Segurança

Traficantes reagem à instalação da unidade integrada das polícias Civil e Militar no Aglomerado da Serra

Maior complexo de favelas de BH recebeu prédio da Área Integrada de Segurança Pública

Por: Paola Carvalho - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

A sede da Área Integrada de Segurança Pública (Aisp): funcionamento 24 horas

Tiros são ouvidos com mais frequência no Aglomerado da Serra desde que o governo estadual abriu ali uma Área Integrada de Segurança Pública (Aisp), uma espécie de versão mineira das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), instaladas em favelas do Rio de Janeiro. Duas semanas depois da inauguração, em 24 de janeiro, moradores ainda se sentem mais apreensivos do que protegidos. Dizem que os traficantes andam exibindo seu poder de fogo para mostrar que não pretendem se intimidar com a presença dos policiais. "A situação hoje pode ser de conflito, mas certamente estamos caminhando para ter paz", assegura o delegado da Polícia Civil Samuel Neri, que, em 2010, participou da ocupação do Morro do Alemão, no Rio. Em março do ano passado, depois de prestar concurso para a corporação mineira, ele se mudou para cá. "A proteção ao cidadão de bem agora é permanente", completa o tenente da Polícia Militar Fernando Braga. As duas corporações só percorriam a vizinhança - onde vivem cerca de 50 000 pessoas, distribuídas em oito vilas - para rondas e operações específicas. Hoje, têm uma base em funcionamento 24 horas por dia dentro do maior conjunto de favelas de Belo Horizonte.

Na avaliação de Neri e Braga, a prisão de vários líderes do tráfico, de setembro de 2013 para cá, provocou uma acirrada disputa por território entre as quadrilhas. Para eles, é essa guerra que explica os recentes tiroteios, mais do que a inauguração da Aisp. "Nossos esforços estão concentrados em combater a reorganização da criminalidade por aqui", informa o delegado. Neri sabe, entretanto, que não será fácil convencer a comunidade de que os policiais são aliados, e não uma ameaça. Segundo ele, as ligações para o Disque-Denúncia até aumentaram, mas visitas de moradores à unidade ainda são episódios raríssimos.

O plano de pacificação do aglomerado teve início em dezembro de 2012, como resposta às cenas de guerra que se viram por lá quando dois ônibus foram queimados em repúdio à morte do pedreiro Helenílson Eustáquio da Silva, supostamente baleado por policiais. Para a instalação da Aisp foram investidos 882 000 reais. Alegando questões de segurança, o Estado não divulga dados regionalizados da criminalidade em Belo Horizonte. Por isso, não há in­dicadores sobre a violência no aglomerado. Mas as ocorrências dos primeiros dias de funcionamento da unidade dão uma boa ideia do tamanho do desafio. No dia 30, um adolescente foi apreendido com uma pistola israelense calibre 9 milímetros. No dia seguinte, 23 mandados de busca e apreensão foram cumpridos. No meio do fogo cruzado - ora entre os traficantes, ora entre eles e a polícia -, moradores esperam pela paz prometida. Acostumados a um silencioso pacto de convivência com os bandidos, eles pedem mais do que policiamento. "Para cortar o mal pela raiz, precisamos de mais escolas, mais educação", diz o líder comunitário Antônio João Barros, morador da Vila Cafezal. Só polícia - ele tem razão - não basta para mudar a realidade por ali. Mas ajuda bastante.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE