Crônica

Uma tarde de chuva

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)
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(Foto: Redação VejaBH)

De vez em quando me batem desejos. Para ser mais preciso, martelam. Martelam minha cabeça, até que eu, de alguma forma, os realize. São desejos inusitados. Por exemplo, ouvir piado de inhambu. Há coisa mais esquisita? Se pelo menos fosse um samba do Jobim, uma fuga de Bach, mas piado de inhambu, onde se viu? O pior (ou melhor) é que sinto uma paz imensa só de imaginar a ave e seu longo suspiro no campo, de dar tristeza com seu começo tímido, hesitante, até que o canto dispara qual uma seriema. Um canto que me encanta. É uma pena eu não ter vocação para a música sertaneja. Só precisaria de um parceiro. Inhambu e Seriema seria um belo nome para uma dupla. Milhões de reais garantidos.

Outro dia, o desejo premente foi estar deitado num banco de pracinha do interior mineiro, debaixo de um ipê florido, numa de nossas cidades onde uma vida leva gerações para passar, enquanto escorre, sem pressa, por ladeiras de paralelepípedo. Desejo também esquisito. Conheço maneiras mais interessantes de gastar o tempo, moeda cada vez mais sem saldo na conta da vida. Nem pagando juros extorsivos conseguirei emprestadas umas décadas extras no banco do tempo. Zerou o saldo, acabou, foi-se, foice. A danada da pracinha, no entanto, volta e meia me martela a cabeça.

A estranha onda de desejo costuma virar um tsunami que traz rememórias antigas e novas, reais ou inventadas, sei lá, algumas à primeira vista impossíveis de concretizar. Quero de novo um beijo roubado aos 11 anos, mais outros sob o sol escaldante da praia de Itariri ou do Deserto do Atacama, procuro o sabor de um certo vinho de Rioja, caço o requinte de um ensaio de Montaigne, sonho o sorriso de minha primeira filha logo depois de nascer. O maremoto não tem fim. Faz um arrastão de momentos que eu gostaria de manter ao alcance da mão, ou melhor, dos dedos. Ah, os dedos... Eles se transformaram na parte mais importante do corpo humano, justamente a que realiza os desejos. Viramos 100% digitais. Com um toque no computador, o Windows e a internet se abrem, e tudo acontece. Desejo mais no futuro: uma leve pressão no Enter escancarará a janelinha da primeira paixão, cairei dentro dela, reviverei a disparada do coração e a certeza de que o mundo é pequeno demais para conter tamanho sentimento.

Desconfio desse vagalhão de desejos: estaria meu baú de lembranças superlotado, e elas começam a vazar pelo teclado? O cérebro teria atingido o limite, perdeu a capacidade de tomar decisões ou apenas cede, de graça, o comando da vida ao computador?

Meu desejo mais cruel baixou hoje. Queria acompanhar, como aquele tolo na colina cantado pelos Beatles, o sol até o poente, observar cada nuance de luz, cada tom de azul, saciar a fome de cores. Isso me parece importante agora. Acontece que chove em BH, chove muito neste abril, parece que chove sobre a Terra inteira, e o sol não está disponível. A vontade de vê-lo, porém, permanece. A última esperança, para me saciar, é escrever. A escrita afasta qualquer mau tempo. Cria não apenas sóis, mas galáxias inteiras. Se a memória é nosso alimento, a imaginação é nossa magia. Uma imaginação vale mais que mil memórias. Racionaliza desejos, apaga idiossincrasias, tira da cartola a ilusão de que o mundo nos pertence.

Daqui a pouco, depois que o meu sol se for, vou escrever sobre o assunto. Quem sabe desse desejo nascerá uma crônica?

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE