Teatro

Grupo Giramundo estreia espetáculo repleto de novas tecnologias

Com 43 anos, a companhia prepara a reabertura do museu que abriga quase 1300 peças e bonecos

Por: Isabella Grossi - Atualizado em

Aandré Carvalho
(Foto: Redação VejaBH)

Os personagens de Aventuras de Alice no País das Maravilhas: atores e marionetes

Considerado um dos papas do teatro de bonecos no Brasil, Álvaro Apocalypse, diretor e fundador do grupo mineiro Giramundo, morreu em 2003 deixando um legado preciosíssimo. Nos 33 anos em que esteve à frente da companhia, na qual atuavam ainda sua mulher, Terezinha Veloso, e Madu Vivacqua, o artista plástico foi responsável por quase todo o processo criativo das montagens. Dez anos após sua morte, essa missão está com a filha, Beatriz Apocalypse. Em parceria com Marcos Malafaia e Ulisses Tavares, ela vem perpetuando a brilhante história da trupe. Na quinta (11), o trio estreia Aventuras de Alice no País das Maravilhas. O 34º espetáculo no currículo do grupo - o último da trilogia Mundo Moderno, que, neste ano, já levou aos palcos belo-horizontinos as montagens Vinte Mil Léguas Submarinas (de 2007) e Pinocchio (de 2005) - põe em cena um Giramundo de cara nova, com um boneco digital manipulado em tempo real graças à tecnologia motion capture, comum no cinema, mas rara no teatro. As novidades do grupo não param por aí. Eles estão prestes a tirar do papel o sonho de lançar a própria linha de produtos, com camisetas, CDs e DVDs, e ainda se preparam para reabrir o Museu Giramundo, na Floresta, que foi criado há doze anos e fechado há dois para reforma. "Estamos sacramentando tudo o que aprendemos nesses anos", afirma Beatriz. "Talvez seja o começo de um novo ciclo."

Na adaptação do clássico escrito em 1865 pelo inglês Lewis Carroll (1832-1898), 55 bonecos dividem o palco com o ator Beto Militani, que faz as vezes do escritor no papel de narrador da história. Fiel à tradição de incorporar novas linguagens cênicas (veja o quadro na pág. 23), a companhia investiu nas tecnologias que valorizam a qualidade do movimento e a presença do marionetista no palco. Aventuras... dialoga com as artes plásticas, com o vídeo e com a música. "Alice é uma peça que permite essa liberdade", diz o diretor Malafaia. Foram três longos anos de produção para chegar ao formato que será apresentado no Teatro Bradesco.

Longe do Giramundo desde 1996, a artista plástica Madu Vivacqua foi convencida a voltar para aplicar sua experiência na supervisão dos bastidores. "Quando a convidamos, ela deixou claro que só ia dar alguns pitacos, mas desde o primeiro momento ficou envolvidíssima", conta Beatriz. "Não significa que ela retornou definitivamente para o grupo. Acho difícil isso acontecer, mas, enquanto ela estiver voltando, está bom", brinca. Afora o encantamento natural proporcionado pela arte milenar, conduzida por marionetistas experientes e novatos, a performance ainda é incrementada com participações mais do que especiais. O elenco reúne, entre outros artistas, o ex-mutante Arnaldo Baptista, que faz a voz do Chapeleiro Maluco, e Fernanda Takai, que dubla a pequena Alice. A cantora, aliás, faz mais do que emprestar o seu inconfundível timbre à protagonista da peça. Ela e seu marido, o músico John Ulhoa, parceiros do Giramundo desde a produção do show Música de Brinquedo, do Pato Fu, assinam as 27 canções da trilha sonora original, que, segundo a dupla, pode acabar virando um CD.

Depois que tiverem passado pelas principais cidades do país, e talvez também do exterior, os bonecos criados para o novo espetáculo poderão ser vistos no Museu Giramundo, que reabrirá suas portas na primeira quinzena de julho graças a uma parceria com a instituição de ensino Fumec. Eles completarão o acervo de quase 1 300 feitos dos mais diferentes materiais - desde cerâmica, madeira e gesso até acrílico, pano e papel, em diversos formatos, tamanhos e cores. Inicialmente, a visitação será aberta apenas para escolas. Depois, todo o público poderá conferir os 43 anos da tradição bonequeira, iniciada numa época em que, com exceção do mamulengo nordestino, eram comuns apenas fantoches de luva e bonecos de fio usados para entretenimento infantil. "O trabalho do Giramundo é muito consistente do ponto de vista estético e da mistura de linguagens", analisa Fernando Mencarelli, professor do curso de artes cênicas da UFMG. Mola propulsora do teatro de animação no Brasil, o grupo hoje compete em pé de igualdade com concorrentes internacionais como a Cia Phillipe Genty, da França, a Forman Brothers Theatre, da República Checa, e a Tof Theatre, da Bélgica. "Além de competência técnica, a companhia acumula um acervo único, que é uma verdadeira preciosidade", resume Lelo Silva, coordenador do Festival Internacional de Bonecos de BH e fundador do grupo Catibrum. De brincadeira de criança, o Giramundo já provou que não tem nada.

Quatro peças revolucionárias

Cobra Norato (1979)

De preto, o manipulador ficava completamente camuflado

Giz (1988)

Vestido de branco, o marionetista dividia o palco com os bonecos

Pedro e o Lobo (1993)

O espetáculo era encenado por marionetistas e bonecos

Aventuras de Alice... (2013)

Entra um boneco digital, graças à tecnologia motion capture

Fonte: VEJA BELO HORIZONTE