Trânsito

Uma tragédia anunciada

Com fiscalização ineficiente, caminhões pesados continuam a circular por vias urbanas proibidas

Por: Paola Carvalho e Thiago Alves - Atualizado em

D.A Press
(Foto: Redação VejaBH)

Não basta proibir no papel. O acidente da última quarta (6) na Avenida Nossa Senhora do Carmo, no Sion, provou que é preciso fiscalização ostensiva para impedir que caminhões pesados trafeguem em áreas restritas. Aliada à sucessão de erros de Jadson Santos Alves, de 25 anos - motorista de carreta há apenas seis meses -, a ineficiência do poder público atingiu seis carros na saída para o feriadão de Corpus Christi, provocou a morte de duas pessoas e deixou outras tantas feridas naquela noite. Até a última quinta, três ainda estavam internadas. Com placa de Guarulhos (SP), o veículo carregado com duas bobinas de aço e pesando 27 toneladas saiu de Ipatinga, no Vale do Aço, rumo a São Paulo. O condutor alegou não ter visto a sinalização que proibia sua entrada na área urbana. Em vez de seguir pelo Anel Rodoviário, continuou na BR-356. Por volta das 20h50, o peso-pesado, sem freios, deixou um rastro de destruição. Trinta grades de proteção, três postes de luz, dois semáforos, duas árvores e uma placa de trânsito foram quebrados.

Quando o caminhão tombou na altura da Igreja Nossa Senhora do Carmo, uma bobina se soltou e foi parar do outro lado da via, em um posto de combustíveis. "Por um triz a bobina não acertou um caminhão-tanque", contou o frentista Walyson Vinicius, que presenciou a sequência de batidas iniciada no cruzamento das avenidas Nossa Senhora do Carmo e Uruguai. Morreram Caroline Palmer Irffi, de 23 anos, e Maria Bombinato de Oliveira, de 56. Foram levados para o hospital Lucas de Oliveira Magalhães, de 23, em estado gravíssimo, Luís Carlos Chan, de 48, e Chan Yuet Kuir, de 54. O motorista, que tentou fugir do local do acidente com medo de linchamento, foi preso em flagrante e acusado de homicídio por dolo eventual. Segundo a Polícia Civil, Alves tinha consciência da carga acima do peso permitido, já que havia sido multado horas antes em Jaguaraçu de Minas, a 185 quilômetros da capital. A perícia mostrou que ele dirigia em alta velocidade e ultrapassara três sinais vermelhos. O laudo final sairá em até trinta dias.

D.A Press
(Foto: Redação VejaBH)

Desde janeiro de 2010, a circulação de carretas e caminhões-trator está proibida na Nossa Senhora do Carmo, mas só há fiscalização até as 20 horas. Segundo a gerente regional da BHTrans, Maria Odila de Matos, o motorista teve três chances de mudar a trajetória. Poderia ter seguido pelo Anel Rodoviário ou dado meia-volta nos trevos do BH Shopping e do Belvedere. Especialistas em tráfego, porém, criticam a eficiência do sistema. "Se o motorista erra, não há orientação sobre o rumo que deve seguir", afirma José Aparecido Ribeiro. "E, se continua, o trecho tem inclinação forte o suficiente para fazer uma carreta fritar suas lonas de freio." Diretor da consultoria Imtraff, Frederico Rodrigues diz que seria necessária a presença de agentes 24 horas por dia nos acessos aos grandes corredores, o que inclui a Nossa Senhora do Carmo, por onde passam 95 000 veículos diariamente. "Fiscais poderiam ter acompanhado o veículo até a saída da área proibida, como é feito em outras capitais." Não acompanharam.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE