Arte

Tesouros abstratos do pintor russo Wassily Kandinsky chegam a BH

CCBB exibe a partir de quarta (15) um importante e bilionário conjunto de obras do artista plástico

Por: Raíssa Pena

Kandinsky
(Foto: )

Uma das mudanças mais radicais na arte do século XX não foi conduzida por um jovem rebelde, mas por um quarentão muito sistemático. O russo Wassily Kandinsky (1866-1944) estudou economia e se formou jurista pela Universidade de Moscou em 1892. Após duas experiências arrebatadoras — o contato com a vibrante cultura popular do noroeste da Rússia e com um quadro do impressionista francês Monet —, decidiu abandonar o direito para perseguir sua “necessidade interior”. Em um mergulho sem volta no universo da pintura, Kandinsky criou uma contundente obra teórica para embasar suas composições cheias de formas incompreensíveis. Seus quadros, que inicialmente receberam torcida de nariz, hoje são reverenciados no mundo todo e integram a mostra avaliada em 1 bilhão de reais que será aberta no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) nesta quarta (15). A exposição Kandinsky: Tudo Começa num Ponto, que já esteve em Brasília e no Rio de Janeiro, chega a Belo Horizonte com 156 peças — quarenta delas do mestre abstracionista.

A mostra é a primeira individual de Kandinsky no Brasil e a maior já realizada na América Latina. Além de xilogravuras e telas importantes do pintor, como os óleos No Branco e Dois Ovais e exemplares da série Improvisações, serão exibidos objetos da arte popular do norte da Sibéria (que tanto encantaram o artista), acessórios e vestimentas de rituais xamânicos do início do século e trabalhos de autores contemporâneos ao mestre que exemplificam o impacto do abstracionismo na produção artística mundial. Montada em cinco blocos, a exposição é uma imersão na cultura russa e no metódico processo criativo de um dos ícones da história da arte.

Alguns pais excessivamente corujas juram que seus filhos de 4 anos seriam capazes de pintar quadros semelhantes. Os traços e pontos coloridos de Kandinsky, no entanto, são fruto de um complexo estudo de cor cujas bases encontram-se presentes em respeitadas publicações teóricas escritas por ele, como o livro Do Espiritual na Arte, lançado em 1911. “Os artistas naquela época, como Malevich e Kandinsky, não tinham consciência de que estavam fazendo uma revolução. Mas hoje podemos ver que a grande importância do trabalho deles foi sair do realismo em busca de outras formas de expressão”, explica a curadora Evgenia Petrova, diretora do Museu Estatal Russo de São Petersburgo, de onde veio a maioria das obras.

Kandinsky
(Foto: Arte A Produções/Divulgação)

Na tentativa de se tornar um pintor profissional, aos 30 anos Kandinsky viajou para Munique, na Alemanha, e ingressou na escola de pintura de Franz Stuck. Suas primeiras obras foram influenciadas por vanguardas europeias, como o expressionismo e o fauvismo, e eram predominantemente figurativas. É possível reconhecer sem muito esforço figuras humanas, igrejas, montanhas e cenários naturais, como no óleo O rio no Outono (inspirado na paisagem dos arredores de Moscou). As pinturas da série Improvisações, que também estarão presentes na exposição, são exemplos de como a paixão de Kandinsky pela música influenciou os rumos de sua pintura. Amigo do compositor austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) e fascinado por aquela que considerava a mais imaterial das artes, o pintor tentava organizar os elementos de suas telas como um maestro que rege os músicos e seus instrumentos. “A cor é a tecla, o olho é o martelo e o artista é a mão que, por meio da alma, obtém a vibração certa”, dizia o artista russo.

O pintor tinha quase 45 anos de idade quando se emancipou das formas do mundo concreto para a liberdade total da abstração. Em telas como Improvisação 4, por exemplo, é difícil reconhecer qualquer elemento que remeta a algo real. Tudo parece se movimentar em um gracioso estado de desorganização. No entanto, para Rodolfo de Athayde, diretor-geral da exposição, nada é por acaso na obra de Kandinsky. O uso da cor e das formas (círculos, triângulos, pontas) é pensado para provocar determinadas sensações no espectador. O verde, por exemplo, era para o pintor a mais calma de todas as cores, aquela que não emite nenhum apelo exagerado e que, em uma orquestra, seria equivalente a um violino médio. 

Kandinsky gostaria que as pessoas enxergassem seus quadros como se estivessem imersas neles. Quem passar pelo pátio interno do CCBB vai ter esse gostinho. Lá foi montada uma instalação baseada na tela No Branco que permite, por meio de um aplicativo para celular e de óculos especiais, que o visitante veja partes distintas da obra recortadas e  recombinadas. À medida que se caminha, as imagens e o som se alteram. O mestre russo certamente aprovaria essa experiência cuidadosamente louca.

 

Sinfonia de cores

 

Amarelo: cor terrestre; alude a sensações de delírio e loucura; remete ao som de instrumentos de sopro como a tuba

 

Azul: cor celestial, desperta “sede pelo sobrenatural”; em tons claros, é como a flauta, e, em escuros, como o violoncelo

 

Branco: silêncio absoluto; ausência de som; um “nada” antes do nascimento; uma pausa na música 

 

Preto: “tristeza que ultrapassa o humano”; em uma sinfonia, é a pausa que marca o fim completo

 

Vermelho: “a cor sem limites”; vida ardente; efervescência; juventude; na música, seria uma fanfarra com trombetas

 

 

Vale quanto pesa

1 BILHÃO DE REAIS é o valor estimado de todas as obras da exposição

156 PEÇAS compõem a mostra, sendo quarenta delas telas e xilogravuras de Kandinsky

23 GRAUS é a temperatura que será mantida nas galerias do 3º andar do CCBB, onde estão as obras

2 TÉCNICOS russos zelam pelas obras no Brasil e fazem possíveis reparos 

 

317 DIAS é o tempo que as peças vão ficar no Brasil, contando com a próxima parada, em São Paulo

 

Centro Cultural Banco do Brasil. Praça da Liberdade, 450, Funcionários, ☎ 3431-9400. → Quarta a segunda, 9h às 21h (fecha às terças). Grátis. Até 22 de junho. A partir de quarta (15).

 

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE