Música

Rapper Flávio Renegado conquista o público e a crítica com temas positivos e até românticos

Músico criado na favela do Alto Vera Cruz se prepara para dar passos ousados na carreira

Por: Rafael Rocha - Atualizado em

Nidin Sanches/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

O rapper com sua guitarra Gretsch: "Cansei de ser vítima. Eu seria só mais um falando de negro, periferia e pobreza"

Em uma tarde tranquila de agosto de 2012, Flávio Renegado recebeu um chamado pelo computador. "E aí, negão, quer participar do meu DVD? Vai ter você e o titio." A mensagem era de Bebel Gilberto, uma das cantoras brasileiras mais celebradas no exterior. E o titio era ninguém menos que Chico Buarque. O rapper belo-horizontino mal acreditou. A gravação foi realizada em dezembro do ano passado, tendo o belíssimo Arpoador como palco, bem na hora do pôr do sol. Renegado não pode mesmo reclamar da sorte. Em outubro, pouco depois da mensagem de Bebel, foi escolhido como o artista do mês pela rádio carioca MPB FM. E desde janeiro sua música Diz que Fui, parceria com a sambista Mart'nália, abre a minissérie Pé na Cova, exibida pela Rede Globo. Têm sido assim, bastante movimentados, os dias do rapaz de 30 anos que nasceu e foi criado na favela do Alto Vera Cruz, na Região Leste da cidade. Ex-office boy - filho de mãe faxineira e de pai que morreu vítima das drogas -, ele se prepara para mais dois grandes saltos na carreira. No domingo (2), gravará seu primeiro DVD, com produção assinada por profissionais respeitados nacionalmente. O cenário é de Gringo Cardia, e a direção musical, de Kassin e Liminha, dois dos maiores expoentes do ramo. A direção de vídeo é de Joana Mazzucchelli, que já fez DVDs para figuras do naipe de Ivete Sangalo e Vanessa da Mata. A apresentação será no Parque Municipal, dentro da programação do festival Conexão BH.

O passo mais ousado, no entanto, está previsto para setembro, quando o músico se apresentará para aproximadamente 80 000 pessoas no primeiro dia do Rock in Rio, horas antes da pop star americana Beyoncé. "Fico ansioso, mas não tenho deslumbre. Estou construindo uma carreira", diz. Por trás dessa trajetória vitoriosa estão os conselhos de uma dama de ferro: Danusa Carvalho, sua empresária há cinco anos. Em vez de letras que lamentam a condição marginalizada, Renegado tem conquistado o público e a crítica com temas positivos, até românticos, algo antes impensável no mundo do rap. "Cansei de ser vítima. Eu ia ser só mais um falando de negro, periferia e pobreza. Consigo falar disso, mas como obstáculo a ser superado", explica o artista. Solteiro, ainda mora com a mãe e uma irmã no beco em que passou a infância. Lá, todos sabem: não combina com ele posar de vítima. Sua autoestima é elevada. Antes de pular os fios de esgoto que escorrem pelo caminho de casa até a rua, borrifa perfume pelo corpo, coloca seu boné de aba reta e seus óculos Versace.

"Ele é bonito e carismático, tem o som vigoroso e não se limita ao rap. É realmente um dos poucos nomes do cenário atual que não imitam ninguém", avalia o jornalista e pesquisador musical carioca Rodrigo Faour. Seu disco mais recente, Minha Tribo É o Mundo, vendeu 4 000 cópias e circulou pelas mãos de gente influente do meio musical. Uma das mais empolgadas na divulgação espontânea foi a empresária Marcia Alvarez, que cuida da carreira de Mart'nália. Foi ela quem pôs os dois artistas em contato. Eles se conheceram em Londres, durante o festival Black2Black, que também contou com a participação de Marcelo D2, Gilberto Gil, Criolo e Macy Gray. "Ele tem isso de construir seus versos sem ser sangrento", afirma Marcia. A batida alto-astral do rapper já o levou a lugares como França, Inglaterra, Estados Unidos, Es­­panha, Holanda, Austrália, Cuba e Venezuela. Por­­tugal será o próximo destino: ainda neste mês, Renegado vai cantar suas rimas originais no show que marcará o encerramento do ano do Brasil naquele país. Afinal, o ano também foi dele, o mano da vez.

Flávio Renegado Convida Meninas de Sinhá, Aline Calixto, Rogério Flausino e Sany Pitbull. Parque Municipal. Avenida Afonso Pena, s/nº, Centro. Domingo (2), 18h30. R$ 30,00. Classificação etária: 16 anos.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE