Moda

Alfaiate Marcelo Blade é o responsável pelo guarda-roupa dos chefs de BH

Costureiro dos cozinheiros pensa em estilo e conforto para criar dólmãs exclusivos

Por: Carolina Daher - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Sob medida: Marcelo Blade e o cozinheiro Eduardo Avelar, que faz questão da gola oriental

A gola coloridinha pode parecer apenas um detalhe para a maioria das pessoas, mas para a chef Joana de Castro, do Agosto Butiquim, é quase uma assinatura. "Nossa comida é informal, descontraída, e isso se reflete na forma como me visto para trabalhar", diz. O tecido estampado com vaquinhas aparece discretamente em um de seus doze dólmãs, o tradicional jaleco de origem militar que virou uniforme dos astros das caçarolas. Quando feita sob medida, a peça ganha personalidade. Por aqui, é o alfaiate Marcelo Blade quem alinhava a roupa de trabalho de muitos dos chefs belo-horizontinos. Como Joana, o cozinheiro e apresentador de televisão Eduardo Avelar também usa suas roupas sob medida. Em linho branco, com corte reto e duas pregas atrás, o dolmã desenhado pelo próprio Avelar e executado por Blade tem como diferencial a gola em estilo oriental revestida de tecido cinza-chumbo. "A gola mais alta é essencial porque evita o suor", explica o chef. "O lencinho que os franceses usam no pescoço não é por frescura, e sim por higiene." Como o glamour dos salões não chega até as abafadas cozinhas, Blade pensa no estilo, mas também no conforto.

Filho do alfaiate Augusto do Carmo, dono da marca Hermano, ele cresceu na barra da calça - muito bem cortada - de seu pai. Aos domingos, ainda menino, em vez de ir para a praça brincar com os colegas, ele o acompanhava ao ateliê, onde passava horas entre os carretéis de linha. Há vinte anos, abriu a sua Blade Alfaiataria e, há quatro, criou a linha Gastrô, com dólmãs, toques, como são chamados os chapéus dos chefs, luvas e aventais. Nas araras de seu ateliê, localizado no Cruzeiro, é possível encontrar tanto o modelo mais tradicional, com a camada dupla na frente que permite abotoar nos dois sentidos e ajuda a disfarçar manchas de molhos, quanto os práticos coletes-aventais, que inventou para servir em qualquer aprendiz de cozinha. A cada semana, Blade recebe uma média de dez encomendas de dólmãs, que custam entre 250 e 380 reais. Fabrica ainda cerca de 400 peças por mês do modelo colete, que sai por 50 reais.

Blade aposta na criatividade para cativar a clientela. Para a equipe do bar Rima dos Sabores, no Prado, ele usou retalhos. "A ideia combina perfeitamente com a proposta da casa", conta o chef e proprietário Juliano Caldeira. "Nossa decoração é toda feita com materiais reciclados." Entre as mais recentes criações do alfaiate, os dólmãs pintados a mão caíram no gosto dos mais descolados. Marcelo Haddad, sócio do restaurante Paladino, na Pampulha, já desfila por aí com o seu. "Valorizo muito a arte, e ter um dólmã que parece um quadro é um privilégio. Serve até de inspiração", afirma.

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Estilosos: o clássico Rodrigo Zarife, da empresa BS&A, a descontraída Joana de Castro, do Agosto Butiquim e Eduardo Maya, do Comida di Buteco: "Mais do que fashion, o dólmã deve ser confortável e seguro"

Embora ouse em alguns de seus modelos, Blade sabe respeitar o estilo clássico de clientes como o chef Rodrigo Zarife, diretor da empresa de alimentação coletiva BS&A e especialista em paellas, que gosta do tradicional modelo de dez botões. O tecido, um gorgorão de algodão acetinado, e o nome bordado em preto garantem um toque especial à peça. "O branco dá uma sensação de limpeza, o que é imprescindível na cozinha", argumenta Zarife, que prefere também o corte slim fit, bem rente ao corpo. É o mesmo usado pelo criador do Comida di Buteco, Eduardo Maya. "Mais do que fashion, o dólmã deve ser confortável e seguro", diz Maya, exibindo seu uniforme cinza, em que não pode faltar o pequeno bolso para guardar uma caneta e um termômetro.

Segurança, diz o costureiro dos chefs, é um item que nunca sai de moda. Qualquer material sintético está descartado e as mangas devem ser sempre do tipo três-quartos, para evitar que esbarrem nas panelas. Botões de pressão são aconselháveis para facilitar a retirada da roupa caso algo quente seja derramado sobre ela. Ele conta que a cada dólmã que faz ganha um amigo e, de quebra, privilégios. "Sempre encontro um lugarzinho na mesa do chef, mesmo que o restaurante esteja lotado", diz. Sorte dele, que, na cozinha, só entende mesmo de uniformes. "Sou uma negação", confidencia. "Até o meu ovo frito sai com um pedacinho da casca."

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE