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''Achavam que eu era jeca''

Prestes a lançar um livro sobre sua carreira, o estilista Ronaldo Fraga prepara-se para voltar às passarelas da mais importante semana de moda do país com uma coleção inspirada na Amazônia paraense

Por: Sabrina Abreu - Atualizado em

Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Foi um ti-ti-ti. Em dezembro do ano passado, o estilista Ronaldo Fraga anunciou que não participaria da edição de inverno da São Paulo Fashion Week, que seria realizada no mês seguinte. Em uma carta-anúncio, insinuou que, depois de dez anos pisando nas passarelas do principal evento de moda do país, andava um pouco cansado do mundinho fashion. "A moda acabou?", questionou no texto. Colunistas e blogueiras trataram de espalhar a notícia. E o que era uma pergunta virou um veredicto. "Fui mal interpretado", considera Fraga. "Na verdade, o anúncio foi de uma pausa para tocar outros projetos." O afastamento durou apenas seis meses. Na terça (12), o desfile da nova coleção marcará sua volta ao universo que ele jura nunca ter pensado em abandonar.

O belo-horizontino de 45 anos e bigodes pontiagudos promete levar, como é seu costume, um pouco de irreverência ao palco paulista. Suas peças foram inspiradas na Amazônia paraense. "O Pará é um estado onde gente, árvore, bicho, música e comida são a mesma coisa", diz, misterioso, sem deixar escapar o que trama exatamente para a grande noite. Há um ano, desde que foi contratado pela mineradora Vale do Rio Doce para dar consultoria às artesãs da Cooperativa de Biojoias do Vale do Tucumã, ele tem feito visitas regulares à região. Em uma de suas incursões, deparou com o tecnobrega, que virou febre no país, e a cantora Gaby Amarantos, chamada de Beyoncé do Pará, conquistou seus ouvidos. "Ando encantado com o som dela", conta.

O trabalho na Amazônia foi apenas um dos projetos que o ocuparam nos últimos meses e o levaram a tirar "férias" da São Paulo Fashion Week. Outro foi a organização do livro Caderno de Roupas, Memórias e Croquis, que repassa cada uma de suas 31 coleções profissionais. Com capa dura revestida de tecido, o livro terá quase 300 páginas, 90% delas preenchidas com desenhos. O mercado da moda anda ávido pela confirmação da data de lançamento, que Fraga já adiou várias vezes, sempre achando que ainda precisa incluir um detalhe. "Até o patrocinador pediu para eu parar de bordar", afirma, às risadas. Ele faz questão de se envolver pessoalmente em todas as etapas de produção de suas criações.

Arquivo pessoal
(Foto: Redação VejaBH)

Ser centralizador é um dos defeitos que o estilista reconhece. "Falo para os colaboradores que eles podem fazer o que quiserem, desde que seja do jeito que eu pedir", assume. Ser detalhista ao extremo é outra característica que impressiona quem convive com ele. "Quando morávamos em Londres, na década de 90, Ronaldo passava noites em claro revisando o projeto Eu Amo Coração de Galinha", lembra Rodrigo Fraga, o irmão caçula, que também é estilista. O trabalho iniciado na Inglaterra marcou sua estreia nas passarelas de São Paulo, aos 28 anos. A editora de moda Lilian Pacce era uma das que estavam na plateia e não gostou do que viu - um desfile em tom de narrativa, contando uma história. "Falei que moda não era teatro e que passarela não era palco", diz ela. Na época, Fraga deu o troco: bordou em uma roupa a frase "Moda é teatro, sim" e deixou claro que estava chegando para polemizar.

Nascido e criado no bairro Sagrada Família, o estilista lembra que seu estilo autoral era visto com desconfiança pelos paulistas. "Muita gente me achava jeca por ser de Minas", afirma. Quase duas décadas depois, seu trabalho inconfundível é respeitado pelos principais críticos, o que inclui a jornalista Lilian Pacce. "Ele sempre traz para a moda outras questões, geralmente ligadas ao Brasil, e é bom ver o resgate que faz da nossa cultura", reconhece ela.

Ronaldo Fraga diz que a receita de seu trabalho é pesquisa. "Nunca fiz como alguns brasileiros que copiam o design do exterior e adicionam um parangolezinho para fingir que é originalmente nacional", alfineta. A inspiração para suas coleções muitas vezes vem da literatura. No ateliê instalado no bairro União e no sobrado na Floresta - que divide com a mulher, Ivana, com quem é casado desde 2001, e os filhos, Ludovico, de 10 anos, e Graciliano, de 8 -, centenas de livros estão espalhados pelas prateleiras. "Adoro contar histórias para os meninos." Nos últimos tempos, a Amazônia paraense é que tem inspirado as reuniões familiares. Os garotos andam curiosos sobre o que o pai viu por lá. O mundo da moda também.

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Fonte: VEJA BELO HORIZONTE