Crônica

Amor, estranho amor

Por: Luís Giffoni

Cronica
(Foto: Veja)

 

Miro gosta de brigar. Briga, ele afirma, é desafio para homem de verdade. Macho. Arruma encrenca em qualquer lugar. Se não arruma, provoca. Nas festas, atiça quem encontra pela frente, sobretudo se for fraco. Distribui esbarrões, derruba a bebida alheia de propósito, sem cerimônia vocifera: “Por que a boneca está me encarando? Tá me achando bonito?”. Se o ofendido não reage, Miro insiste: “Você não é de nada, não?”. Se, ainda assim, não recebe troco, dá o primeiro tapa. No rosto, de leve, para aquecer o sangue do adversário.

Adora sexta e sábado. Bailes em toda a cidade, ocasiões perfeitas para se medir com outros valentões. Uma noitada feliz traz de lembrança, pelo menos, duas lutas. Mesmo que tome uns socos, o resultado é sempre positivo: bate mais do que leva. O que reforça sua crença na invencibilidade. Julga-se o maior brigador de Belo Horizonte. O mais forte também. Seu corpanzil lembra uma grande saca de batatas sustentada por dois cabos de vassoura. Exibe-o com orgulho. Até na chuva anda sem camiseta.

Gasta três horas por dia na academia, de segunda a sexta. Duas malhando pesado, uma se admirando no espelho. Miro mira-se e admira-se. Entre um e outro exercício, entra em êxtase com ele mesmo, de frente, de lado, de trás, contraindo os bíceps, levantando os peitorais, medindo o perímetro das pernas, morto de amores pelos próprios músculos. Dizem que se beija quando julga que ninguém o observa, porém há controvérsias. Apenas piscaria o olho, namorando-se em poses sensuais. Confirmado, mesmo, existe apenas seu choro quando o Rodrigo Dentadura, brigão que perdeu os incisivos num sábado de pouca sorte, o ultrapassou no tamanho dos braços.

Reagiu aumentando as doses de testosterona, que compra no mercado negro. Um médico, aluno da academia, o alertou que provavelmente ficará estéril, mantida a superdosagem. Esterilidade sem retorno. Miro não se importou. Vive para o dia de hoje. Crê que jamais confiará numa mulher para ter amor ou filhos. Acha-as todas infiéis. E difíceis de suportar.

Apresentaram queixa contra ele na delegacia. A vítima, cheia de hematomas, em seguida, foi à Justiça. Miro recorreu a um advogado, porém não perdeu a pose. Pediu um pacote de quatro defesas. Justificou-se: “Sabe, doutor, esta não vai ser a última queixa contra mim. Logo vou arrumar inimigos para dar uma surra. Se eu já contratar quatro defesas de uma vez, o senhor faz um bom desconto?”.

De repente, aconteceu. Brigou com um desconhecido, fracote, magro e alto, deu-se mal. E como. De saída, tomou uma voadora que lhe arrancou alguns dentes. Ao cair, duas costelas não resistiram ao impacto dos chutes. Quando os seguranças apareceram, o vencedor saiu de cena. Comemorou a vitória sozinho.

Miro não se corrigiu. Quer vingança. Com as próteses dentárias no lugar, agora diz que faz parte da vida perder de vez em quando. Uma vez em mil, tudo bem. Para evitar que a estatística piore, incrementou a carga de exercícios, a superalimentação, os hormônios. Passou a frequentar duas academias. Uma de manhã, outra à noite. Seis horas de malhação no total, quer dizer, quatro. As duas horas de autocontemplação são sagradas. Nesse período, ele se ama. Parece ser o único amor que conhece.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE