Cinema

Filme de Cao Guimarães é premiado no Festival de Brasília

O documentário, Otto mostra a gestação e o nascimento do primeiro filho do diretor mineiro

Por: João Renato Faria - Atualizado em

Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

O cineasta Cao Guimarães conheceu a mulher, a antropóloga uruguaia Flor Matínez, em novembro de 2010, durante a exibição do seu filme Andarilho (2010) em Montevidéu. Ela era a única espectadora na sala do Cine Casablanca e se levantou para ir ao banheiro no meio do longa enquanto passava na tela o que o diretor mineiro considera a melhor sequência da obra. Quando subiram os créditos, ele não resistiu e disse que ela teria que ver o filme de novo. Da sugestão, nasceu uma paixão e o amor que começou em uma sala de cinema virou uma gravidez e um filme.

O resultado da união foi o longa Otto, que detalha a gestação e o nascimento do primeiro filho do casal, bebê que batiza a obra e hoje tem nove meses. Inscrito na categoria Documentários do Festival de Brasília de Cinema Brasileiro, o longa conquistou na segunda (24) quatro prêmios: melhor filme, melhor fotografia, melhor trilha sonora e melhor som. Ele conta por que não estava na capital do país para receber o prêmio e como foi o processo de criação do filme.

Muitos pais tiram fotos para acompanhar a gravidez, fazem vídeos para colocar na internet. Quando você viu que tinha um filme e não só recordações de família?

Sou cineasta e minha matéria-prima é o que eu vivo, as coisas que acontecem comigo e a realidade que me rodeia. Primeiro teve a paixão, disso surgiu a gravidez e como todo apaixonado, comecei a registrar. Vi que tinha um material interessante e percebi que era um filme possível, vi que a barriga da mulher crescendo e todas as mudanças que elas sofrem são muito expressivas. Em uma gravidez, o pai está em um papel secundário, de espectador, por que tudo acontece dentro da barriga da mãe. Juntei o que tinha e transformei em filme por que achei que, além de ser um momento especial para mim, é um assunto universal, uma coisa pela qual o ser humano passa.

A sua mulher se incomodou de você filmar a gravidez?

Não, ela foi muito tranquila, achou bonito, filmou algumas coisas também. Virou uma brincadeira, uma coisa a mais para fazer. Na verdade, ela não estava nem aí, estava preocupada com outras coisas, afinal, tinha algo muito mais interessante acontecendo dentro da barriga dela. E as grávidas têm uma naturalidade imediata e constante, o que é muito bom para um filme expressivo.

Você conseguiu separar a visão da gravidez como pai e como diretor? Ou as coisas se misturaram?

Como todo processo foi muito natural, não ouve essa separação. Mas a edição do filme se mostrou um momento angustiante, de revisitar as imagens que são muito fortes, principalmente pra mim, afinal é a gestação e o nascimento do meu filho. Então nessa parte eu precisei assumir um distanciamento necessário e o jeito que eu achei foi me colocar como narrador.

Você imagina qual será a reação do seu filho vendo o filme quando ele for maior?

Eu pensei nisso enquanto fazia o filme e pensei que adoraria ver um filme da minha gravidez. O que minha mãe estava fazendo, o que ela pensava naqueles nove meses. Acho que ele vai gostar. Claro que a reação é imprevisível, mas o filme foi feito com muito amor, é muito sincero e exala isso.

O filme foi o único mineiro no festival de Brasília e acabou levando quatro prêmios. Você esperava por isso?

Não esperava. Premiação é uma coisa subjetiva, depende das pessoas que avaliam gostarem ou não. Já participei de muitos festivais, é meu oitavo longa e acabei aprendendo a não esperar nada. Ainda mais com Otto, que foi doméstico, despretensioso mesmo. No festival ele teve uma recepção boa, o cinema estava lotado e vieram falar comigo, pessoas que queriam ser pais, mães emocionadas. Diante disso, esperar o prêmio é secundário.

Você nem ninguém da sua equipe foi lá buscar os prêmios. Por quê?

A equipe ficava quatro dias em Brasília, e como meu filme passou no início, vim embora para BH antes da premiação, que foi na segunda (26). Normalmente, quando você ganha, te avisam antes, ou mandam passagens para você voltar. Como não aconteceu nem um nem outro, eu nem contava com o prêmio. Não foi por que não quis ir.

Agora premiado, qual o futuro do filme?

Ele ainda está em lançamento, essa foi só a segunda exibição dele. A primeira foi em São Paulo, em uma galeria de artes. Agora vou fazer o circuito de festivais, Tiradentes, Bahia, Rio. Já convidaram para ir para fora também, na Dinamarca e na Holanda. Mas não pensei em nada depois, até por ser um filme muito despretensioso. Não teve dinheiro nenhum, não tem nenhuma logomarca antes, daquelas que estamos acostumados no cinema nacional. Pode ser que tenha depois, para a distribuição, mas ainda nem pensei nisso. Quero correr o circuito de mostras primeiro e depois eu penso.

E se vocês tiverem outro filho? Vem outro filme?

Vou ter que fazer alguma coisa à altura, senão o outro fica com ciúme. Talvez um livro... Mas o primeiro filho tem dessas coisas, os pais ficam mais babões. Eu sei por que fui o primeiro e tenho mais fotos que meus irmãos. Quando o filho vier, eu penso nisso.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE