Trânsito

Nos últimos dez anos, a frota de veículos de BH aumentou 105%

Cidade conta hoje com 1,52 milhão de carros. No mesmo período, população cresceu apenas 6%

Por: Thiago Alves - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Engarrrafamento na Avenida do Contorno, no Funcionários, às 18 horas de terça (5): velocidade média de 15 quilômetros por hora

De segunda a sexta-feira, o analista de negócios Daniel Moreira sai de casa pontualmente às 8 horas para percorrer de carro os 13 quilômetros que separam sua re­­sidência, no bairro Boa Vista, na Região Leste, de seu escritório, no Santa Lúcia, na Zona Sul. O trajeto, que percorre por três das dez avenidas mais movimentadas da cidade, é cumprido em cinquenta minutos a uma velocidade média de 15 quilômetros por hora — ou seja, mais lenta do que se ele estivesse em uma bicicleta. Uma pessoa com um bom preparo físico consegue pedalar, em média, 20 quilômetros em uma hora. "Já ando pensando que é melhor comprar uma bike", diz Moreira. "Vou gastar o mesmo tempo e ainda economizar." O que fez o automóvel andar em ritmo de bicicleta nas ruas de BH foi o impressionante aumento da frota por aqui. Entre 2002 e 2012, o número de veículos registrados cresceu 105%, de acordo com os últimos dados divulgados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Foi bem mais do que em cidades como São Paulo (61%) e Rio de Janeiro (59%). Há dez anos, a frota contava com pouco mais de 742 000 veículos. Agora, tem 1,52 milhão (veja o quadro abaixo). É como dizer que, a cada dia, 212 novos automóveis, caminhões, motocicletas e ônibus começaram a circular por aqui. A porcentagem de motos foi a que mais cresceu: 209%.

No mesmo período em que a frota dobrou, a população aumentou apenas 6%. E os 4 645 quilômetros de vias públicas na cidade praticamente não foram ampliados. O resultado é previsível: os congestionamentos estão cada vez mais frequentes. O crescimento do poder aquisitivo na última década, que permitiu a mais brasileiros ter o próprio carro, contribuiu para a ampliação das frotas municipais. Em BH, porém, o impacto da prosperidade econômica no trânsito foi maior do que em boa parte das capitais. "Belo Horizonte tem um dos mais baixos índices de desemprego do país, o que é uma das explicações", afirma o economista e professor da UFMG Frederico Gonzaga. "Quem antes usava ônibus pôde comprar um veículo em busca de mais conforto e status." Hoje há dois veículos para cada três belo-horizontinos. Em 2002, essa relação era de um para cada três.

Veja BH
(Foto: Redação VejaBH)

Coordenador do núcleo de infraestrutura e logística da Fundação Dom Cabral (FDC), o engenheiro Paulo Resende ressalta que os investimentos em intervenções viárias não acompanharam o aumento do número de veículos nas ruas. "As obras de hoje só correm atrás do prejuízo", lamenta. "A previsão para os próximos anos é de mais carros e mais tráfego." Professor e engenheiro de transportes, Nilson Nunes tem a mesma opinião. Segundo ele, a única forma de combater o problema do trânsito é o investimento em transporte coletivo de qualidade. O BRT, sigla em inglês para transporte rápido por ônibus, é hoje a principal aposta da prefeitura para reduzir os congestionamentos. Nunes, porém, acredita que será baixa a adesão ao modelo por parte dos proprietários de carros e motos. Segundo ele, o ideal é o transporte de alta capacidade, como o metrô. "Mas isso não é feito da noite para o dia e é caro." Há quem defenda soluções de curto prazo, como medidas de restrição à circulação, que incluem rodízio ou proibição de uso de carros antigos. Resende é um dos que apostam no efeito do bloqueio aos calhambeques com mais de dez anos de uso. Eles representam, de acordo com o Detran-MG, um terço da nossa frota. "O principal problema do envelhecimento do carro é a falta de manutenção adequada", diz o professor da FDC. Segundo a BHTrans, empresa que administra trânsito e transportes na capital, todos os dias há pelo menos sete registros de carros quebrados em plena via pública, complicando ainda mais o fluxo de veículos. Dá para entender por que o analista de negócios Daniel Moreira anda pensando em comprar uma magrela.

Impacto maior

Como foi o aumento da frota em algumas capitais entre 2002 e 2012

Belo Horizonte: 105%

Salvador: 98%

São Paulo: 61%

Rio de Janeiro: 59%

Porto Alegre: 53%

O avanço das duas rodas

Hoje, há mais de 188 000 motos em circulação

Dentro da frota da capital, as motocicletas são a categoria que registrou o maior aumento na última década. Enquanto o número de automóveis cresceu 93%, o de motos subiu 209%. Em 2002, elas eram pouco mais de 61 000 na cidade e representavam 8,2% da nossa frota total. No fim do ano passado, segundo o Denatran, passaram a mais de 188 000 - ou 12,4% do total. Mais baratas e econômicas que os carros (e também mais perigosas), as motos parecem ter caído no gosto de parte dos belo-horizontinos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE