais de renome internacional

Vestindo camisa polo azul e calça preta social - um modelo despojado para quem quase sempre é visto pelo público de casaca -, o maestro e diretor artístico da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, Fabio Mechetti, anda de um lado para o outro. Da plateia, não tira os olhos dos noventa músicos espalhados pelo palco. Com gestos e movimentos bruscos, o paulistano de 57 anos repreende erros e reclama da propagação dos sons em um dos derradeiros testes acústicos da Sala Minas Gerais, a tão sonhada sede da orquestra cuja inauguração estava marcada para a última sexta (27). Instalado no Centro de Cultura Presidente Itamar Franco, no Barro Preto, o projeto de 179 milhões de reais foi enfim concluído, sete anos depois da criação do conjunto musical. Em 2008, por meio de uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) apadrinhada pelo governo estadual, a Filarmônica nasceu com a audaciosa meta de ser a única formação brasileira com nível de qualidade comparável ao da celebrada Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). A direção caprichou na seleção dos componentes, a começar pela escolha do maestro Mechetti. Mas não conseguiu tirar do papel seu plano de sede própria e a orquestra virou inquilina do Palácio das Artes. "A sala mais apropriada para concertos na cidade era o Grande Teatro", explica o presidente do Instituto Cultural Filarmônica, Diomar Silveira. A orquestra se apresentou também no Teatro Bradesco e no Sesc Palladium. Todos, no entanto, têm vocação híbrida. São usados para dramas, comédias, dança e shows de música popular e não dispõem da estrutura ideal para a música clássica. Além da acústica aquém da desejada, a dificuldade de datas na disputada agenda das casas e a falta de espaços de ensaio sempre foram empecilhos. "Uma orquestra sem sala é como um time de futebol sem campo", diz o crítico Irineu Franco Perpétuo, que é colunista da revista Concerto e colaborador do jornal Folha de S.Paulo. Segundo ele, a Filarmônica de Minas Gerais é hoje o segundo melhor grupo do país, perdendo em excelência apenas para a Osesp. "A sede será o ponto de partida para um salto ainda maior de qualidade."

O sonho de criar uma casa própria para a música clássica em Belo Horizonte é antigo, mais até do que a Filarmônica. Começou com a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, o grupo de músicos mantido pelo governo estadual, também abrigado no Palácio das Artes. Houve uma tentativa de instalar um espaço para concertos no Circuito Cultural Praça da Liberdade, mas as negociações nunca avançaram. Só depois da criação da Filarmônica os planos foram retomados. "Saímos atrás de espaços já existentes, abandonados ou em processo de renovação", lembra Mechetti. Um deles era o Palácio dos Despachos, que hoje abriga a Casa Fiat de Cultura. Outro, o prédio do antigo Cine México. Por diferentes motivos, nenhuma proposta vingou. Surgiu então o terreno no Barro Preto, que pertencia ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJ-MG). Os desembargadores desistiram do plano que tinham para o local e aceitaram uma permuta por outra área.

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A perspectiva artística do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco, cujas obras deverão ser concluídas no segundo semestre: além da Sala Minas Gerais e das sedes da Rede Minas e da Rádio Inconfidência, ela vai abrigar um restaurante no casarão de 1929 (no detalhe)

O maestro enviou um e-mail para o arquiteto especializado em acústica José Augusto Nepomuceno - que participou da adaptação da antiga Estação Ferroviária Júlio Prestes para a Sala São Paulo, da Osesp, e da construção do Gran Teatro Nacional de Lima (Peru) e do Schermerhorn Symphony Hall (EUA). Na época, ele estava à frente de um projeto na Alemanha. Após dois anos de conversas entre o arquiteto e o maestro, a sala de concertos, primeira do Brasil desenhada originalmente para tal finalidade, começou a tomar forma. A Sala Minas Gerais se transformou na protagonista do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco, que, em seus 41 258 metros quadrados, acomodará ainda as sedes da emissora de TV Rede Minas e da Rádio Inconfidência, que pertencem ao governo do estado, além de um restaurante no casarão anexo, uma construção de 1929 tombada pelo Patrimônio Histórico Municipal. "Adaptamos a planta com base nas demandas da sala", conta a arquiteta Jô Vasconcellos, que, junto com Rafael Yanni, é responsável pelo projeto do centro (exceto a sala de concertos). A inauguração do complexo está prevista para o segundo semestre deste ano e custará outros 76 milhões de reais.

"A exemplo do que é feito no exterior, uma equipe especialista em teatro e acústica estabeleceu as diretrizes e só depois entraram a engenharia e a arquitetura", explica Nepomuceno. Profissionais que são referência mundial em acústica, caso do inglês Michael Barron e do americano Christopher Blair, participaram do planejamento e trouxeram para Belo Horizonte sistemas de tecnologia avançada (confira exemplos no quadro da pág. 24), que contribuem para que o som de cada um dos instrumentos seja percebido de modo limpo e claro. "A qualidade é semelhante à das melhores salas de concertos do mundo", garante o arquiteto. O que significa, segundo ele, que a sala belo-horizontina nada deixa a desejar se comparada à da Berlin Philharmonie, na Alemanha, à do Suntory Hall, no Japão, e à do McDermott Concert Hall, nos Estados Unidos. "Tudo o que nós, músicos, ouvirmos de cima do palco, a plateia também ouvirá, com perfeição", diz o percussionista principal da Filarmônica, Rafael Alberto. "Poderemos aperfeiçoar nossas apresentações, pois os ensaios serão realizados no mesmo lugar em que vamos tocar", completa a harpista principal, a holandesa Giselle Boeters. Além do espaço para concertos, com 1 477 lugares, a orquestra terá salas de ensaios, sala de instrumentos, camarins, salão de recepções e uma área para o setor administrativo.

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Além das condições apropriadas para a afinação da orquestra, a Sala Minas Gerais representa para o Instituto Cultural Filarmônica, responsável pela manutenção do grupo, um caminho para a independência. No espaço próprio, a Filarmônica deverá fazer neste ano mais que o dobro das apresentações de 2014. Já estão confirmados 57 espetáculos ao longo de 2015, contra os 24 do ano passado, com ingressos que variam entre 30 e 90 reais (veja as principais atrações na pág. ao lado), sem incluir os programas gratuitos, como os Concertos para a Juventude. Agora que conquistou sua sonhada sede, o grupo tem pela frente o desafio de manter um equipamento cultural dessa magnitude sem os vultosos repasses do governo do estado, que correspondiam a 73% do orçamento anual de 25 milhões de reais até 2014. "Com a inauguração, serão necessários 5 milhões de reais a mais", revela Diomar Silveira. A verba para este ano foi assegurada pela Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig), estatal que está bancando todo o investimento do Centro de Cultura Presidente Itamar Franco. Para os próximos anos, no entanto, será preciso encontrar financiadores. "A Filarmônica está consolidada e reconhecida, graças ao apoio dado pelo governo", afirma o secretário estadual da Cultura, Angelo Oswaldo. "Agora, os recursos públicos devem decrescer em favor dos patrocínios privados." Pelo menos no que se refere à bilheteria, os números soam animadores. No início de 2014, a Filarmônica tinha 1 708 assinantes, espectadores que compraram pacotes de ingressos para assistir às apresentações ao longo do ano. Na terça (24), o total de assinaturas para 2015 era 2 585, 51% maior. Agora, os apreciadores da música clássica terão bons motivos para se sentir em casa.

O que vem por aí

Confira as principais atrações nacionais e internacionais da temporada 2015

Nelson Freire (5 e 6 de março)

O célebre pianista mineiro faz sua quarta incursão na Filarmônica com repertório que incorpora Corigliano, Schumann, Villa-Lobos e Respighi

Lilya Zilberstein (16 e 17 de abril)

Considerada uma das melhores pianistas do mundo, a russa desembarca em BH para executar a sinfonia mais conhecida do compatriota Dmitri Shostakovich

Duo Binelli-Ferman (28 e 29 de maio)

Daniel Binelli (bandoneón) e Polly Ferman (piano) abrem as noites com uma mistura de música mexicana e argentina e as encerram com uma homenagem ao compositor espanhol Manuel de Falla

Paulo Szot (6 e 7 de agosto)

Aclamado nos Estados Unidos e na Europa, o ator e barítono brasileiro vai de Mozart a Mahler, passando pelo repertório romântico de Tchaikovsky

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE