De volta para casa

Com a reabertura do Estádio Independência, torcedores retomam seus hábitos

Por: João Renato Faria - Atualizado em

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(Foto: Redação VejaBH)

A reinauguração no dia 25: a cidade recebe partidas depois de quase dois anos

Coberto por uma generosa porção de torresmo e servido num pratinho de plástico, o feijão-tropeiro pareceu um manjar dos deuses para o engenheiro Rodrigo Brasil. Há quase dois anos ele estava privado de um dos seus programas preferidos: saborear uma das receitas típicas mineiras antes do início de mais uma partida de futebol. Na semana passada, o atleticano era um dos 10 000 belo-horizontinos a testemunhar a reinauguração do Estádio Independência, a arena do América, no ano do centenário do clube. "Eu não podia perder", dizia, sem se importar com o fato de o jogo ser do clube adversário.

Ainda eram 4 da tarde - seis horas antes da vitória do América por 2 a 1 contra o Argentinos Juniors no amistoso de reabertura que comemorou o centenário do clube — quando o Bar do Magrelo, na esquina das ruas São Felipe e Pitangui, começou a ficar cheio de torcedores. Eles chegaram aos poucos, admirados com a imensa estrutura de concreto do novo gigante do Horto, tão estranho e ao mesmo tempo tão familiar. Logo eram milhares. As ruas ficaram estreitas e a tranquilidade foi substituída por um incessante batuque e pelo grito de guerra abafado por muito tempo: "Cooeeeelho...".

Desacostumados da movimentação intensa dos dias de jogo, depois de longos meses de obras, os moradores e comerciantes se dividiram entre o otimismo e a desconfiança. Há quem esteja apostando as fichas na novidade. Morando de frente para o Independência, os irmãos Elizabeth e Josué da Silva investiram 4 000 reais para transformar a garagem de casa em um ponto de venda de churrasquinho, outra comida encontrada nos arredores dos estádios. "Já que não tem como ir para a cama cedo, por que não aproveitar para ganhar um dinheiro?", dizia a vendedora Elizabeth.

Com as vias próximas fechadas para a circulação de carros, um batalhão de agentes da BHTrans se espalhou pelo entorno com o objetivo de orientar o tráfego. Foi preciso chamar reboques para remover os automóveis estacionados em locais proibidos. Para quem mora ali fo­­ram distribuídas credenciais de acesso às ruas interditadas, mas nem todos foram atendidos. "Minha filha não pegou o adesivo e vai chegar tarde, não sei como fará", lamentava Maria Emília Rodrigues, moradora e dona de um salão de beleza na Rua Pitangui.

Vindos de todas as partes de BH - e também de outras cidades -, torcedores fanáticos pouco se importavam com os moradores. Vestida com a camisa verde e preta do América, a estudante Clarissa Vaz de Melo gritava frases contra os rivais Atlético e Cruzeiro ao mesmo tempo em que celebrava o fim das longas viagens para Sete Lagoas, a 70 quilômetros da capital. "A Arena do Jacaré é longe demais, ficava caro para ir. Aqui, vamos ganhar tudo." Mas esse era o único estádio disponível, desde o fechamento para obras do Independência, em janeiro de 2010, e do Mineirão, em junho do mesmo ano.

Construído às pressas para a Copa de 1950, o Independência só ficou pronto às vésperas do primeiro jogo, Iugoslávia 3 x 0 Suíça. O estádio também foi palco de uma das maiores zebras da história das Copas, a vitória dos Estados Unidos por 1 a 0 contra a Inglaterra, país dos inventores do futebol. Devido a isso, ele é citado em todas as enciclopédias esportivas internacionais e livros sobre a história do futebol. Agora, investimentos de 148 milhões de reais garantiram o aumento de sua capacidade de 10 000 para 25 000 lugares. Os gols do triunfo do América soaram como celebração da conquista que é de todos os torcedores: a bola voltou a rolar na cidade. Domingo (6), na primeira partida da final do Campeonato Mineiro, americanos e atleticanos poderão ver seus ídolos jogando em casa. Será um gol de placa.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE