Crônica

A arte da previsão

Por: Luis Giffoni - Atualizado em

selo_giffoni.gif
(Foto: Redação VejaBH)
2303_cronica01_dest.jpg
(Foto: Redação VejaBH)

Todo começo de ano, as bolas de cristal ganham as manchetes. De repente, do nada, surgem as cassandras que juram conhecer o mais escondido dos segredos: o futuro. Durante seus quinze minutos de fama, fazem revelações que, de tão óbvias, nos deixam tentando adivinhar o que disseram. As mais competentes são as mais reticentes, as que melhor incentivam nossa imaginação. Jamais revelam que, num determinado dia, a Mega-Sena sorteará tais e tais dezenas. Miudezas assim degradariam sua arte muito mais nobre de prever, com exatidão, o destino das pessoas e do mundo, sem contar um pingo do que acontecerá, deixando para a gente essa incumbência. Realmente, convenhamos, é uma arte e tanto.

A previsão atual diz que 2013 terá dias muito agitados - pois Urano, após entrar em Áries, abafará Plutão em Capricórnio. Nem Netuno em Peixes, a partir de 4 de fevereiro, acalmará os céus. Qualquer coisa, como uma briga a mais entre israelenses e palestinos, ou entre atleticanos e cruzeirenses, ou entre casais, comprovará a previsão, motivo pelo qual muita gente ficará satisfeita com o trabalho das cassandras. Não adianta argumentar que Plutão nem planeta é mais, nada mudará a opinião dos que acreditam em bolas de cristal. Eles creem antes de ver e, em seguida, veem tudo no que criam. E como criam para crer. Em defesa de sua intransigência, lembram-nos que a Cassandra original fez alertas para os quais ninguém ligou, e Troia foi destruída. A tragédia mostra apenas parte do enredo. Se as profecias tivessem sido escutadas, não existiria a Ilíada, uma das mais antigas e belas histórias.

Diante desse quadro, comprei hoje uma bola de cristal, na verdade uma bola de gude. Com o amuleto em mãos, estou em condição de adiantar o que nos acontecerá em 2013 e mesmo muito depois. Pressinto para breve terremotos, sobretudo na borda do Oceano Pacífico. O Japão, a Indonésia, as Filipinas, o Peru, o Chile e os Estados Unidos que se cuidem. Alguns desses tremores provocarão tsunamis com potenciais efeitos catastróficos nas cidades litorâneas. Tufões, furacões e tornados varrerão o planeta a partir de maio. Pelo menos dois vulcões entrarão em erupção. As bolsas mundiais terão pregões agitados, em decorrência da ainda pendente crise global, com grandes movimentos de compra e venda de ações, o que levará os investidores desatentos à falência. O dólar seguirá variando, bem avariado. Vários aviões cairão, pelo menos um de grande porte, com dezenas de vítimas. Nossas estradas, no entanto, matarão muito mais. Figurões da Fifa ainda se perguntarão se o Brasil dará conta de realizar a Copa, e nós nos indagaremos se a conquistaremos pela sexta vez. A escalação da seleção só sairá em 2014. Até o último jogo, não confiaremos no técnico. Políticos distraídos serão pegos com os bolsos cheios de dinheiro público, porém a maioria dos corruptos continuará com suas artimanhas sutis e eficientes para roubar. Os partidos de oposição procurarão mostrar quão injusto foi o voto popular que os preteriu. Por trás do pano, contudo, alguns se venderão para garantir fatias do poder. Mais vale um pássaro na mão.

Minha previsão mais terrível aborda o futuro distante. Depois do fiasco de 21 de dezembro de 2012, antevejo que o mundo vai acabar no ano 3 000. Dessa vez não tem erro, garanto, pois 3 é o número cabalístico por excelência, o número da Trindade, o número das dimensões espaciais comuns, o número dos lados do triângulo. Já comecei a estocar água e comida. Não serei pego desprevenido. Quem avisa amigo é. Minha bola de gude nunca falhou.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE