Cinema

Festival resgata o quase esquecido filme Tostão, a Fera de Ouro

Feito nos anos 60, longa retrata um dos momentos mais gloriosos do ídolo do Cruzeiro e da seleção

Por: Alessandro Duarte - Atualizado em

Pedro Silveira / Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

O atacante na comemoração do primeiro gol no jogo de ida contra o Paraguai pelas eliminatórias para a Copa de 1970 (à dir.), em Assunção, e em uma figurinha do álbum do Mundial: "Parece que sou outro"

Os acordes de Tema de Tostão, de Milton Nascimento, são interrompidos por gritos de torcedores na arquibancada e, logo depois, pela seguinte narração: "Esse aí sou eu. Quando estou jogando, parece que sou outro. Não luto só pela vitória. Luto principalmente pela alegria que vou encontrar no rosto da multidão". É o protagonista de Tostão, a Fera de Ouro quem se apresenta. Rodado em 1969, durante as eliminatórias da Copa de 1970, no México, o filme foi lançado no ano seguinte, às vésperas do Mundial. Mostra o centroavante aos 22 anos, na sua melhor fase, artilheiro da competição, e também vivendo seu maior drama, a operação em Houston, nos Estados Unidos, para tentar reverter o descolamento de retina que poucos anos depois abreviaria sua carreira. O documentário, dirigido pelos mineiros Paulo Laender e Ricardo Gomes Leite (1948-1987), com trilha sonora de Milton Nascimento e Fernando Brant e roteiro do escritor Roberto Drummond (1933-2002), estava abandonado. Havia somente duas cópias conhecidas - uma na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e outra na Cinemateca Brasileira, de São Paulo -, ambas em péssimo estado de conservação. Nesta segunda (24), às 20 horas, no entanto, o filme poderá ser visto restaurado no festival CINEfoot, no Cine Humberto Mauro. "A parte mais prejudicada era o negativo de som", afirma Claudio Constantino, um dos coordenadores da restauração.

O documentário registra momentos memoráveis. Em algumas cenas, Tostão é comparado a Pelé. Muitos entrevistados juravam que ser considerado melhor que o camisa 10 era apenas questão de tempo. Por isso, alguns jornalistas o chamavam de "vice-rei" ou "rei branco". Tostão rechaça a comparação. "Tinha consciência de que jogava um bom futebol", diz ele hoje. "Mas em relação ao Pelé havia uma distância enorme." O filme retrata, além dos treinos no Cruzeiro e na seleção, a Belo Horizonte da década de 60, em especial a do conjunto IAPI, no São Cristóvão, onde o atacante morou dos 2 aos 12 anos. As imagens de partidas lembram as do extinto Canal 100, com as câmeras muitas vezes posicionadas na altura das pernas dos jogadores. Seu pai, Osvaldo de Andrade, e o treinador João Saldanha aparecem em algumas cenas.

"Eu tinha uma fita VHS, que depois foi passada para DVD, mas há muito tempo não assisto ao documentário", conta o craque, que não confirmou presença na projeção desta segunda. Sobre a contusão que encerra Tostão, a Fera de Ouro, ele garante que a lembrança já foi mais dura. "Hoje, não me incomoda." Após deixar o futebol, Tostão formou-se em medicina e exerceu a profissão por anos. Fazia questão de ser chamado de Eduardo Gonçalves de Andrade. Apenas na década de 90, ao passar a escrever sobre futebol, voltou a assinar com o apelido. Quando do lançamento do documentário, era o maior ídolo do Cruzeiro e um dos principais jogadores de uma seleção formada por craques, o Mineirão fora inaugurado cinco anos antes e o futebol mineiro ganhava projeção nacional. Apesar disso, o filme não contagiou o público como se esperava. "Era um sonho de jovens apaixonados por futebol que cresceu demais", afirma Paulo Laender. "Todas as empresas envolvidas tiveram prejuízo", lembra Geraldo Veloso, um dos produtores. "Depois que ganhamos a Copa, pensamos em relançá-lo, mas não tínhamos fôlego." Sua restauração é uma boa notícia. Tanto para torcedores quanto para cinéfilos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE