Patrimônio

Tombamento de Santa Tereza garantirá a preservação da tradição, da cultura e da boemia do bairro

O clima de cidade do interior, como nos tempos da fundação de Beagá, sobrevive nas ruas da vizinhança

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A contadora Juliana Fernandez com a filha Milena, de 7 meses, na Praça Duque de Caxias: prazer em caminhar pelo bairro e encontrar os vizinhos

A tradição, a cultura e a boemia de Santa Tereza são coisas "pra se guardar debaixo de sete chaves", como o sentimento exaltado na música Canção da América. Filhos ilustres do bairro, os autores Fernando Brant e Milton Nascimento sentaram-se muitas vezes nas esquinas dali para tocar violão, diante de casas construídas no início do século passado, acompanhando o vaivém dos vizinhos por uma paisagem típica de cidade do interior. Esse modo de vida, quase congelado no tempo, está agora protegido. Depois de dezoito anos de tratativas entre moradores e o poder público, o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural Municipal tombou, no dia 4, o conjunto urbano delimitado pelas avenidas Andradas, Contorno e Silviano Brandão, na Região Leste. Nos últimos anos, a verticalização - e o consequente aumento do número de habitantes e veículos - comprometeu um pouco o ambiente quase bucólico que resiste por ali. Ainda assim, Santê é certamente o bairro de Beagá que mais preserva ares interioranos. "É uma acolhedora ilha urbana cercada de cidade por todos os lados", escreveu o advogado Libério Neves, no livro Santa Tereza, da série BH. A Cidade de Cada Um, editada pela Conceito Editorial. Aos 80 anos, ele é morador da Rua Salinas há mais de cinquenta. "Estou aqui desde que coloquei a gravata do casamento." A sua rotina se dá ao redor da Praça Duque de Caxias, pois o lugar mais emblemático da região concentra a igreja, o bar, o sacolão, a mercearia... Praticamente tudo o que lhe é necessário. "Quando saio, cumprimento 90% das pessoas que passam por mim", conta o escritor Luís Góes, outro que mora ali há várias décadas, desde a infância. A preservação não apenas de edificações, mas também desse estilo peculiar, foi comemorada. "A apropriação do espaço onde se mora, ocupando a rua e se relacionando com o vizinho, é o que muitos têm buscado em cidades grandes e é o que faz o bairro ganhar cada vez mais valor", afirma a arquiteta e urbanista Karine Ribeiro, integrante do Movimento Salve Santa Tereza.

A decisão do conselho é mais um instrumento aprovado para garantir a manutenção das características ambientais, urbanísticas e culturais do bairro. Em 2000, a Câmara Municipal já o havia transformado em uma Área de Diretrizes Especiais (ADE). A medida, porém, não conseguiu impedir que Santa Tereza passasse por um processo de verticalização e descaracterização da ocupação. Agora, com a proteção do patrimônio municipal, a intenção é priorizar o uso residencial. Com o apoio de moradores, a Fundação Municipal de Cultura (FMC) realizou um amplo estudo sobre a criação e o desenvolvimento da região. Foram identificados para o tombamento quatro praças e 288 imóveis de estilos variados, entre eles casarões históricos construídos nas décadas de 20 e 30. Os proprietários estão sendo notificados e ainda podem se manifestar contra o tombamento. Aqueles que concordarem, porém, poderão obter recursos, por meio de programas municipais ou leis de incentivo à cultura, para reforma e conservação, além de ter isenção do imposto predial e territorial urbano (IPTU). A prefeitura estima uma renúncia fiscal da ordem de 700 000 reais por ano. "Santa Tereza é para Belo Horizonte o que Montmartre é para Paris: um lugar ocupado por operários, reduto boêmio e berço cultural", exalta o presidente da FMC, Leônidas Oliveira.

Os primeiros moradores eram basicamente pedreiros, carpinteiros e pintores - em grande parte, imigrantes euro­peus atraídos pela oferta de trabalho na construção da nova capital de Minas, entre o fim do século XIX e o começo do XX. Embora próximo à Avenida do Contorno, que na época marcava o limite entre a cidade planejada e a área suburbana, o bairro não era um lugar de passagem. Não tinha - como ainda não tem - grandes artérias de ligação entre diferentes regiões da cidade. Além de distante, era considerado de difícil acesso por causa de sua topografia. No início, duas construções chamavam atenção: a Hospedaria dos Imigrantes, na Praça Duque de Caxias, onde hoje funciona o Colégio Tiradentes, e o Hospital do Isolado, atualmente o Mercado Distrital, fechado desde 2007. Com a eclosão da I Guerra, a corrente migratória foi interrompida e a hospedaria passou a servir de espaço para o Exército, atraindo militares e suas famílias. O estabelecimento dessas pessoas por ali estimulou o comércio e a melhoria da infraestrutura. Nos anos 20, o bairro recebeu linhas de bonde e ônibus, intensificando a chegada de novos moradores. Na década de 30, as principais vias de acesso já eram delimitadas pelas ruas Mármore, Salinas e Hermilo Alves, impulsionando mais a abertura de novas lojas, especialmente nas proximidades da Praça Duque de Caxias. Com tanto movimento, deu-se a largada para a construção da Igreja de Santa Tereza.

Nos anos 40, foi a vez da reinauguração do Cine Santa Tereza, que a prefeitura promete reabrir neste semestre. Apareceram alguns estúdios de arte. "A nostalgia do passado é inspiradora", diz o artista plástico Aluízio Figueiredo, que escolheu o bairro para montar o seu ateliê e loja. Também surgiram ali grupos teatrais, que chegaram a receber nomes como Procópio (1898-1979) e Bibi Ferreira, Cacilda Becker (1921-1969) e Walmor Chagas (1930-2013). Numa época em que o Carnaval da cidade se restringia aos clubes, em Santê os blocos ocupavam as ruas - uma tradição que voltou com força nos últimos cinco anos.

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Gabriel Guedes e Rodrigo Borges, no bar Godofrêdo: a nova geração do Clube da Esquina

A efervescência cultural foi potencializada por volta dos anos 70, quando despontou o Clube da Esquina, que nasceu do encontro de jovens músicos como Lô Borges, Milton Nascimento, Beto Guedes, Tavinho Moura e Toninho Horta, no cruzamento das ruas Paraisópolis e Divinópolis. A poucas casas da placa de aço em homenagem ao grupo, o filho de Beto Guedes, Gabriel, de 37 anos, mantém essa memória acesa. Em seu bar, o Godofrêdo (nome do avô), integrantes de sua família e da dos Borges se apresentam pelo menos duas vezes por semana. "A gente é tudo farinha do mesmo saco, tudo junto e misturado, e assim vai continuar", diz. Ganharam projeção nacional no cenário musical outras bandas que vieram dali: Sepultura, nos anos 80, e Skank, na década seguinte.

"Nasci em Santa Tereza e a condição para eu me casar era continuar morando aqui", afirma a contadora Juliana Fernandez. Com a filha Milena, de 7 meses, ela sente prazer em andar pelas ruas do bairro, frequentar os eventos realizados por lá, como as serestas e o cinema ao ar livre, e reconhecer seus vizinhos nessas andanças. "É isso que eu quero para a minha família: momentos de diversão dentro do nosso próprio bairro, que é familiar e seguro." Nesse encontro de gerações que valorizam tanto a modernidade quanto a tradição está boa parte do charme de Santa Tereza: um modo de vida preservado ao longo das décadas e que, se depender do conselho municipal do patrimônio, continuará resistindo ao passar do tempo.

Você sabia?

Conheça sete curiosidades sobre a ocupaçãoda região

Para imigrantes

Uma das cinco colônias criadas na época da fundação da capital para receber trabalhadores recém-chegados do exterior, a Hospedaria dos Imigrantes foi esvaziada na I Guerra e passou a abrigar o Exército, o que explica a ocupação do bairro por militares. No edifício funciona hoje o Colégio Tiradentes.

Pacientes isolados

Perto da estação de trem batizada de Parada do Cardoso, onde agora é o Mercado Distrital, foi construído o Hospital Cícero Ferreira, em homenagem ao médico que participou da fundação de BH e da Faculdade de Medicina. Longe dos centros populacionais, a instituição era voltada para o tratamento de doenças contagiosas.

Inspiração carioca

O bairro foi batizado oficialmente em 1928. O nome teria sido sugerido por um capitão do 5º Batalhão da Força Pública por analogia com o bairro homônimo do Rio de Janeiro: ambos se localizavam em áreas mais altas e eram atendidos por bondes.

Sétima arte

Com a exibição do filme O Conde de Monte Cristo, em 1944, o Cine Santa Tereza foi inaugurado. Passaram-se os anos e ateliês de arte se instalaram ao redor. A prefeitura promete reabrir o espaço até o fim deste semestre.

Primeiro bar de BH

Quem passava pelo Bar do Zé Inácio, aberto em 1929, costumava comprar material para pescar no Rio Arrudas. Não à toa, o estabelecimento ficou conhecido como Bar dos Pescadores. Nos anos 80, foi comprado e transformado no Bar do Orlando.

Reduto dos cabeludos

O largo formado pelas ruas Tenente Freitas, Quimberlita, Bom Despacho e Bocaiuva se tornou um ponto de encontro de intelectuais, conhecido como Alto dos Piolhos. Entre as explicações para o apelido, uma faz referência aos jovens de cabelo comprido que, nos anos 60, ocupavam os botecos instalados por ali.

Na madrugada

O Restaurante Rocha e Filhos, aberto em 1961 e mais conhecido como Bar do Bolão, atrai belo-horizontinos de todos os cantos nas madrugadas. Eles matam a fome com o popular rochedão, prato com arroz, feijão, ovo, carne e macarrão.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE