Teatro

Atores Ilvio Amaral e Maurício Canguçu comemoram o sucesso de Acredite, um Espírito Baixou em Mim

Comédia despretensiosa que se transformou na maior bilheteria dos palcos mineiros

Por: Isabella Grossi - Atualizado em

Gustavo Andrade/Odin
(Foto: Redação VejaBH)

Amaral e Canguçu como Lolô e Vicente: em quinze anos, 2 000 apresentações em setenta cidades de dez estados

Sentadas na quarta fileira do suntuo­so teatro do Palácio das Artes, a aposentada Dalila de Oliveira e a professora Márcia Helena Oliveira Machado, mãe e filha, emendavam uma gargalhada na outra durante a última apresentação da peça Acredite, um Espírito Baixou em Mim na 39ª Campanha de Popularização do Teatro e da Dança. Era a 29ª vez que as duas assistiam ao espetáculo. Isso mesmo, elas já conferiram 29 vezes as desventuras de Lolô, homossexual assumido que morre durante um acidente de carro e volta à terra para encarnar em Vicente, um machista noivo de uma perua ciumenta. "Sei as falas de cor", gaba-se Márcia. A plateia que lotou as 1 705 poltronas do teatro reagia à dupla Ilvio Amaral, de 53 anos, e Maurício Canguçu, de 43, protagonistas da maior bilheteria da história do teatro de Minas Gerais e um dos grandes sucessos de público dos palcos brasileiros. Desde a sua estreia, em julho de 1998, foram mais de 2 000 apresentações em cerca de setenta cidades de dez estados. E uma plateia de 2 milhões de espectadores. Calculando por alto, os números equivalem a uma bilheteria de 40 milhões de reais (levando em conta um ingresso médio de 20 reais). A história do espírito abusado passou os últimos quinze anos no topo da lista das peças mais vistas na Campanha de Popularização. Nesta temporada, a disputa pelos lugares foi tão grande que a produção abriu uma sessão extra na segunda (4), às 21 horas. No total, foram vendidas 33 750 entradas até domingo (24). "Além de serem ótimos atores, eles se arriscam em improvisos e usam os acontecimentos do dia para atualizar o texto" diz Dalila. "É impossível não morrer de rir."

No livro publicado pelo ator e jornalista mineiro Jefferson da Fonseca Acredite, um Espírito Baixou em Mim - A Trajetória de um Sucesso, o dramaturgo paulista Ronaldo Ciambroni conta que escreveu o texto às pressas, no meio de uma madrugada, a pedido de dois grupos de amigos que descobriram estar montando uma mesma peça sua: A Dona da Bola. "Precisei entregar logo uma nova opção para que um deles abrisse mão da montagem", lembra. A primeira versão produzida pelos atores paulistas ganhou o nome de Bofe à Milanesa, mas o título não vingou e a trupe achou melhor rebatizá-la. Apesar dos argumentos de Ciambroni, que reprovou a semelhança com o filme americano Um Espírito Baixou em Mim (1984), protagonizado por Steve Martin e Lily Tomlin, o espetáculo ficou em cartaz durante algum tempo, até a produção se desentender de vez com o autor. O enredo estava pronto para ser engavetado quando Amaral e Canguçu apareceram. A dupla, que havia montado Nua na Plateia, também de Ciambroni, corria atrás de um novo trabalho. Àquela época, eles administravam o pequeno Teatro Icbeu, com pouco mais de 200 lugares. Em um dos editais de ocupação da casa, cederam-na por três meses ao ator e diretor Carlos Gradim, que acabou não estreando por falta de patrocínio. "Queríamos uma comédia fácil e que pudesse ser montada rapidamente para movimentar o teatro nesse tempo", diz Canguçu. Das opções enviadas, o Espírito, como a peça é chamada, foi a que mais agradou.

Moacyr dos Santos
(Foto: Redação VejaBH)

A dupla mineira com Carlos Alberto de Nóbrega, no quadro do humorístico A Praça É Nossa: sucesso nos palcos e na TV

A montagem "tapa-buraco" acabou se tornando um fenômeno de público logo nas primeiras apresentações, ainda que os ensaios tivessem durado apenas duas semanas. "No primeiro dia estávamos morrendo de medo", revela a diretora Sandra Pêra, irmã da atriz Marília Pêra, que conheceu a dupla na novela Mandacaru, da extinta Rede Manchete. Sandra foi convidada para fazer o papel de Normanda, a noiva, mas declinou. Acabou aceitando o que seria a sua primeira direção. "Lembro que eu cheguei a fotografar a fila do teatro, de tão grande que ela estava." A princípio, a comédia era apresentada quatro vezes por semana, mas logo surgiram as sessões extras. Em pouco tempo, os atores estavam subindo ao palco de segunda a segunda. "O Espírito é um desses espetáculos excepcionais que não se encaixam em um padrão de produção teatral", afirma o presidente do Sindicato dos Produtores de Artes Cênicas de Minas Gerais (Sinparc), Rômulo Duque. "É como Trair e Coçar... É Só Começar, de Marcos Caruso, outro grande triunfo nacional."

Em menos de três anos, a montagem mineira invadiu outras praças e teve uma malfadada versão para o cinema (veja o quadro na pág. 25), com direção a quatro mãos de Sandra Pêra e Jorge Moreno. Amaral e Canguçu permaneceram em cartaz durante quatro anos em São Paulo e dois anos no Rio de Janeiro. "O carioca tem uma forma mais fria de ver o espetáculo, enquanto o paulista é mais condescendente, ri de tudo", compara Amaral. Passado tanto tempo, Acredite, um Espírito Baixou em Mim consegue se manter atual. Além de mexerem no texto, a cada temporada os atores renovam o figurino e o cenário. Nem o elenco é o mesmo. Da formação inicial, só restam Amaral e Canguçu, que já dividiram o palco com Luiza Ambiel, Lívia Andrade, Fernando Bustamante e Jefferson da Fonseca, entre outros. Hoje, quem disputa as atenções nos tablados são a atriz Fernanda Aguilar e os atores Felipe Cunha e Marino Canguçu, sobrinho de Maurício.

Leandro Couri
(Foto: Redação VejaBH)

No drama A Idade da Ameixa: versatilidade

Natural de São Gonçalo do Pará, no centro-oeste de Minas Gerais, Amaral pisou no palco pela primeira vez em um show de variedades da sua escola, quando cursava a 3ª série do ensino fundamental. Fez teatro com o grupo de uma igreja católica, estudou música e, aos 13 anos, mudou-se para Divinópolis, no interior do estado. Um ano depois, desembarcou em Belo Horizonte. Na capital, formou-se pelo Teatro Universitário da UFMG, com uma peça dirigida por Haydée Bittencourt. "Ele sempre foi muito sensível e cheio de talento, é um orgulho", afirma Haydée. "Muitas vezes o ator tem tudo isso, mas não possui o vigor necessário para dar continuidade ao trabalho." Canguçu também foi apresentado cedo aos tablados. Aos 9 anos, incentivado por sua professora de infância, Alice Pereira, participou de uma peça em homenagem ao Dia das Mães na cidade de Felizburgo, no Vale do Jequitinhonha. "Logo depois ele me disse que queria estudar em Belo Horizonte para ser artista de televisão. Eu dei todo o apoio", conta Alice. Apressado, o menino tímido fez as malas e veio. Em BH, entrou para o grupo de jovens do Bairro União e estudou no Núcleo de Estudos Teatrais (NET), antes de passar para o Sesc, onde conheceu Amaral. No fim dos anos 80, os dois trabalharam juntos na comédia Na Terra do Pau Brasil, Nem Tudo Caminha, Viu?, com texto de Ary Fontoura e direção de Wagner Afonso Assumpção. Na TV, viveram dois cangaceiros na novela Mandacaru. Em 1990, entre uma parceria e outra, decidiram criar a Cangaral Produções Artísticas, no bairro Cachoeirinha.

Os personagens mais famosos da dupla conquistaram a audiência com o quadro Um Espírito Baixou em Mim, do programa A Praça É Nossa, do SBT. "Eles conseguiram cativar o público com esse humor sem maldade, suave, pouco esculhambado", diz o apresentador Carlos Alberto de Nóbrega. Para os dois, o estilo vem de uma respeitada lista de inspirações. Por ela, passam o ator e cineasta francês Jacques Tati (1907-1982), o ícone do cinema mudo Charlie Chaplin (1889-1977) e os comediantes Oscarito (1906-1970), Mazzaropi (1912-1981) e Grande Otelo (1915-1993), além de Chico Anysio (1931-2012), Os Trapalhões, Chaves e Os Três Patetas. "A Cangaral é um bom exemplo desse teatro mais comercial, focado na fidelização do público", avalia o ator do Grupo Galpão Chico Pelúcio. "São competentes e batalham muito para sobreviver no mercado sem patrocínio, e o fazem com dignidade." Mais conhecidos pelo lado cômico, Amaral e Canguçu provaram ser artistas versáteis, com talento tanto para a comédia quanto para o drama. Em A Idade da Ameixa (2004), com texto do argentino Aristides Vargas e direção de Guilherme Leme, a dupla encarna nove mulheres de gerações distintas. "Os dois tiveram o mérito de dosar o lirismo e o humor sutil com a dolência daquelas mulheres que narram suas histórias recheadas de realismo fantástico", defende o crítico paulista Valmir Santos, colaborador da revista BRAVO! e do jornal Valor Econômico. É Leme quem assina a direção da comédia Os Sem Vergonhas (2005), de Daniel Botti, outro sucesso com o público da Campanha de Popularização. Inspirada no filme inglês Ou Tudo ou Nada (1997), do diretor Peter Cattaneo, a peça sobre os seis desempregados que chegam à conclusão de que fazer strip-tease dá dinheiro ficou em décimo lugar no ranking dos espetáculos mais vistos deste ano, à frente de outras 155 produções.

Ambos solteiros, Amaral e Canguçu compartilham um sem-número de afinidades. Na hora de escolher um programa, porém, são como água e vinho. Amaral gosta de passatempos noturnos, ir a restaurantes e de uma boa conversa fiada. Diz que detesta cachoeira porque tem medo de bichos e, se tiver de "mexer" com água, prefere se aventurar na praia. Canguçu é fissurado em corrida e em televisão, adora o dia e ama, acima de tudo, os oba-obas familiares. Ao lado da mãe e dos irmãos, é capaz de passar a noite em claro jogando baralho. Inevitavelmente, as diferenças de personalidade acabam atingindo a relação profissional. "Batemos de frente o tempo todo, mas sempre fazemos o que é melhor para os espetáculos", afirma Canguçu. "O mais importante é manter o respeito, porque é isso que faz da nossa união uma parceria bem-sucedida." E põe bem-sucedida nisso. O sonho antigo de montar um teatro e abrir as portas para os belo-horizontinos com uma agenda de cursos e oficinas começa a ser tirado do papel neste ano. Se depender do pique dos atores, 2013 promete. Entre as novidades, está a montagem de La Nona, de Roberto Cossa, um dos mais importantes dramaturgos do teatro argentino. Dirigida por Néstor Monasterio, a comédia conta a história de uma senhora que come tudo, inclusive as pessoas. A estreia está marcada para setembro.

No segundo semestre, a dupla levará aos palcos também A Última Vida de um Gato, de Alexandre Ribondi. O trabalho reforça a parceria com Guilherme Leme. "Vai ser uma mistura de Os Sem Vergonhas e A Idade da Ameixa, coisa de humor total com uma carga dramática", adianta o diretor, que não esconde a satisfação de trabalhar com a dupla. "É sempre um prazer estar junto de pessoas que encaram a profissão como verdadeiros operários." Amaral e Canguçu se preparam ainda para produzir Minha Avó Ana e o Seu Alzheimer, peça infantil de Dulcimar Moreira, com direção de Fernando Bustamante. Os planos incluem uma parceria com o humorista Carlos Nunes para a concepção de um longa-metragem da comédia Como Sobreviver em Festas e Recepções com o Buffet Escasso, outro sucesso de público. Apesar da agenda cheia, os proprietários da Cangaral sempre encontram uma brechinha para apresentar Acredite, um Espírito Baixou em Mim. "Muitas vezes pensamos em parar com a peça, mas nunca tivemos coragem", admite Amaral. "Não se joga fora um presente desses, concedido pelos deuses do teatro", completa Canguçu. Fãs de carteirinha como Dalila e Márcia agradecem.

Divulgação
(Foto: Redação VejaBH)

Cena do longa-metragem: Bruno Faria, Canguçu e Marília Pêra

Fiasco no Cinema

A versão cinematográfica de Acredite, um Espírito Baixou em Mim estreou nos cinemas da capital em 2006, numa adaptação de Sandra Pêra e Jorge Moreno. Além de Ilvio Amaral e Maurício Canguçu, reuniu Marília Pêra, Arlete Salles, Suely Franco, Nany People, Amora Pêra, Gorete Milagres, Luciano Maia, Bemvindo Sequeira, Cláudia Mauro, Nelson Freitas e Cássio Scapin. A filmagem consumiu mais de 1 milhão de reais em recursos da Cangaral e empregou cerca de 400 profissionais. Pouco tempo depois da estreia, a fita foi retirada de cartaz pela própria produtora, em virtude de problemas técnicos que prejudicaram a exibição. Amaral e Canguçu buscaram recursos para melhorar o tratamento de imagens e, após um ano, relançaram o filme em todo o Brasil. Mais uma vez, choveram críticas em razão do amadorismo da produção, vista por pouco mais de 30 000 pessoas.

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE