Educação

Trote na UFMG causa polêmica ao fazer piadas preconceituosas

Tradicional ritual de entrada de novatos teve fotos com teor racista divulgadas na internet

Por: Luisa Brasil - Atualizado em

Facebook/Reprodução
(Foto: Redação VejaBH)

Veterano posa ao lado de caloura pintada de preto: alusão à escravidão

Era para ser uma divertida recepção aos novos estudantes, mas acabou provocando reações indignadas. O trote dos alunos de direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) causou um bafafá quando imagens do ritual foram parar nas redes sociais na última semana. Uma foto amplamente divulgada no Facebook mostrava uma aluna recém-aprovada toda pintada de preto segurando uma placa com os dizeres "caloura Chica da Silva", referência à escrava que viveu em Diamantina no século XVIII. Em outra foto, estudantes aparecem com a mão erguida, em alusão à saudação nazista. As imagens dividiram a comunidade acadêmica e abriram — mais uma vez — o debate sobre a falta de limite dos trotes universitários, com radicalismos e brincadeiras es­­túpidas. Houve quem de­­­­­fendesse punições se­­ve­­ras para os estudantes, in­­­clusive a imputação de responsabilidade criminal por ra­­cismo, e também quem alegasse que tudo não havia passado de piada inofensiva. "Não é justo incriminar os estudantes por conduta culposa", acredita Fernando Morais, aluno do 8º período do curso. Na tentativa de justificar o injustificável, um estudante chegou a dizer que os alunos não eram racistas, "já que a mascote da associação atlética do curso é um macaco", argumento tolo prontamente criticado pelos próprios colegas.

A linha que separa as brincadeiras inocentes da violência (não só física, mas também psíquica) é tênue. E não é a primeira vez que essa barreira é ultrapassada por universitários. Na mesma UFMG, em 2012, um trote na faculdade de turismo provocou protestos quando duas meninas foram amarradas a um poste e obrigadas a simular sexo oral com um cassetete. Não houve punições, pois os autores do ato não foram identificados. No episódio da semana passada, o reconhecimento ficou fácil porque 67 estudantes assinaram um termo de responsabilidade pelo evento. Uma comissão formada por três professores do curso terá até o dia 18 de abril para apurar os fatos e definir se os envolvidos re­­ceberão punição, que poderá ser desde uma advertência até a expulsão.

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(Foto: Redação VejaBH)

Em tese, o trote é proibido pela reitoria da UFMG, mas a regra vem sendo sistematicamente descumprida em várias unidades. O reitor Clélio Cam­­polina admite que a di­­­­reção está ciente de sua realização e in­­forma que há uma política permanente para combatê-lo. "Somos uma instituição de educação e temos de convencer as pessoas pelos argumentos", afirma Campolina, diante da dificuldade de ex­tinguir uma cultura extremamente en­­raizada na universidade. O Diretório Central dos Estudantes (DCE) garante já ter aderido à proposta de acabar com o trote, mas não há consenso sobre o assunto. "As brincadeiras são boas para juntar a galera do curso, e ninguém é obrigado a aderir", diz João Martins Teixeira, aluno do 8º período de direito. Na verdade, os veteranos quase sempre pressionam os novos alunos a participar.

Facebook/Reprodução
(Foto: Redação VejaBH)

Três estudantes fazem a saudação nazista ao lado de um novato amarrado em poste: a imagem provocou reações

"Não sou contra a confraternização, e sim contra a submissão dos alunos do 1º período aos alunos do 2º", opina Ana Júlia Guedes, do 5º. Psicanalista e professor da PUC Minas, Vitor Ferrari diz que é comum as pessoas darem vazão a comportamentos violentos nesse tipo de evento. Uma alternativa seria as faculdades estimularem a substituição do trote por práticas saudáveis, como a doação de sangue. Na UFMG, o modelo já é adotado na faculdade de medicina. Um bom exemplo a ser seguido.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE